27.2.04

KOTRIJ (OU APENAS LOSING MY RELIGION)

Ela observava a paisagem cinza e o chão úmido através da janela daquele trem velho. Era um trem extremamente velho. Daqueles de cinema. Daqueles de Grace Kelly. Daqueles que remetem os mais velhos aos seus sonhos mais infantis, mais sexuais, mais antigos.

Life is bigger
It's bigger than you
And you are not me
The lengths that I will go to
The distance in your eyes
Oh no I've said too much
I set it up


Ela também observava as pessoas todas brancas e vermelhas, com seus casacos marrons e cinzas e seus cachecóis desenhados. E suas bocas com fumaça. O tempo todo. O tempo inteiro. Por causa daquele maldito frio.

That's me in the corner
That's me in the spotlight
Losing my religion
Trying to keep up with you
And I don't know if I can do it
Oh no I've said too much
I haven't said enough
I thought that I heard you laughing
I thought that I heard you sing
I think I thought I saw you try


E o que mais a impressionava, enquanto a cidade sumia através da janela, já com aquela porra de vagão em movimento, era a quantidade de bicicletas coloridas nos dias cinzas e úmidos daquela cidade. Daquela pequenina e adorável cidade, que ela agora deixava para trás.

Every whisper
Of every waking hour I'm
Choosing my confessions
Trying to keep an eye on you
Like a hurt lost and blinded fool
Oh no I've said too much
I set it up


E ao lembrar das bicicletas, ela ficou com os olhos úmidos. Afinal, ela lembrou dele e da sua pequena bicicleta vermelha.

Deus, como ele é lindo! – ela pensou, querendo evitar o choro. Novamente o inevitável choro.

Consider this
The hint of the century
Consider this
The slip that brought me
To my knees failed
What if all these fantasies
Come flailing around
Now I've said too much
I thought that I heard you laughing
I thought that I heard you sing
I think I thought I saw you try


E ela percebeu que embora ele estivesse ficando para trás, a sua felicidade já residia nos seus poros e ela nunca mais dependeria das malditas pílulas cor de rosa para sorrir.

Bastava esperar a sua ligação e o reencontro.

But that was just a dream
That was just a dream


E ela suspirou com alívio, quase em gozo, e derramou lágrimas de felicidade, de paixão, de vida.

Aquilo não foi um sonho.

Definitivamente não...nunca. Aquilo era sua vida real.

Até que enfim...

E ela fechou os seus olhos e tentou dormir e sonhar, pouco se importando com o garotinho ruivo e ruidoso que, sentado ao seu lado, ouvia aquela velha canção do REM sem parar...sem parar...


TODOS ESSES PEQUENOS DETALHES

E, de repente, nada podia ser mais irritante para ela do que aqueles pequenos detalhes. Aqueles malditos pequenos detalhes.

E ele nem se importava com isso.

Ela? Chorava e amaldiçoava o dia em que o conheceu.

Tudo por causa daqueles malditos detalhes.

E ele nem se importava com eles.

Quais detalhes?

Apenas o fato de ela saber que ele jamais a amou ou mesmo sentiu qualquer tipo de carinho por ela.

Ele jamais a amou.

Pequenos detalhes não?

16.2.04

POR FAVOR, USE OS HEADPHONES
LET IT BE (THE BEATLES)

DEIXANDO ESTAR...


E não havia nada, absolutamente nada, mais triste do que a despedida.

E ela sabia bem disso. Já havia se despedido de muita pessoas. Já havia se despedido de muitas coisas, já havia se despedido de muitos “alguéns”. Já havia se despedido da vida, muito embora insistisse em viver.

E não havia nada, absolutamente nada, mais triste do que uma despedida.

E ela sabia bem disso. Naquela tarde, naquele imundo e lotado saguão de aeroporto.

Os seus discos eram velhos. De vinil. Lindos, grandes, brilhantes, cobiçados, porém velhos. Antigos. Marcados. Muito usados. Mas isso pouco importava, pois ela, afinal, ela uma deusa mística. Uma garota sixties, toda beatle, toda moda, toda rock and roll, toda desencanada.

Não.

Não, na verdade ela não era nada disso.

Porra, ela era MUITO mais do que isso. Só que nunca se deu a chance de descobrir.

Ela ainda não percebia, mas era melhor do que todas elas, melhor do que todas as garotas da sua vida, melhor do que todas as garotas da vida dos seus “quase” namorados.

Melhor? Mas que merda de conceito. Ninguém é melhor do que ninguém, não é mesmo? Mas ela era.

Ela era autêntica, honesta, bonita, simpática, triste, doce, calada, tímida, sixties, beatles, rara, enfim, artesanal como um disco de vinil.

Lindo, grande, brilhante e cobiçado.

Cobiçado? Cobiçado por quem?

Oras, seus tolos, cobiçado por todos aqueles que sabem enxergar entre os sulcos. Os pequenos e estreitos e ruidosos sulcos de um velho disco de vinil. Os pequenos e estreitos sulcos de um velho e destruído coração.

E essas pessoas são tão raras...tão caras.

Sorte dela, ou melhor, sorte de quem a encontrar...sorte mesmo.

E ela entrou no táxi na saída do aeroporto, esquecendo (não querendo) de olhar para trás.

Sem olhar para trás.

And when the night is cloudy,
There is still a light that shines on me,
Shine on until tomorrow, let it be.
I wake up to the sound of music
Mother mary comes to me
Speaking words of wisdom, let it be.
Let it be, let it be.


- Música velha, quer que eu troque, mocinha? – o taxista perguntou.
Ela sorriu e apenas respondeu – Não, claro que não. De forma alguma. De forma alguma...



10.2.04

A CAIXA DE PANDORA

"A caixa era do Gigante Epimeteu, que mantinha bem guardados os elementos que utilizara para preparar a Terra. Pandora, muito curiosa, abriu a caixa e deixou escapar todas as bênçãos que o Gigante guardava com todo o cuidado. Desesperada, ela tentou fechar a caixa, mas somente uma dádiva ficou preservada: a Esperança..."


Chovia muito forte lá fora. Muito forte mesmo. Cada gota parecia um pedregulho quando explodia na janela do seu quarto. Cada gota parecia um diamante lapidado gordo, querendo dura e cruelmente arranhar o vidro. Cada gota parecia uma lágrima produzida por algum divindade triste, que morava no céu furioso, todo cinza, quase chumbo. Não se via nada de azul no céu.

Muito menos no seu coração.

Ela estava sentada no chão, descalça. A cama estava completamente tomada por discos, fotos, livros, cadernos, grafites, poesias, rabiscos e rascunhos. Parecia tudo uma grande colagem de artes plásticas. Uma grande colagem sem pé e nem cabeça, sem começo, sem meio e sem fim.

Chovia muito forte lá fora e ela estava apenas sentada no chão do seu quarto, descalça.

Os dedos das suas mãos estavam sujos de nanquim. Nanquim borrado. Escuro. Os dedos das suas mãos estavam sujos e borrados das cartas mal escritas, dos poemas mal arranjados, dos contos mal resolvidos, da sua vida mal retratada.

Ela pouco se importava com isso. Os dedos sujos provocavam estampas sujas naquelas velhas fotos jogadas na cama, naquelas velhas quinquilharias espalhadas pelo seu quarto.

Quinquilharias? Quinquilharias? Pô, que triste adjetivo para a colagem da minha vida. – ela pensou, triste, enquanto permanecia sentada, descalça, no chão do seu quarto de dormir.

E chovia forte lá fora. E como...

Mas não é que um trovão forte, grosso e espesso, estourou os seus delicados tímpanos acostumados apenas à bossa nova e jazz e fez com que ela acordasse? Fez com que ela despertasse?

Ela decidiu que não queria mais ficar ali sentada descalça, ouvindo o açoite insano da água na maldita janela do seu quarto.

Ela decidiu que não queria ter mais os dedos sujos de nanquim barato.

Ela decidiu que não queria mais ter aquela caixa com “quinquilharias” espalhadas sobre o seu colchão, como uma poça de sangue esvaindo do seu coração.

Ela decidiu que não queria mais chorar por amor. Que não precisava mais daquela caixa, que não precisava mais ficar apenas sentada, descalça, com medo de olhar o céu.

Amontoou tudo desajeitadamente e jogou tudo porta afora, dentro do cesto de lixo do corredor.

Voltou aliviada e ainda descalça ao seu quarto.

Voltou decidida.

Ela decidiu que amaria a ele. Não mais. Não a ele. Não a quem o ferisse. Não a quem não a amasse. Não a quem não estivesse por perto.

Ela olhou através da janela e percebeu que mesmo cinza chumbo, o maldito tinha lampejos de azul...

...talvez fossem os seus olhos. Talvez fosse apenas esperança. Talvez fosse nada. Apenas vontade de mudar e ser feliz. O que, convenhamos, não é pouca coisa, ah, não é mesmo!



5.2.04

TODAS AS CORES DA ÍRIS

"Íris: Cada uma das duas membranas circulares e pigmentadas, presentes em cada olho, em cujo centro se encontra um orifício dito pupila, e situada posteriormente a cada córnea" (Dicionário Aurélio).

A ÍRIS DA DOR

Eles estavam sentados a uma mesa bem escondida do Clube Varsóvia. Uma mesa bem escondida e mal iluminada. Além das tradicionais luzes negras e coloridas do Varsóvia, havia apenas uma vela lilás iluminando a mesa cheia de copos vazios de vodka e cinzeiros sujos.

- O que mais você quer de mim? – ela perguntou, aflita, enquanto acendia um cigarro, o décimo da noite.
Ele a encarou, sereno, e disse tranqüilo, quase verdadeiro – Eu quero você de volta? Será que é pedir muito?
- Para quê? – ela perguntou – Por que porra você me quer de volta?
- Amor? Conhece? – ele respondeu, olhando fixamente para ela.
Ela devolveu o olhar e disparou, seca – Conheço, mas em você. Mas não com você. Mas não vindo dos seus olhos. Eles não mentem, sabia?
Ele apenas levantou-se, deu um beijo em sua testa e sumiu através da pequena multidão do Clube Varsóvia. Para nunca mais voltar a mentir. Nunca mais.

A ÍRIS DO AMOR

Eles estavam sentados a uma mesa bem escondida do Clube Varsóvia. Uma mesa bem escondida e mal iluminada. Além das tradicionais luzes negras e coloridas do Varsóvia, havia apenas uma vela lilás iluminando a mesa cheia de copos vazios de vodka e cinzeiros sujos.

- O que você quer de mim? – ela perguntou, nervosa e sorrindo, enquanto acendia um cigarro, o décimo da noite.
Ele a encarou, meio bêbado, e disse tranqüilo, totalmente verdadeiro – Eu quero você? Será que é pedir muito?
- Para quê? – ela perguntou – Por que porra você quer uma idiotinha sem graçade cabelos vermelhos como eu?
- Amor? Conhece? – ele respondeu, olhando fixamente para ela.
Ela devolveu o olhar e disparou, sem pensar – Não, definitivamente eu nunca tinha conhecido dessa forma, dessa forma tão forte como vem dos seus olhos. Eles não mentem, sabia?
Ele apenas aproximou-se, apagou o seu cigarro, agarrou-a suavemente pelo pescoço e deu um beijo cinematográfico em sua boca, pouco se fodendo com a pequena multidão do Clube Varsóvia. Ele não queria mais errar. Nunca mais.