30.1.04

TODAS AS CORES REFLETEM AS DORES

Havia ratos correndo sem parar, pelo asfalto ainda úmido com a maldita chuva quente que desabou durante toda a madrugada. Já fazia mais de uma hora que havia chovido. A umidade quente e presente nos poros da calçada e nos poros do maldito asfalto era como veneno. Um doce e suave veneno, capaz de matar o mais “corpo fechado” dos mortais. Aquele pobre coitado com o coração fechado para o sorriso, para a dor, para, enfim, o que for. Apenas os ratos, as baratas, a sujeira, as guimbas amassadas de baseados mal fumados, as pulgas, os cacos, os destroços, enfim, apenas o lixo e o que não importava e o coração fechado podia com toda aquela umidade.

A noite era cinza; a lua, encoberta, amarela; a lágrima, presente, escura; a raiva, abafada, barbante; a dor, evidente; tão branca; a saudade, suave, azul; o amor, destruído, vermelho...ferido de morte. Como se não houvesse mais amanhã.

E ele estava lá...com os ratos, o asfalto, a dor, a madrugada...apenas chorando.


canção para o fim de semana...

Spiritualized...Ladies and Gentlemen, We Are Floating in Space

"...take the pain away..."
TRAIÇÃO VIOLETA

- Detesto gente falsa e hipócrita e filha da puta – ela disse, irritada e chorando, ao telefone.
- E quem não detesta? – ele retrucou – Ao menos dessa vez, é alguma pessoa que eu conheço? – a amiga perguntou.
- Claro que é – ela disse.
- Então? – a amiga perguntou.
- É ele – ela respondeu, baixo.
A amiga ficou em silêncio. Ela havia descoberto tudo.
Ele e a amiga. Uma improvável e amarga traição.
Violeta como só pode ser a dor. Violeta como jamais será A cor.



29.1.04

Ninguém por aqui...

26.1.04

HELLO

Aceito sugestões por favor... sobre canções já escrevi, sobre cigarros também, sobre lágrimas e sobre muitas coisas.

Gostaria de escrever sobre cores...alguma sugestão?

Amanhã coisas novas...prometo

19.1.04

SEMPRE DESISTINDO

"Você pensa que eu sou um fraco, né? Um idiota, um babaca, um trouxa? Você pensa que eu não sou capaz de fazer nada, mas nada mesmo, porra nenhuma que possa ser útil ou de algum valor ou boa, enfim, que sirva para qualquer pessoa. Você pensa que eu sou um merdinha deprimido e presunçoso, que pensa que essa minha carinha triste pode evitar que a verdade da minha inutilidade exploda bem diante dos meus olhos. Você pensa que eu sou tudo isso, não? Você pensa, não pensa?

Então, minha querida, fique sabendo que, por mais que tudo isso seja verdade, ou melhor, por mais que tudo isso tenha uma pequena superfície de verdade, eu quero que você fique sabendo que eu não sou nada disso, eu não aceito nada disso, eu não quero para mim nada disso. Nenhuma dessas coisas ruins, nenhuma dessas coisas idiotas, nenhum desses rótulos infundados e errôneos e imbecis que você formulou de modo absolutamente homicida.

Fique sabendo apenas isso...NÃO PRECISO MAIS DE VOCÊ! Não mesmo!

Nunca mais...
"

E ele pousou a caneta de tinta preta no criado mudo, bem ao lado do porta-retrato colorido, com uma foto em preto e branco bem antiga deles (dias felizes), e leu e releu e leu ainda mais uma vez, todas aquelas palavras que havia acabado de escrever.

Não havia muita luz no quarto, exceto aquela provocada pelas pequenas velas flutuantes no aquário, devidamente acesas por ele junto com seu baseado.

Não havia muito amor no quarto. Apenas medo e frustração e covardia.

E ele chorou e rasgou em mil pedaços aquela carta imbecil, decidindo, de vez, quem estava com a razão...
BIRTHDAY

- Então hoje é o seu aniversário? – ele perguntou, sorrindo.
- Exatamente. Meu aniversário.
- Preciso te desejar todas aquelas coisas boas que umas pessoas desejam às outras nesta data?
Ela o olhou com um sorriso inundado de alegria – Claro que não, seu tolo. Eu sei que você somente me deseja coisas boas. Somente coisas boas e cheias de alegria.
- Vamos tomar uma vodka? – ele perguntou.
- É para já – ela respondeu – mas você paga, ok? Afinal, pô, é meu happy birthday.
Ele apenas a abraçou com todo o carinho do mundo, como somente os melhores amigos sabem fazer – Claro, querida, claro...

13.1.04

SABENDO MACHUCAR

Eu apenas gostaria de saber algumas coisas.

Algumas pequenas e malditas coisas, para as quais sequer consigo imaginar uma resposta adequada. Eu gostaria de saber a razão de tanto cinza e de tanta chuva. Será que não é o bastante, todo o agito das correntes do mar? Será que não é o suficiente, todo o estrago causado pelo otário que não sabe amar? Será que não é o bastante, todo o erro ortográfico e banal cometido por quem não sabe escrever? Será que nunca é e nem nunca será o bastante?

Eu apenas gostaria de saber e poder e ter condições de enfrentar algumas coisas.

Eu gostaria de saber a maldita razão de um cigarro queimar tão rápido; de uma garrafa acabar tão rápido; de uma garganta secar tão rápido; de uma noite passar tão rápido; de uma vida acabar assim, tão rápido. Eu gostaria tanto de saber.

O problema é que eu apenas “gostaria...”. Não tenho saco e nem coragem e nem vontade e nem cara de encarar essas porras de perguntas e enfrentar essa porra dessa vida.

Eu tenho medo. Apenas medo. E ele vence todo e qualquer resquício de curiosidade e de vida que existe em mim. Ele sempre vence. Sempre.

Mas eu estou aqui apenas desperdiçando o meu, o seu, o nosso tempo. Tudo isso você já sabia, né? Sempre soube, por mais que você negue. Eu não vou ficar aqui dançando com a neblina, enquanto o sol não nasce.

Eu prefiro dias cinzas. Eu prefiro a solidão.

Você já devia saber disso. Eu também.

Apenas peço desculpas. Não posso e nem quero dizer mais nada. Mais nada.

Espero que você fique bem.

Cadu


- Que merda é essa, Estela? “...eu prefiro dias cinzas...espero que você fique bem” Ele ficou louco? Foi só isso que ele te deixou? Essa porra desse bilhete idiota? – perguntou Márcia, sua melhor amiga.
Estela apenas consentiu com os seus lindos olhos verdes, agora totalmente embaçados por lágrimas e lágrimas.
- Idiota. Filho da PUTA – gritou Márcia.
- Ele é apenas um covarde – Estela respondeu.
- Mas que sabe machucar, né?
Estela deu uma risada pesada, abafada e completou – E como sabe. E como...


12.1.04

CHICLETES, APENAS CHICLETES

Ela era apenas uma garota normal. Uma garota normal que adorava uma vida normal, principalmente a SUA vida normal. Ela curtia bastante música normal, filmes normais, roupas normais, bebidas normais, cabelos normais, garotos normais... bem, na verdade eu creio que isso não. Não exatamente. Ela até podia adorar e curtir garotos normais, porém, infelizmente (será?), ela sempre se envolvia e se apaixonava e gritava e sofria e chorava e enlouquecia de amor pelos garotos errados. Pelos garotos nada normais.

E mesmo nessas horas, eu bem me recordo, ela ainda tentava acertar, mantendo por perto a lembrança do que a sua velha avó Zilda lhe dizia, nas distantes e amareladas tardes de domingo na sua sala de estar: “Ninguém é muito normal mesmo, minha querida, qual o problema em cometermos pequenas loucuras?”. Nenhum – ela concordava – Nenhum, mas o meu problema não é o de cometer pequenas loucuras. O meu problema, saco, o meu grande problema, é sempre o de cometer grandes erros, grandes besteiras, grandes bobagens, como, por exemplo, acreditar em amor e em garotos errados.

E como isso jamais mudou, ela aprendeu a viver e assim se entendeu. Passou a viver. Passou a viver apenas como uma garota normal. Uma garota normal que passou a adorar todos os minutos da sua existência normal.

A única coisa que ela não queria era sofrer por todos os “diferentes” cretinos que já cruzaram e que ainda iriam cruzar a sua vida e que acreditam, de verdade, na doença da normalidade – Mas também, foda-se, se isso é viver, isso é inevitável – pensava.

No fim das contas, ela apenas queria que todos os dias da vida de todas as pessoas fossem como chicletes.

Chicletes de bola, chicletes saborosos, chicletes repetitivos, chicletes gozados, chicletes gostosos... apenas chicletes. Simples chicletes, para que a sua vida parecesse como a de todos os outros... apenas uma vida normal.


bastante coisa inédita por aqui...a partir de hoje. Chega de férias...
ALVOS CERTOS

- Parabéns – ela disse.
- Posso saber o motivo da ironia? – ele perguntou, irritado.
- Você acertou em cheio o alvo – ela disparou.
Ele a encarou em silêncio
- Podia ter deixado menos estilhaçada.
- Não tenho culpa se você me amou tanto – ele se defendeu, covarde.
- Nunca se tem, não é mesmo? Nunca se tem.

7.1.04

O GUARDA SOL COLORIDO

- Ei, olhe por onde pisa – ela gritou, a tempo de evitar que aquele garoto com cara de perdido esmagasse os seus novos escuros escuros.
Ele a encarou meio sem jeito e sem saber o que estava acontecendo e não respondeu nada.
- Não olha por onde anda não? – ela prosseguiu, agora mais calma, mas ainda querendo briga.
- Desculpa, desculpa. Mas também, porra, convenhamos que não dá para ficar largando óculos de qualquer jeito numa praia lotada né? Qualquer idiota como eu, por exemplo, pode pisar neles – retrucou, sorrindo.

Ela o olhou com atenção e reparou como ele era lindo. Muito bonito mesmo. Claro que não aquela beleza normal, de capa de revista, afinal isso só acontece nas merdas das novelas e tal, ele era apenas dono de uma beleza que a agradava e muito. Ele era dono de uma beleza absolutamente normal, absolutamente simples, absolutamente cotidiana.
- Então, tô desculpado? – ele perguntou, querendo rir da situação.
- Relaxa, cara. Eu é que ando estressada demais e pareço uma metralhadora basculante – ela disse, querendo aliviar.
- Estressada? Na praia? – ele disparou, irônico - Com todo esse sol e esse mar e esse bronze e esse colorido e esses preços absurdos e essa multidão de pessoas enlouquecidas, querendo matar o primeiro que as impedir de desfrutar de um pequeno pedaço do paraíso no meio de todo esse inferno? Não vejo razão para isso – sorriu.
Ela sorriu também daquele jeito tolo de ele ridicularizar as férias de todos e disparou – Mas você também está aqui, não? Então posso imaginar que não esteja nos seus melhores dias.
- Aí é que você se engana – ele respondeu – Aí é que você se engana. Nós sempre podemos conhecer pessoas adoráveis em meio ao caos, como essa praia, por exemplo.
- Posso saber porquê?
Ele sorriu seu olhar mais bonito, mais encantador, mais delicioso - Eu adoro guarda-sóis coloridos, sabia? – ele disse, apontando para o guarda-sol que estava ao lado dela.
- Eu também, por isso mesmo é que esse é só meu – ela respondeu.
- Eu tinha certeza disso. Certeza. Quer uma cerveja – perguntou.
Ela sorriu e apenas consentiu com a cabeça.

Assistindo aquele garoto lindo se perder em meio ao “mar” de pessoas naquela praia infernal, ela sorriu em silêncio e apenas adorou quase ter perdido o seu novo modelo de óculos escuros.


FELIZ 2004

Será de lágrimas ou sorrisos? Claro que de sorrisos...para todos nós.