23.12.04

e eu posso desejar um FELIZ NATAL a todos vocês, que tem o trabalho de entrar aqui e ler as pequenas bobeiras que escrevo?

posso e devo...

FELIZ NATAL!!!

AMO TODOS VOCÊS... nem imaginam o quanto... nem imaginam...

beijos prá quem é de beijos
abraços prá quem é de abraços...

20.12.04

ROMANCES IDEAIS

- Me diz, então? – ele perguntou.
- O quê? – ela respondeu.
- O que você tem para me dizer – ele disse, irritado.
- Nada.
- Como assim, porra? – ele explodiu.
- Nada. Nada. Nada.
- É isso. Desta forma que acaba? – ele insistiu,
- Não sinto mais nada por você. Nada – ela finalizou.

E mais um romance foi para o inferno. Mais um romance ideal...
NÃO SE INCOMODE COM A DOR DE QUEM É SÓ...

Você gosta de escutar a noite?

Ela adora.

Mais do que seus gatos, mais do que sua música, mais do que seus poemas, suas canções de amor, seus namorados babacas, sua vida pequena, seus sonhos ambiciosos, mais do que tudo.

Ela simplesmente adora escutar a noite.

Os ruídos, as sirenes, as estrelas, as brigas, os amores, enfim, a noite sempre soou como uma sinfonia para os seus delicados ouvidos. Uma sinfonia quebrada e bêbada, surrada e perfeita.

Dentro do apartamento minúsculo com um quarto e sem cozinha, no centro da cidade suja, a noite sempre foi sua (única) melhor companhia. A noite e os seus ruídos de ninar.

Você gosta de escutar a noite?

Experimente.

Mas, por favor, não se incomode com a dor de quem é só.

De forma alguma...


8.12.04

GIMME DANGER – GIMME PLEASURE – GIMME LIFE

Ela dançava e dançava e dançava. Sem parar. Como se o mundo fosse explodir e somente as lendas sobrevivessem ao caos.

E, no meio da pista, tudo o que ela mais queria era ser uma lenda. Sobrevivente do caos. Uma estória de fogo, sangue, sêmem, gozo, batom, rímel, tequila, noite, vampiros, lua, cigarros e canções de amor, canções de horror.

E ela dançava e dançava e dançava. Puro desejo. Teenage kicks. Cada passo uma despedida, uma dança solitária de amor e morte e noite. O seu habitat. O seu lugar. O seu mundo. O seu cenário.

- Você é linda – ele disse, tentando interrompê-la, apenas para fazer parte do seu transe insano e adorável.
Ela o olhou e disfarçou um sorriso, sem nada dizer.
- Posso insistir? Você é linda – ele disse, oferecendo um Marlboro e começando a dançar ao lado dela.
Ela pegou o cigarro com seus dedos finos e suaves, habituados a tantos ensaios inacabados de piano e agradeceu, meio tímida, meio sexy – Obrigado, mas não precisa mentir.
Ele sorriu – Mentir sobre?
- Minha beleza – ela respondeu.
- Mas você é linda mesmo. Nunca percebeu? – ele perguntou, cínico.
Sem parar de dançar, ela argumentou - Às vezes, me sinto como uma espécie de vampiro, sabe? Não me vejo no reflexo do espelho. Ela ficou em silêncio e completou - Na verdade, não quero me ver.
Ele sorriu e balançou a cabeça, discordando totalmente dela – Não, de forma alguma, pode acreditar em mim. Pode acreditar. Você não sabe o que está perdendo.
- Escolha uma canção – ela pediu, rápida.
- Gimme Danger – ele respondeu direto, sem pensar.
- Uau – ela gritou – Uma das minhas favoritas. Lê pensamentos?
- Sua camiseta – ele disse – Só isso.
Ela gargalhou da sua própria pergunta, enquanto lembrava da camiseta preta que vestia, com a estampa nua do Iggy Pop sob os dizeres Gimme Danger / Little Stranger.
- Eu também adoro prazeres com desconhecidos – arriscou.
- Quer tentar me transformar numa conhecida sua? Temos até o amanhecer para isso.
- Prefiro mais tempo. Que tal até a primavera? – sugeriu.
Ela sorriu feliz, dançando para ele uma de suas danças mais noturnas, mais sensuais. Uma dança de início. Início de lendas e estórias...


30.11.04

VENUS IN FURS

Uma cena de cinema.

Calor. Quente. Noite. Verão. Nudez. Paixão. Fantasia. Garoto. Garota.

Os dois estão nus, enlaçados sobre o sofá, como se fossem um. Clichê moderno e banal e vulgar, mas convenhamos, plenamente usual. Os dois estão nus, trepando e fodendo e se amando sobre o sofá de veludo. Ambos nus, ambos nus, mas ela, em verdade, menos despida do que ele. Well, ao menos no quesito roupa. Há meia, espartilho, corpete, couro e pele. Sapatos de salto alto. Sem sapatos. Ela menos despida, mas não menos excitada. Sente o calor exalar como chuva ácida dos seus lábios, dos seus poros, dos seus dedos, dos seus seios, do seu sexo. Sexo úmido, molhado e ensopado. Tesão é o que ela sente, e o seu corpo vibra e treme, como um acorde psicodélico lindo, emitido por um violino desorientado, desafinado, drogado, Sonic Youth, divino.

Ela sente muito tesão. Muito.

Ele também.

As fantasias são densas, tensas, trêmulas, chiques, vulgares, deliciosas, amorosas, maravilhosas, apaixonadas.

Tudo é permitido. Tudo.

E os desejos entram com o vento pela janela aberta da sala, e acabam no seu rosto, no seu corpo, nos seus seios, na sua boca, no seu ventre.

Uma cena de cinema.

Calor. Quente. Noite. Verão. Nudez. Paixão. Fantasia. Garoto. Garota.

Filme noir, filme pornô, filme clichê, filme blasé?

Não, apenas um filme de amor, apenas um filme de amor.


25.11.04

BICICLETAS NÃO PRECISAM DE TEMPO

- Andar de bicicleta? – ele perguntou, quase surpreso, quase sorrindo, quase feliz – A esta hora? Às quatro da manhã?
Ela deu um sorriso delicioso e jogou sobre o seu corpo nu apenas uma camiseta surrada do The Clash. Levantou do colchão e disse, baixinho – Exato, mocinho. Bicicleta. Tem hora para isso? – questionou.
- Bem, você sabe, não? A cidade é violenta, a madrugada é sempre uma armadilha, e, pior, está chovendo muito – ele disse, enquanto enchia um copo americano com água gelada.
- Qual o problema? Tem coisas bem piores do que andar de bicicleta na chuva, não?
- E tem coisas bem melhores também, você não acha? – ele insistiu – Como fazer sexo selvagem em cima deste sofá velho.
Ela apenas sorriu.
- Tudo bem, tudo bem, tudo bem – ele repetiu - Com e por você, eu sou capaz de qualquer coisa.
- Vamos lá, então – ela disse, vestindo um casaco e pegando as suas chaves.

...

E nos dias de hoje, passado tanto tempo e tantas lágrimas e tantos discos e tantas canções e tantas vodkas e tantos desencontros daquela distante madrugada, o que ela ainda mais gosta de cultivar e deixar intacto na sua jovem memória é o exato momento em que ele soltou a frase mágica, a frase maravilhosa, a frase encantada, cujas palavras e sílabas pareceram voar sobre o quarto, literalmente, como notas musicais de canções dos Carpenters: “com e por você, eu sou capaz de qualquer coisa”.

Mentiras? Quem precisa delas?

Apenas todos nós.

E ela continua sentada no banco da sua bicicleta, esperando. Apenas esperando a chuva acabar.



It's Going To Take Some Time
(The Carpenters)

"It's going to take some time this time
To get myself in shape
I really feel out-of line this time
I really missed the gate

The birds on the telephone line (next time)
Are cryin' out to me (next time)
And I won't be so blind next time
And I'll find some harmony

But it's going to take some time this time
And I can't make demands
But like the young trees in the wintertime
I'll learn how to bend

After all the tears we've spent
How could we make amends
So it's one more round for experience
And I'm on the road again
And it's going to take some time this time

It's going to take some time this time
No matter what I've planned
But like the young trees in the wintertime
I'll learn how to bend

After all the tears we've spent
How could we make amends
So it's one more round for experience
And I'm on the road again
And it's going to take some time this time
"
espantei o mau agouro
joguei sobre minha cabeça
um copo cheio de conhaque

conhaque velho
conhaque barato

atraí o tédio
atraí o velho
pulei do prédio

prédio velho
como toda a minha vida

16.11.04

ENCONTRANDO MOTIVOS PARA TER UM MOTIVO

Não havia sol, mas aquele finzinho de tarde estava quente e abafado como há tempos ele não lembrava. Apesar disso, de todo aquele calor de verão insuportável, não havia muitas pessoas na praia.

Estranho – ele pensou. Definitivamente, não havia quase ninguém curtindo a brisa do mar naquela tarde suada.

De qualquer forma, ele era uma destas poucas pessoas e, porra, ele estava muito feliz com isso.

O baseado estava no fim, quase queimando a ponta dos seus dedos. O cd, com as milhares de músicas em mp3 que ele havia baixado, também já estava acabando e o fone de ouvido começava a incomodar. A lata de cerveja jogada na areia, ao seu lado, já era passado há muito tempo. Ele percebeu que mais um dia estava acabando.

Não havia sol e a noite começava a querer invadir, de uma vez por todas, aquele cenário de final de tarde.

Ele sorriu, feliz da vida, lembrando da noite anterior e de tudo o que havia descoberto e sentiu uma imensa falta dela naquele momento. Naquele exato momento em que o seu baseado acabava, o dia morria e a cerveja não mais existia.

- Então? – ela disse
- Então, o quê? – ele respondeu, meio bobo, meio cínico
- Descobriu o que você quer, afinal de contas? – ela insistiu
Ele olhou para o canto da sala, assustado até a morte, com medo de encarar os seus frios e deliciosos olhos verdes e sentenciou, como num drama, como num filme, como num bolero rasgado e antigo, da pior espécie, da pior qualidade – Descobri, afinal, o que eu não quero – e manteve o suspense
- E vai me dizer? – ela perguntou
Ele olhou para a janela e disse – Como se você ainda não soubesse
Ela sorriu – É sempre bom ter certeza. Sempre bom
- Encontrei meus motivos – ele respondeu
- Motivos?
- Exato. Encontrei os meus motivos, as minhas razões. Mais perto do que eu pensava
- Você não tem noção de como eu gosto de ouvir isto. Como eu gosto de ouvir isto
- Para nunca mais deixar de sorrir ou chorar, para nunca mais deixar de ser feliz ou ser só, para nunca mais deixar de viver
Ela o encarou, com muito, mas muito amor mesmo.
- Let´s dance babe? – ele perguntou, brincando
Ela consentiu com a cabeça e esticou seus braços – Claro, meu cavalheiro. Claro que sim


Ele afastou as lembranças e ficou erguido, sentindo a areia escorrer entre seus dedos longos dos pés.

Olhou ao redor e deu um suspiro. Caralho, como ele estava feliz. Estava feliz como há tempos não podia estar.

Quando menos suspeitou, ele decidiu viver.

Boa escolha, diria o sol. Boa escolha...



I Found A Reason
(Velvet Underground)


"Pa papa papa papa
Pa papa papa papa
Pa papa papa papa
Pa papa papa papa
I found a reason to keep living
Oh and the reason, dear, is you
I found a reason to keep singing
Oh and the reason, dear, is you
Oh I do believe
If you don't like things you live
For some place you never gone before
Pa papa papa papa
Pa papa papa papa
Pa papa papa papa
Pa papa papa papa
Honey, I found a reason to keep living
And you know the reason, dear it's you
And I've walked down life's lonely highways
Hand in hand with myself
And I realized how many paths have crossed between us
Oh I do believe
You're all what you perceive
What come is better that what came before
Oh I do believe
You're all what you perceive
What come is better that what came before
Pa papa papa papa
Pa papa papa papa
Pa papa papa papa
Pa papa papa papa
And you'd better come, come come, come to me
Come come, come to me
pa papa papa pa
"

7.11.04

sugestões de canções para contos?

obrigado...
SOMBRA E FUGA

Ela estava cansada. Estava tão cansada como jamais havia imaginado estar. Seus pés doíam, suas mãos tremiam, suas veias eram puro destilado tóxico. Sua cabeça nem parecia mais existir. Seus olhos estavam opacos, sem aquele brilho verde que sempre esteve presente. Seus cabelos estavam sujos.

Ela estava cansada. Tão cansada como jamais imaginou alguém poder ficar. Seus dedos estavam frios e suados. Suas pernas mal apoiavam seu pequeno e outrora delicioso corpo. A caneta tremia e ela não conseguia escrever nenhuma palavra. Nenhuma palavra. A madrugada era alta. Dali a poucos instantes, talvez o sol, talvez a chuva, pouco importa, iria aparecer e matar a noite. Mais um longo dia para ela.

Ela estava cansada. Tão cansada que resolveu sair. Ir embora sem mensagem nenhuma.

Ela abriu a porta e foi embora. De uma vez por todas. Sem saber para onde ir, sem saber do que fugir.

Sem saber?

29.10.04

I CAN´T IMAGINE THE WORLD WITHOUT ME

- Então é isso? – ele perguntou, com um puta sorriso no rosto. Lindo. E como era lindo o seu rosto. Well, lindo de acordo com os pensamentos dela.
- Isso o quê? – ela retrucou, cínica.
- Isso, oras. Você vem, me atropela com o seu charme, me destrói com esses seus olhos maravilhosos, olhos grandes e brilhantes, com essas unhas vivas, vermelhas, divinas, com essa garrafa de champanhe..
- ... e litros de tequila – ela interrompeu.
- Isso – ele gargalhou – Copos e litros de tequila, olhos maravilhosos, charme inevitável, enfim, você me desarma com tudo isso e me deixa aqui nesta cama, nu total, sentindo apenas o delicioso calor do seu corpo gostoso e não vai me dizer mais nada? Não vai querer ficar comigo? Não vai querer voltar?
Ela cobriu com o lençol os seus seios pequenos e macios e suaves e tão tocados naquela noite e o olhou bem atenta, sem nada dizer.
- Não? – ele insistiu.

Enquanto apreciava aquele menino lindo ao seu lado, ela pensou em tudo o que havia sido feito nas últimas horas. Jogos, charme, provocações, beijos, decotes, saliva, dedos intrusos, suor, batom, sexo e sexo e sexo e amor e amor e amor. Ela pensou em todas as coisas ao mesmo tempo e deu um sorriso de alívio. Estava feliz.

- Está rindo de mim? – ele perguntou, enquanto fazia um carinho suave nos cabelos desarrumados daquela linda garota.
- Claro que não. Claro que não. Estou feliz. Apenas isso.
- Por nós?

Ela se levantou e foi até a pequena escrivaninha que havia no canto esquerdo do quarto, pegar um Marlboro.

Enquanto ela acendia o seu cigarro, ele permaneceu como que enfeitiçado, apenas olhando o corpo delicioso e perfeito e querendo saber porque motivo tinha aprontado tantas merdas com aquela garota.

- Sabe – ela disse, sem olhar para ele – talvez todas as coisas boas que passamos, mereçam ficar como a noite de hoje. Inesquecíveis e intocáveis em nossas memórias.

Ele deitou a cabeça sobre o travesseiro dela, adorando sentir o seu perfume e apenas disse, meio triste, meio perdido – Não consigo imaginar a porra deste mundo sem nós.

Ela deu uma tragada e apenas pensou, feliz, muito feliz – Exatamente esta a diferença, meu querido. Exatamente esta. Eu não consigo imaginar a porra deste mundo sem mim.


24.10.04

A LUA FLUTUA...

Nada pode ser tão belo a ponto de ser confundido com a lua. Nada. Coisa alguma nesta porra de planeta, neste universo tão grande e tão fodido, pode ser tão belo, tão maravilhoso, tão soberbo, tão divino, tão diferente, tão mágico, tão sublime, tão intrigante, tão suspeito como a lua. Cheia, minguante, nova ou crescente. Pouco importa. A lua é a inspiração dos amantes, a motivação dos suicidas, a desculpa dos bêbados, a testemunha dos homicidas. A lua é bela, é amarela, é grande, é eterna, é estranha, é quieta. Serena. Tão bela. A lua é o que não podemos tocar. A lua é o que queremos tocar. A lua é como o amor da garota pela garota. Inatingível e marcante. Sensível e intrigante. A lua é a minha companhia esta noite.

Ainda bem...
E QUEM VAI OLHAR PARA TRÁS? VOCÊ?

- Então, vamos fazer o seguinte... – ela disse, escolhendo com muito cuidado as suas próximas palavras – ... você me diz adeus de uma forma educada, fina, com muito carinho e gentileza e eu, otária e idiota, saio por esta maldita porta e nunca mais passo perto da sua vida. Combinado?
Ele socou o ar, impaciente e impotente, como se falasse aramaico, como se falasse uma língua própria e gritou - Você não entende ou não quer entender?
Ela apenas o observou, triste, e saiu pela porta da sala.

Sem olhar para trás... sem olhar...

15.10.04

ANA, ALICE E A CHUVA

- Vai chover – Alice disse, olhando para o céu cinza e frio.
- Tem razão – respondeu Ana – Está muito cinza hoje.
- É bom. Faz tanto tempo que não chove, não? E a minha avó sempre dizia que a água da chuva é a melhor para limpar os cantos sujos da casa e da vida.
Ana sorriu, confortável com o comentário familiar de Alice, feliz por tê-la por perto, sua melhor amiga de tantos anos, de tantas drogas, de tantas viagens, porradas, amores perdidos, enfim, de tudo o que apenas um melhor amigo pode ser, ver, sentir – Mas pelo menos a chuva pode esperar chegarmos em casa, não? É uma boa caminhada desta praia até lá.
- Ah, Ana, deixa disso, e desde quando você derrete com a chuva? Que se foda. Vai ser até bom. O dilúvio vai ajudar os pecadores e, principalmente, evaporar essa pinga da minha cabeça – gargalhou.
- Vamos, então? – insistiu Ana.
Saltando com rapidez da areia quase gelada, Alice concordou – Vamos, vamos, mas me deixa ir fumando – pediu.
- Você e esta merda dos seus cigarros – reclamou Ana, enquanto abria a bolsa de praia e pegava um Marlboro para a amiga - Você devia parar com isso, sabe? Seria bom. Bem bom.
- Não começa Ana, please. Este papo de novo, não. Não hoje. Quando der eu paro de fumar. Quando der.
- E isso nunca vai acontecer, né? Quer dizer, pelo menos nos próximos vinte ou trinta anos. Mas, relaxa, ainda assim eu gosto de você – amenizou Ana, enquanto abraçava a amiga – E me diz uma coisa – aproveitou – Você vai ligar para ele? – perguntou, com receio.
Alice fez que não entendeu, irônica – Ele quem?
- O Edu.
- Edu? Edu? Edu? – repetiu, tentando parecer engraçada – Não me lembro de nenhum Edu.
- Tá bem, tá bem. Depois, quando você quiser, falamos a respeito. Não precisa ser agora.
- Pode não ser nunca, Ana? – pediu, triste, Alice.

Ana ficou quieta e deu um abraço mais do que carinhoso em Alice.

Pensou que a chuva podia começar a desabar naquele exato momento.

Assim as lágrimas da sua melhor amiga neste mundo, ficariam escondidas...apenas escondidas...


11.10.04

SEXY CHUVA

Os vidros estavam embaçados demais, completamente turvos, formando uma redoma protetora, um campo de força, uma película invisível, enfim, um mundo à parte, descolado do nosso, para ele e para ela.

Os vidros estavam embaçados demais e era praticamente impossível, de dentro, enxergar as gordas gotas de chuva que desabavam sobre aquele carro parado.

E eles se importavam com isto?

Claro que não...

A chuva gelada e congelada sofria um nocaute técnico quando em contato com o calor que emanava do veículo.

O ar estava quente. Quente demais.

Quente por beijos, por toques, por carinhos, dedos molhados, por lábios mordidos, peitos suados, corpos aquecidos, línguas, cheiros, bocas, desejos, roupas, falta de roupas, por arrepios.

Eles se beijavam como se a chuva não fosse acabar. Como se o mundo fosse explodir, como se a lua fosse gritar, como se a noite pudesse sentir.

Ela, molhada. Ele, também.

A pele era uma só.

Um doce aroma de despudor e delícia impregnava seus corpos.

Ele sorria.

Ela também.

O amor estava no ar.

Os vidros estavam embaçados demais para que qualquer ser humano pudesse perceber isso. Perceber o quanto eles se amavam... o quanto eles se amavam...




INSISTINDO EM SER TRISTE

- É muito mais difícil escrever sobre a alegria do que sobre a tristeza, você não acha? – ela perguntou, parecendo preocupada.
Ele a observou por alguns instantes e disse, tranqüilo – Não tenho dúvidas sobre isso. A tristeza é muito mais simples de ser transformada em palavras, em descrições, enfim, é muito mais simples de ser transformada em cenários do que a alegria. A alegria talvez não inspire tanto. Não renda tantos frutos nestas nossas cabeças confusas.
- Então, é exatamente por isto que eu escrevo tanto sobre a tristeza. Por ser mais fácil. Quero as coisas mais fáceis para mim.
Ele a encarou com desaprovação e disse, baixo – Ué... – ele questionou – Deu para ser covarde agora?
- Eu? Covarde? – ela retrucou – Talvez. Você vê algum problema nisso? Algum problema em querer evitar problemas?
- Claro que vejo, minha querida, claro que vejo. Você é maior do que estas lágrimas e esta choradeira e esta merda toda. Você insiste em chorar e chorar e chorar. Já percebeu? Isso enche o saco, sabe? Enche muito o saco. Você é bem maior do que isto tudo, bem maior. Mas não, você insiste em não enxergar isto, insiste em ser triste, insiste em parecer sofrida, amarga, desinteressante, cansada. Não existe um limite para tanta auto-piedade? Será que vou ter escutar isto pelo resto dos meus dias?
Ela pareceu chocada diante de tanta sinceridade e suas pequenas mãos começaram a tremer, enquanto ela acendia um cigarro. O último do maço – Você não pode estar falando sério. Definitivamente. Há quantos anos me conhece? Quantos?
- O suficiente para entender tudo isso. O suficiente para te entender.
- Cara, não seja canalha comigo, por favor. Você pode ser tudo, mas canalha, não. Por favor. Não sei como alguém pode ter prazer em ser da forma como você me descreveu. Não mesmo – ela sentenciou -Tudo o que eu quero são sorrisos e manhãs de sol, não o contrário. Há algo errado com isso?
Ele a encarou no fundo dos seus olhos, bem no fundo dos seus olhos e quase gritou - É o que você busca? É o que você busca? Sorrisos e manhãs de sol?
- Melhor pedir a conta – ela sussurrou, enquanto pensava e curtia o seu último cigarro, tentando descobrir como aquele maldito à sua frente sabia tão bem sobre sua alma.

4.10.04

SANGUE COLORIDO

O gosto de sangue nos seus lábios era tão forte que parecia um vinho ruim. Detergente.

O cheiro de cigarros baratos e sujos no ar era tão denso que parecia sufocar. Azedo.

O medo era tão evidente que fazia mais do que assustar. Suor.

Talvez de todas as coisas surpreendentes que ele viveu, a que mais o assustou foi, sem dúvida, toda aquela cena ocorrida na madrugada de inverno.

Tapas na cara dados de forma verbal.

Rasgos na carne provocados por palavras certeiras.

Arranhões profundos causados por olhares raivosos.

Ferimentos, ferimentos, ferimentos.

O gosto de sangue nos seus lábios era tão forte que parecia real.

O amor estava desfeito.

Sem primaveras para poder ressurgir.

Fênix? Ora, quem disse que lendas são reais? Quem disse?

... com certeza um idiota ferido e apaixonado, ferido e enlouquecido, ferido...muito ferido.


1.10.04

PEQUENOS DIÁLOGOS II

- Há algo que eu ainda possa fazer? - ele perguntou, sem jeito.
- Pode sim - ela respondeu.
Os olhos do garoto ficaram ansiosos, esperando uma resposta
- Vá se foder. Suma daqui e da minha vida e nunca mais me ligue, se possível.

Ele não se defendeu. Apenas chorou.

Lágrimas tristes em madrugadas de inverno.

Pobre idiota...
TROCANDO SORRISOS POR BEIJOS NA BOCA

- O que você quer de mim? – ele perguntou, calmo e com um sorriso sereno.
Ela apenas sorriu de volta, sem nada dizer.
- Não vai me responder? Ou não quer me responder? – ele insistiu, brincando de jogar.
- Talvez não, talvez sim. Será que precisamos deste tipo de resposta? Será que realmente precisamos ter este tipo de certeza? – ela devolveu a pergunta.
- Não sei. Apenas quero saber se realmente vale a pena estarmos aqui, no Varsóvia, a esta hora da noite, trocando olhares e mensagens subliminares de amor – ele disse – Apenas isso.
- Mensagens subliminares de amor? – ela repetiu, surpresa.
Ele apenas assentiu com a cabeça, balançando suavemente os seus longos cabelos coloridos, tornando-o, por um breve momento, o homem mais charmoso do universo.
- Subliminares? – ela perguntou, mais uma vez – Subliminares? Será que você ainda não percebeu que a coisa que mais quero na vida é estar com você? – ela escancarou.
Ele sentiu seu rosto queimar e o suor brotar em sua testa. Sem jeito, disse – Então é neste momento que o mocinho beija a menina e tudo acaba bem?
Ela segurou em sua mão e respondeu – É neste momento que o mocinho beija a menina. Se tudo vai acabar bem? Well, isso depende de quem?
- Pouco importa – ele respondeu, enquanto se aproximava daquela linda menina ruiva, para um dos beijos mais suaves e apaixonados de todos os seus dezenove anos.


26.9.04

PEQUENO DIÁLOGO

- Você me liga? - ela perguntou.
- Para quê? - ele respondeu, direto.
Ela o observou em silêncio e murmurou, não querendo chorar - Nenhuma chance?.
Ele olhou sem qualquer sensibilidade e disse - Precisamos mesmo disto? - e entrou no elevador, sem olhar para ela.
- Eu preciso. Deus, como eu preciso - ela murmurou, agora sem se importar em chorar. Apenas sem se importar.



ASTRONAUTAS

E a cama estava totalmente desfeita. Totalmente. Parecia um formidável cenário pós-guerra.

Manchas, copos sujos, cera de velas derretidas pelo chão, restos de baseados molhados, roupas amassadas e jogadas, discos sem encartes, aparelho de som ligado, nada tocando.

Pós-guerra. Desejo incontido.

E ele estava lá, na sacada do quarto do seu apartamento, apenas olhando o corpo adormecido daquela linda mulher extendido sobre a cama deliciosa e sacanamente desfeita.

Toda nua. Toda molhada e marcada pelo calor do sexo e da noite.

Uma silhueta linda e fugaz. Uma estrela.

E as estrelas pareciam tão diferentes naquela noite.

Tão lindas. Como se pintadas por astronautas românticos.

E ele estava lá, com seu corpo também nu deitado na sacada, apenas observando o seu objeto de desejo adormecido por sobre a cama tão desarrumada.

Objeto não, obra de arte. Toda nua.

Molhada pelo calor do sexo e da noite.

E ele acendeu mais um Marlboro e tragou fundo. Bem fundo.

Lembrou da canção que diz que a solidão é pretensão de quem fica, escondido, fazendo fita.

Sorriu por concordar. Sorriu por as estrelas parecerem tão diferentes naquela noite.

Simplesmente diferentes.

E o barulho das estrelas era tão apaixonante... ele mal acreditou...

21.9.04

NOITES SEM BEIJOS

Um beijo. Apenas um beijo.

Gostoso, afetuoso, molhado, sedutor, quente, úmido, apaixonado, enfim, um puta beijo.

Um beijo, com amor ou sem. Era tudo o que ela mais queria naquela noite de lua e de estrela.

E enquanto tomava o seu ácido e olhava para o céu, ela pôde perceber como o terraço solitário daquele prédio cinza e velho era acolhedor.

Acolhedor como as mãos daquele cara que ela não tinha.

A cidade não descansava debaixo do seu olhar severo e magoado. As buzinas gritavam por amores urgentes, amores perdidos, amores carentes, amores desfeitos, amores satisfeitos, por amores inexistentes, por amores, apenas por amores e ela sorriu ao perceber que ninguém sacava o mesmo.

Poucos têm este dom – ela pensou – O dom divino e maravilhoso de perceber o amor.

E ela lembrou do sorriso lindo e charmoso daquele menino besta que havia lhe dado tchau.

Ao invés de chorar, ela sorriu.

Coisas de noites de lua cheia. Coisas de noites de lua cheia.



17.9.04

...e de todas as coisas mais feias e mais belas do mundo, a única que a fazia sorrir era o mar, pois o reflexo no espelho causava angústia e vontade de chorar... e ele disse "eu não sei fazer poesia, mas que foda". ela concordou com a cabeça e lhe deu um beijo fabuloso, formidável, maravilhoso.

ela chorou, sem saber se de felicidade ou tristeza... apenas sem saber...
VOLTEI...

TAVA COM SAUDADES...

27.8.04

DROPS COLORIDOS

Amarelo, verde, azul, pistache, barbante, vermelho, branco, marinho, bordô, lilás, bege, violeta, todas as cores. Todas as cores. Ela estava entediada, brincando de comer suas balas doces, suas balas coloridas. Ela estava cansada, de saco cheio, querendo que os seus drops fossem tudo aquilo que ela mais queria.

Ao menos naquele momento. Naquela madrugada abafada, quente, suada.

Ela o queria de volta, mesmo sabendo, no entanto, que jamais daria certo.

Não por falta de vontade. Não por falta de tesão. Apenas por falta de ... algo mais?

E ela estava perdida entre os seus pensamentos, brincando com o baleiro de alumínio, presente da sua mãe.

Depois de algumas pastilhas, ela sorriu feliz.

Pouco importava se eles iam dar certo ou não. Pouco importava se ela estava sozinha naquela madrugada abafada, quente e suada.

Ela seria feliz. Isto já estava decidido.

Ela merecia isso.

E no outro canto da cidade, sem nem a conhecer (ainda), ele dirigia o seu carro a toda velocidade nas pistas vazias da madrugada, ouvindo Iggy Pop no rádio e esperando por todo o amor que um dia ainda iria encontrar.

Eles mal sabiam das próprias vidas.

A imprevisibilidade de nossas vidas é tão adorável, tão mágica... sempre... assim como as cores das balas embrulhadas.

Adorável surpresa nas palmas das mãos.



POR FAVOR, USE OS HEADPHONES
(CANDY - IGGY POP)


It’s a rainy afternoon
In 1990
The big city geez it’s been 20 years-
Candy-you were so fine

Beautiful beautiful
Girl from the north
You burned my heart
With a flickering torch
I had a dream that no one else could see
You gave me love for free

Candy, candy , candy I can’t let you go
All my life you’re haunting me
I loved you so

Candy, candy , candy I can’t let you go
Life is crazy
Candy baby

Yeah, well it hurt me real bad when you left
I’m glad you got out
But I miss you
I’ve had a hole in my heart
For so long
I’ve learned to fake it and
Just smile along

Down on the street
Those men are all the same
I need a love
Not games
Not games

Candy, candy, candy I can’t let you go
All my life you’re haunting me
I loved you so
Candy, candy , candy I can’t let you go
Life is crazy
I know baby
Candy baby

Uou uou uou
Candy, candy, candy I can’t let you go
All my life you’re haunting me
I loved you so

Candy candy candy
Life is crazy
Candy baby

Candy baby,
Candy, candy
"

AMORES (NA SEÇÃO DE ACHADOS E PERDIDOS)

Clube Varsóvia, mesa 01. Madrugada de terça.

- Odeio isto, sabia? – ela desabafou no Clube Varsóvia, enquanto virava por entre os seus lábios doces e suaves, um copo de algum destilado forte.
- Odeia o quê? Falei algo errado? – ele perguntou, quase assustado.
- Cara, você é surpreendente mesmo, mas eu odeio, odeio, odeio, simplesmente odeio isto – ela quase gritou.
Ele ficou intimidado, querendo apenas entender – Fiz bobagem?
Ela ignorou - Odeio a forma como você me encontrou, me entendeu, me fodeu, me amou, me descobriu. Absolutamente odeio a forma como você invadiu o meu mundo e fez com que eu me tornasse apenas louca e completamente apaixonada por você. Odeio isto. Odeio estar completamente louca por você.
- O que eu posso fazer? – ele disse, meio cool, meio sonso.
Ela encarou os seus maravilhosos olhos pretos e murmurou – Nada porra. Faça apenas o que já está fazendo, mas não me machuque. E venha perto agora e me dê um beijo espetacular. Cena de cinema.

...
I never dreamed that I’d love somebody like you
I never dreamed that I’d lose somebody like you

...

Clube Varsóvia, mesa 17. Madrugada de terça.

- Odeio isto, sabia? – ela desabafou no Clube Varsóvia, enquanto virava por entre os seus lábios amargos, um copo de algum destilado forte.
- O quê? Falei algo errado? – ele perguntou, completamente assustado.
Ela olhou com rancor - Eu odeio, odeio, odeio, simplesmente odeio isto – ela gritou.
Ele ficou intimidado, já havia entendido.
- Odeio a forma como você me encontrou, me entendeu, me fodeu, me amou, me descobriu. Absolutamente odeio a forma como você invadiu o meu mundo e fez com que eu me tornasse apenas louca e completamente apaixonada por você. Odeio isto. Odeio ainda estar completamente louca por você.
- O que eu posso fazer? – ele disse, babaca.
Ela encarou os seus maravilhosos olhos pretos e murmurou, triste e zangada – Nada porra. Apenas suma da minha vida, definitivamente. Me deixe em paz. Cena de cinema.

...
No I don’t wanna fall in love
[this love is only gonna break your heart]

...

Curioso como uma mesma canção pode servir de trilha sonora para situações opostas. Curioso.



POR FAVOR, USE OS HEADPHONES
(WICKED GAME - CHRIS ISAAK)


"The world was on fire
No one could save me but you.
Strange what desire will make foolish people do
I never dreamed that I’d meet somebody like you
And I never dreamed that I’d lose somebody like you

No, I don’t want to fall in love
[this love is only gonna break your heart]
No, I don’t want to fall in love
[this love is only gonna break your heart]
With you
With you

What a wicked game you play
To make me feel this way
What a wicked thing to do
To let me dream of you
What a wicked thing to say
You never felt this way
What a wicked thing to do
To make me dream of you
V and I don’t wanna fall in love
[this love is only gonna break your heart]
And I don’t want to fall in love
[this love is only gonna break your heart]

{world} was on fire
No one could save me but you
Strange what desire will make foolish people do
I never dreamed that I’d love somebody like you
I never dreamed that I’d lose somebody like you

No I don’t wanna fall in love
[this love is only gonna break your heart
No I don’t wanna fall in love
[this love is only gonna break your heart]
With you
With you

Nobody loves no one
"

ESTAREI AUSENTE POR ALGUNS DIAS...

VOLTO LOGO. PEÇO DESCULPAS A MIL E-MAILS QUE NÃO RESPONDI. EM SETEMBRO VOLTO E RESPONDO.

I AM SO SORRY

AMO TODOS E ADOREI O TEMPLATE!!!

23.8.04

POSSO VOLTAR A ESCREVER?

EM MADRUGADAS QUENTES COMO ESSA...
NA MADRUGADA,AS LUZES SÃO TÃO FRACAS

Ele tocava os teclados do seu piano como se estivesse esmurrando alguém. Na verdade, ele não estava tocanado nada. Estava apenas socando as notas, socando o desejo, socando os seus sonhos, destruindo a sua vida frustrada cheia de dor. Não havia música. Havia apenas dor.

Em cima do piano não havia mais espaço para as latas de cerveja amassadas, as fotos jogadas e os cinzeiros sujos. As sobras dos cigarros transbordavam, como se fossem afogá-lo. Como as lágrimas que insistiam em pular dos seus olhos azuis.

Ele socava o piano.

E nas suas mãos, havia sangue do esforço repetido. Na sua mente, havia o olhar dela, lindo. No coração, havia um vazio. Na boca, o gosto do seu batom.

Amor impossível.

Como ele pôde perceber (tarde demais) que ELA era a mulher da sua vida?

Tarde demais... tarde demais.

A mulher do seu melhor amigo.

Na sua mente havia apenas medo.

Na madrugada? Nem as estrelas ousaram brilhar.

Nem as estrelas.

E ele apenas tocava piano. Esperando a luz chegar.

...

"It was late last night
I was feeling something wasn’t right
There was not another soul in sight
Only you, only you
So we walked along,
Though I knew there was something wrong
And the feeling hot me oh so strong about you
Then you gazed up at me and the answer was plain to see
’cause I saw the light in your eyes"
(I saw The Light - Todd Rundgren)

11.8.04

O AVESSO DO DESEJO

Ela estava quieta apenas observando o mar, cenário tão raro em sua vida.

Suas mãos deslizavam sobre a areia e seus dedos finos, pequenos, brancos como a neve, deixavam rastros confusos e sem sentido naquele lençol de desejo.

Quadro a quadro. Detalhe a detalhe. Romance (feliz ou não). O filme era lindo. Lindo. A cor azul do mar sempre combinou com a cor do céu em estado paranóico. A cor chumbo, cinza, urbana.

Ela não percebia ninguém ao redor. Ninguém. Nem alma, nem sombra, nem morte. Estava tão vazia a praia. Tão vazia.

Assim como meu coração – ela pensou, inquieta e desconfortável. E pensar que ele já esteve tão cheio – continuou - Tão lotado e preenchido de amor e desejo e paixão e descontrole e passividade e agressividade e carinho e fúria e masoquismo e horror.

E hoje? Bem, hoje não.

E seus dedos finos e pequenos e brancos como a neve que ela jamais viu ou tocou, continuavam a deixar rastros sobre a areia. Porém, não mais sentido, não mais sem função. Seus rastros eram como um desenho. O corpo de um menino lindo. Um menino incrível. Um menino adorável. Um menino distante. Um menino familiar. Um menino que não (mais) a amava.

Um menino cruel. Muito cruel.

Ela imaginou a razão daquilo tudo.

Não conseguiu qualquer resposta.

O amor ainda era maior do que qualquer outro sentimento, exceto o desejo.

O desejo de sorrir, o desejo de viver, o desejo de amar, o desejo de esquecer, o desejo de lembrar, o desejo de trepar, o desejo de beijar, o desejo de sofrer, o desejo de ver o mar, o desejo de se embriagar, o desejo de navegar, o desejo de voar, o desejo de ser ativa, o desejo de ser passiva, o desejo de ser gentil, o desejo de ser agressiva, o desejo de estar, pelo resto da vida, com ele ao seu lado.

cada desejo tem seu avesso. questão de tempo até a menina descobrir. questão de tempo...


10.8.04

POR FAVOR, USE OS HEADPHONES
SO FAR AWAY
(CAROLE KING)


"So far Away
Doesn't anybody stay in one place anymore?
It would be so fine to see your face at my door
Doesn't help to know that you're just time away
Long ago I reached for you, and there you stood
Holding you again could only do me good
How I wish I could, but you're so far away

One more song about moving along the highway
Can't say much of anything that's new
If I could only work this life out my way
I'd rather spend it being close to you
But you're so far away
Doesn't anybody stay in one place anymore?
It would be so fine to see your face at my door
Doesn't help to know you're so far away
Yeah, you're so far away

Traveling around sure gets me down and lonely
Nothing else to do but close my mind
I sure hope the road don't come to own me
There are so many dreams I have yet to find
But you're so far away
Doesn't anybody stay in one place anymore?
It would be so fine to see your face at my door
And it doesn't help to know you're so far away
You're so far away
Yeah, you're so far away
You're so far away
"


DISTÂNCIA

Não – ele pensou, assustado e cansado – Não. Não, mesmo. Sem mais viagens, sem mais delírios, sem mais problemas, sem mais brincadeiras – continuou, enquanto apagava o cigarro mentolado dentro de uma lata de cerveja vazia.

O barulho do chuveiro era forte. O barulho do que ele mais gostava.

Ele estava sentado sobre a cama com os lençóis desarrumados, ouvindo as gotas explodirem no chão do boxe, como se fosse possível voltar o tempo e ter tudo o que ele perdeu.

Ele decidiu ir até o banheiro acabar com aquela palhaçada.

Antes de entrar no cubículo que ele chamava de banheiro, parou e ficou apenas imaginando.

Imaginou como se fosse hoje. Ela dentro daquele boxe, linda, tomando um dos seus deliciosos banhos quentes, semi-nua, semi-encoberta pela espuma do shampoo barato, completamente maravilhosa.

Decidiu matar seu passado. Entrou no banheiro e desligou a torneira fria do chuveiro.

Vazio. Totalmente vazio e ela não estava lá.

E ele ficou chorando sozinho no chão do banheiro. Gritando em silêncio as palavras da velha cantora, que martelavam nas caixas de som.

Seria tão bom te ver na minha porta
E não ajuda nada saber que você está distante
Distante
Tão distante


Cruéis, porém tão reais.


9.8.04

(SONHANDO) APENAS POR QUERER NÃO ACORDAR

Sonhos? Sonhos mesmo? Daqueles do tipo conto de fadas? Sonhos assim, dessa natureza?

Quem nunca os teve?

...

Ela era apenas uma garota anti-película, ou seja, uma garota normal, do tipo que NUNCA se vê nos cinemas.

Suavemente doce, dolorosamente comum, estranhamente alegre, sensivelmente simples.

Ela era somente uma garota normal.

Ele? Não, ele definitivamente não. Ele não era nada normal. Nada mesmo.

Ele era seguro, confiante, conquistador, bonito, inteligente, esperto, moderno, educado, grosseiro, arrogante, charmoso, afiado, enfim, um garoto totalmente película, do tipo que SEMPRE se assiste nos cinemas.

Ele era obcecado por ela.

Ela não gostava de ficar próxima a ele.

Ele teve o ego ferido transformado em amor. Ela não.

Ela? Ela teve o amor transformado em medo.

E jamais ficaram juntos, muito embora ambos quisessem. Desesperadamente.

...

Sonhos? Sonhos mesmo? Daqueles do tipo conto de fadas? Sonhos assim, dessa natureza?

Quem já os realizou?


6.8.04

CATACUMBA
(for iris...)


Ela era simples e tranqüila e suave e gentil. Respirava tranqüilidade.

Ela queria amar. Apenas amar. Com toda a sua força, com toda a sua vontade, com toda a sua juventude, com todos os seus medos.

Problema de quem não acreditasse nisso.

Catacumba não a prende. Catacumba não a afeta. Catacumba não a aquece.

Ela queria apenas ser o que sempre foi. Uma pessoa apaixonada por tudo o que lhe dava prazer.

Apaixonada pela sua vida.

E isso NUNCA é pouco.

E se ele não percebia isso, quando olhava no fundo dos seus olhos, well, azar o dele. Perdeu o jogo, a vida, a aventura, o caminho.

Sorte dela. O leque de opções estava de novo aberto, conspirando a seu favor.

Ela sentiu o coração aquecido enquanto dançava ao ritmo daquele repinique eletrônico. A troca de olhares foi imediata e o leque voltou à sua mente.

Sentiu seu coração fervendo.

De repente, a noite era a melhor coisa que havia acontecido a ela. Ainda que dentro de uma catacumba. Um clube qualquer chamado Catacumba... para dançar e viver enquanto se pode sorrir.

E isso, bem, isso ela sempre poderá... sempre!!!


BATOM ROSA

Ela estava toda desajeitada sobre a cama, sentada em diagonal, toda louca, toda afoita, toda cena, pintando as unhas dos pés. Apenas uma toalha envolvia os seus longos cabelos molhados. A cena era delírio. O esmalte escorria entre os dedos e manchava os seus dedos pequenos, finos, estreitos. Definitvamente, Eva, a manicure da esquina tinha muito mais prática. Mas quem se importava? Ela ouvia uma canção, uma balada. Estava sozinha em casa. O telefone tocou. Insistente. Ela não atendeu. Sabia quem era, sabia o que queria. Ela pouco se importava com quem a chamava.

Ela apenas se importava com os seus vinte e poucos anos e com a cor do seu esmalte. Esmalte vivo que deveria, sem a menor sombra de dúvida, apenas combinar com o tom do seu batom rosa.

3.8.04

BLACKBIRD

Eles estavam tranqüilos, sujos, quietos, lado a lado, ombro a ombro. Apenas deitados. Apenas amigos.

Eles estavam jogados na areia úmida, ouvindo o barulho do mar e tendo como varanda particular o nascer do sol. O nascer do sol, esse eterno cartão postal.

Postcard para crianças, postcard para drogados, postcard para dementes, postcard para apaixonados, postcard para encurralados, postcard simples, totalmente embaralhado por gigantescas doses de cerveja.

Mas o nascer do sol era apenas paisagem e o silêncio, o verdadeiro vilão, era o culpado. Rompido apenas por Netuno.

E eles estavam sedentos, sebentos, inquietos, lado a lado, ombro a ombro. Coitados.

O verão havia chegado ao fim há meses. A praia ficaria durante todo o resto daquele dia como estava naquela hora do amanhecer: vazia.

E o sol nascia belo e longe, bem longe, enquanto a noite fazia força para não ser vencida.

Eles permaneciam quietos, ouvindo o barulho do mar.

- Olha – ele disse, apontando um pássaro negro e lindo, pousado na areia e cantando algum réquiem afinado para a madrugada.
- Que lindo – respondeu ela, doce, erguendo um pouco, mas muito pouco, a sua cabeça toda envolta em areia para observar aquele pássaro.
- Ele está machucado, não? – ele perguntou.
- E quem não está? – ele retrucou, deixando de olhar o pássaro.
- Tem uma canção dos Beatles que eu adoro – ele disse, animado – Blackbird.
- Nunca ouvi – ela retrucou.
- Mas precisa, sabia? Tem um trecho que é ideal para quem vive machucado – ele continuou – Diz mais ou menos assim – “Blackbird cantando na morte da noite / Pegue suas asas quebradas e aprenda a voar / Toda a sua vida / Você apenas estava esperando este momento para se levantar ... Toda a sua vida / Você apenas estava esperando este momento para ser livre”.
Ela ficou em silêncio por breves instantes e perguntou – Será que somos nós?
Ele não respondeu, preferiu o silêncio, enquanto o pássaro negro abria suas asas e começava a voar...


2.8.04

...devo posts novos aqui, e-mails e muito mais coisas...

cumpro amanhã, se me permitirem...

combinado?

23.7.04

moça das surdas palavras. aceito o template novo...

obrigado.
MELT WITH YOU

Tudo o que eu quero é um amor sincero, um amor eterno, um amor etéreo, um amor honesto, um amor externo, um amor interno, um amor esperto, um amor deserto, um amor cara de pau, um amor insano, imodesto, narciso, vagabundo, delirante, descuidado, cauteloso, imaturo, generoso, consciente, onisciente, onipresente, enfim, apenas o amor que eu sonho e que você não pode me dar...

DESCULPE dizer assim... por carta. Você merecia mais, mas eu não podia te dar. Definitivamente

Beijos.

Isadora


E ele rasgou a merda daquela carta com todo o ódio e fúria e rancor que jamais imaginou sentir.

Desabou em lágrimas, derretendo como gelo em asfalto quente.

Nem as suas drogas o ajudariam agora.

Precisava de...

Dela. Apenas dela.


20.7.04

WE COULD SEND LETTERS

- Então é isso? – Isa perguntou, enquanto dava um abraço apertado na amiga Ju.
- É – Ju respondeu, com os olhos cinzas de lágrimas – E você acha pouco? – continuou, tentando sorrir.
Isa ficou em silêncio e apenas encarou-a com seus lindos olhos azuis, agora com as mãos suavemente pousadas sobre os ombros da amiga.
- Também não é tão ruim assim, vamos. Estaremos próximas e continuaremos amigas. Grandes amigas. As melhores.
Isa sorriu sem jeito e disse, triste – As melhores amigas do mundo. As maiores de todas. As inseparáveis.
Ju a observou com ternura e fez um carinho nos cabelos bagunçados a amiga – Inseparáveis mesmo. Inseparáveis. Pode apostar nisso. Mesmo distante um oceano de você, espero que saiba que estou levando muito desse seu jeitinho, desse seu carinho, desse seu sorriso, desse seu olhar comigo. Estou levando aqui comigo. Por onde quer que eu vá.
- Os dias vão ser mais cinzas a partir de hoje, mas mesmo assim eu não quero ser dramática e excessiva – disse Isa, contendo o choro.
- Não querida, não pensa nisso. Nada de cores cinzas. Óbvio que eles existirão, mas os dias vão ser mais azuis do que cinzas. Azuis como os seus olhos.
- Isso tá parecendo uma novela mexicana, daquelas bem, mas bem cafonas mesmo – brincou Isa, abraçando ainda mais uma vez a sua amiga, naquele aeroporto frio e impessoal.
- De qualquer forma, nós ainda podemos escrever cartas uma para a outra, quando o medo chegar – disse Ju, animada.
Isa a olhou com um carinho que apenas as melhores amigas conseguem sentir e disse, realista – Querida, querida, querida. Não. Não. Hoje em dia as pessoas não escrevem mais cartas. Não. As pessoas não escrevem mesmo mais cartas. Mas, ainda assim, fique tranqüila, você está e estará sempre por aqui, no meu coração.

E choraram ainda mais uma vez, transformando despedidas em cartas em papéis de seda. Impossíveis de absorver palavras escritas em nanquim...


16.7.04


GARRAFAS E VERDADES (QUASE SEMPRE) NÃO COMBINAM

Nossa, deve ser meu décimo cigarro essa noite – ela pensou enquanto segurava um cigarro apagado entre seus dedos pequenos e frágeis, divertindo-se do próprio estado de perdição. Foda-se. Vamos continuar. Hey Ho Let´s Go – prosseguiu, enquanto girava a garrafa vazia de vodka sobre a mesa suja de metal daquele boteco indecente e esperava para saber quem faria a próxima pergunta.

Bingo. Ela perguntaria.

Pergunta: Você não acha que já deu no saco esse papo de que eu te assusto e você quer viver dentro dos limites de segurança e que nós dois juntos precisamos de um tempo?
Silêncio e breve resposta: Eu te amo, mas não estou tão pronto assim como você acredita.

Babaca – ela pensou – Idiota, babaca, cretino, imbecil, moleque, medroso, inseguro, otário, perdido, canalha. Não vê que isso é conversa mole? Não vê que é apenas desculpa? Clichê de sessão da tarde. Pára com isso – concluiu nervosa, enquanto acendia o tal cigarro que estava apagado.

Nova rodada. Nova sorte. Ela perguntava, de novo.

Pergunta: Você não prefere ser homem e assumir suas vontades?
Novo silêncio, nova breve resposta: Pena que você me veja assim. Pena mesmo.

Que ódio. Seu demente, não percebe que você é tudo na porra da minha vida? Não percebe? Não percebe que quando temos medo de amar, temos medo de viver. E quem vacila, quem teme, quem geme, quem não se assume, quem sufoca, quem apavora, quem só chora, não vive. Perceba isso, idiota.

- Desculpe interromper mocinha, mas já está nascendo o sol, e estamos fechando para dormir umas poucas horas antes de abrir de novo. Não gosto de interromper suas viagens com essa garrafa de vodka, mas lamento, eu tenho que te dar a conta – disse a voz de um homem visivelmente cansado, em pé ao lado dela.

Ela encarou-o - meio bêbada, meio triste - e pediu desculpas. Pagou por toda a rodada de vodka barata e cigarros que havia consumido e saiu do bar sozinha e constrangida, apenas querendo saber a quem ela queria enganar.

Jogo da verdade não se joga sozinho. A menos que você queira se machucar. A menos que você queira muito se machucar... 
  

12.7.04

APENAS ELES. O MUNDO EM VOLTA POUCO IMPORTA

Eles estavam lá, sentados naquela mesa de bar, absolutamente alegres e felizes e contentes. Apaixonados. Simples assim. Apaixonados como sempre um pelo outro, apaixonados como sempre quiseram, como sempre puderam, como sempre foi. E, de acordo com os seus próprios e generosos corações, como sempre será.

E eles estavam lá. Sentados e conversando animadamente sobre todos e sobre nenhum assunto. Sentados e observando apaixonadamente cada detalhe um do outro. Cada detalhe do olhar, da pele, do rosto, dos cabelos, dos perfumes, das mãos, dos lábios, enfim, cada detalhe do seu próprio amor.

E os garçons passavam, os cigarros viravam fumaça, as bebidas acabavam, as pessoas mudavam, o bar “acontecia” e eles pouco se importavam, pouco se importavam, pois tinham um ao outro e isso era o mais importante. Naquele e em todos os momentos.

- Engraçado – ele disse, divertido, enquanto acendia mais um cigarro mentolado.
- O quê? – ela retrucou, curiosa.
- Estamos juntos há tempos e parece que mal acabamos de nos conhecer – ele disse.
Ela bebeu um gole do seu copo americano de cachaça doce e gostosa e provocou – Quer dizer que ainda sabe pouco sobre mim? Depois de todos esses anos? Mesmo depois dessa vida? Nunca teve curiosidade de saber mais?
Ele sorriu o seu sorriso mais brincalhão e respondeu, firme e divertido – Eu te conheço como a palma da mão, sweetie honey. Como a palma da SUA maravilhosa e pequena e linda mão. O que eu quero dizer, de verdade, é que mesmo depois de todos esses anos, eu te amo demais e ainda tenho muito, mas muito mesmo, para te amar. Curioso, né?
Ela o olhou doce e murmurou - Você é lindo – sem graça e tomando mais um gole do seu copo.
- Você é que é. Mais do que linda. Você é tudo. Tudo de bom. Toda boa. Aliás... – ele começou, deixando no ar o suspense.
- ... aliás? – ela perguntou, curiosa.
- Olha para o seu relógio. Já é meia-noite. Parabéns. Parabéns por mais esse seu aniversário – ele ergueu sua vodka, em um brinde sensacional.

E ela sorriu desastrada e contente e eles se beijaram de forma espetacular, de forma cinematográfica, como apenas os amantes conseguem. Como apenas o verdadeiro amor permite. Como apenas dois jovens – sempre – apaixonados.

As pessoas em volta eram apenas platéia...

...


BOBAGENS

E ele tinha medo de colocar os pés descalços no assoalho frio
(podia haver cacos de vidro no chão)
E ele tinha medo de acordar de madrugada
(podia não haver luz)
E ele tinha medo de encarar o espelho
(podia enxergar suas rugas)
E ele tinha medo de ouvir verdades
(podia perceber quem ele realmente era)
E ele tinha medo de perder os amigos
(podia ficar sozinho)
E ele tinha medo de ser ele próprio
(podia ser alguém que ele não gostava)

30.6.04

QUAL O MOMENTO CERTO DE ERRAR?

Eles estavam cansados, andando na praia, andando exatamente no melhor lugar do mundo em que se pode estar às cinco e meia da manhã de um dia de verão: no lugar em que as ondas morrem na areia, no lugar em que as ondas terminam a sua deliciosa viagem, no lugar em que as ondas alcançam, finalmente, o seu grande objetivo.

Beira-mar...

- Você não vai acreditar – ela desafiou, sem graça.
- Se você me contar, quem sabe eu consiga – ele retrucou, jogando fora a ponta final que segurava do seu baseado babado.
- Na areia não, sua besta – ela gritou, tipo mãe – Joga essa porra no lixo.
Ele fez uma cara de irritado e apenas resmungou qualquer coisa, enquanto corria em direção a uma cesta de lixo, perto de um bar.

Voltou correndo e disse, quase sem ar – Pronto. Pronto, minha querida Sofia, seu desejo de uma praia limpa já foi atendido, pode continuar o que estava tentando me dizer – ele sorriu.
Ela respirou fundo e pareceu estar escolhendo as palavras – Talvez, pela primeira vez em toda a minha vida, eu creio que estou verdadeiramente apaixonada por alguém – disparou, como se tivesse confessado um crime, uma chacina, um ato de terrorismo.
Ele parou de andar por um instante e a encarou, sério, porém tentando disfarçar.
- É – ela prosseguiu – Talvez meu ritmo não seja muito rápido, não sei, talvez meu espírito não seja dos mais apaixonados, mas o fato é que mesmo demorando, finalmente estou sentindo “essa coisa”, sabe?
- Sei – ele disse, baixo – Vai me dizer quem é o felizardo?
Ela olhou para o mar azul, lindo, que agora, com o sol começando a nascer, estava absolutamente entorpecente.
- Não vai me dizer? – ele insistiu, angustiado.
Ela, sem desviar os seus olhos do mar de verão, perguntou – Você não sabe ou é apenas uma vingança por eu ter te dado aquele fora de “amigo” há uns bons anos?
Ele ficou em silêncio, com o estômago amordaçado, como se tivesse sido nocauteado em cheio no meio do rosto.
- Você não sabe? – ela disse, ainda mais uma vez, agora esquecendo o mar, o lúdico mar azul.

Ele se aproximou e deu um beijo impressionista naquela garota diante dele, um beijo molhado, sensual, amargurado, apaixonado, sufocado, estranho...


E enquanto se beijavam, com o verão de testemunha, ela simplesmente pensou – Sempre é tempo, que bom, que bom...
E enquanto se beijavam, com o céu de testemunha, ele simplesmente pensou – Não te amo mais Sofia... e agora? O que vai ser de mim?


24.6.04

dor de cabeça e excesso de coisas para fazer e ausência de barra de cereais e madrugada no trabalho... enfim, tudo isso rendeu um post longo e delicioso: o de baixo.

Adorei fazê-lo. Enjoy... espero que curtam...
LET´S TALK ABOUT SEX, PAIN AND LOVE...

LET´S TALK ABOUT SEX

Ela adorava provocá-lo. Simplesmente adorava. Adorava deixá-lo com cara de bobo, com cara de paspalho, com cara de idiota, com cara de desejo, com cara de espanto, com cara de tesão, enlouquecido. Ela adorava isso. Ele também.

Ela fazia caras e bocas e mostrava discretamente a ele a sua língua e exibia a sua têmpora ligeiramente molhada de suor e de vontade e de amor e fazia questão que ele percebesse o leve tremor nas suas mãos. Um tremor pós-beijo, um tremor pré-gozo, um tremor leve e gostoso, como deve ser todo bom amor.

E ela adorava fazer cara de menininha perdida, de garota inconseqüente, de mulher perdida, de devassa apaixonada. E ele também, simplesmente adorava tudo isso.

Como num jogo de gato e rato, como num jogo de esconde-esconde, pega-pega, toque de mãos, beijos molhados. Como num jogo de amor. Simplesmente isso. Amor entre dois jovens enlouquecidos e apaixonados.

E o saguão do Hotel Varsóvia parecia uma grande viagem de vinho, entre saias erguidas, calças abertas, beijos molhados e amor, muito amor incontido.



LET´S TALK ABOUT PAIN

Ela detestava brigar. Simplesmente detestava. Odiava deixá-lo com cara de medo, com cara de dor, com cara de idiota, com cara de sofrimento, com cara de espanto, com cara de decepção, enlouquecido. Ela detestava isso. Ele também.

Ela não fazia caras e bocas e tentava não mostrar a ele os seus olhos e a sua têmpora ligeiramente molhada de suor e de vontade e de pavor e fazia questão que ele não percebesse o leve tremor nas suas mãos. Um tremor pós-briga, um tremor pré-choro, um tremor forte e desgostoso, como não deve ocorrer (mas sempre ocorre) em todo bom amor.

E ela detestava a cara dele de menininho perdido, de garoto inconseqüente, de homem confuso, de incompreendido apaixonado. E ele também, simplesmente detestava fazer tudo isso.

Como num jogo de gato e rato, como num jogo de esconde-esconde, pega-pega, empurra empurra de mãos, beijos evitados. Como num jogo de raiva e dor. Simplesmente isso. Raiva e dor entre dois jovens enlouquecidos e (não mais) apaixonados.

E o saguão do Hotel Varsóvia parecia uma grande viagem de tequila barata, entre cabelos arrepiados, fotos rasgadas, beijos esquecidos, e lágrimas, muitas lágrimas incontidas.



LET´S TALK ABOUT LOVE



Precisa falar alguma coisa…?

18.6.04

PERFUME DE CORPOS

Perfume de corpos. Esse era o aroma do quarto, daquele quarto apertado e colorido do pequeno apartamento dela. Mas, na verdade, a dimensão daquele minúsculo quarto era o que menos importava naquele instante para os dois sobre a cama. Naquele momento, as bocas eram intensas, as mordidas eram suaves, os lábios eram vários e a saliva era doce. Naquele momento, o que havia era apenas paixão iluminada à luz de velas e lua. Lua cheia e muita paixão e muita vontade de eles serem apenas felizes. Sem lugar para qualquer outro sentimento. Sem lugar para nada.

O perfume de corpos naquele colorido quarto do apartamento pequeno dela era intenso, vivo, lindo, adorável, doce e apaixonante. Ela o queria. Desesperadamente. Ele a queria. Desesperadamente.

Mãos tocavam peles, tocavam coxas, tocavam nucas, tocavam pelos, tocavam bocas, tocavam pés, tocavam mãos, tocavam lábios, tocavam peitos, tocavam dedos. Mãos suadas. Mãos molhadas. Corpos também.

E no meio do suor e do desejo e do quarto semi-escuro, como se fosse possível, a silhueta do perfume de corpos parecia poder ser visto a olho nu por qualquer mortal apaixonado.

Bastava usar o olhar certo.

O olhar de velas, de luas cheias e de corpos apaixonados...


MAÇÃ...APENAS UMA MAÇÃ...

ela estava sentada em frente ao seu computador
seu pequeno diário
seu pequeno confessionário
ela sentia um misto de tristeza e alegria
um misto de confusão e nostalgia
ela sabia o que queria
e o que não queria
ela estava contendo as lágrimas
como forma de conter o passado
mas sua avó sempre dizia:
"sem passado, no way dearest child, não temos qualquer futuro. Então use isso em seu favor".
e ela deu um leve sorriso quando lembrou disso
um leve e lindo e suave sorriso
cheio de alegria
e então ela decidiu que não iria chorar
olhou para seu pequeno notebook
seu pequeno confessionário
e decidiu começar a escrever o seu futuro
e ela estava linda
não mais triste
comendo uma maçã
doce como ela
doce e forte como ela...
...

15.6.04

QUEM NÃO PRECISA SER COMUM?

Ela trabalhava no Clube Varsóvia há vários meses. Garçonete (ela detestava este termo, mas mesmo em tempos modernos, chatos e politicamente corretos como os de hoje, ainda é assim que são chamadas as mulheres que trabalham como “garçons” ou no exercício de profissão similar).

De qualquer forma, fosse qual fosse a sua “profissão”, o fato é que ela trabalhava no Clube Varsóvia há vários meses e isso era bastante tempo.

Tempo suficiente para perceber como as pessoas são loucas, psicóticas, insanas, anormais, apaixonadas, verborrágicas, caladas, sentimentais, frias, cruéis, verdadeiras, amigas, tolas, fúteis, interessadas, egoístas, generosas, enfim, toda a sorte e espécie de adjetivo que você possa imaginar na nossa língua portuguesa.

E ela adorou ter percebido isso.

A solidão e a porra da insegurança, que sempre a incomodaram, deram lugar a uma espécie de esperança. Isso, esperança... quem diria.

Pode parecer tolo e idiota e vulgar e clichê e novelesco, porém a nossa doce e adorável e amável “garçonete” ganhou esperança.

Esperança de que mesmo ela, uma moça comum, com um cabelo comum, com um olhar comum, um intelecto comum, uma vida comum, tatuagens comuns, hábitos comuns, vícios comuns, coturnos comuns, tudo comum, seria capaz de encontrar um imbecil qualquer que a amasse da forma como ela estava (e sempre esteve) disposta a amar.

Mas, óbvio, esperança nunca é o bastante. Nunca mesmo. É necessário agir, atuar, procurar, fazer o verbo rolar, estar sempre “alive and kicking” (como seu amigo Zé Edu usualmente costumava pregar), e, sobretudo, ter sorte, muita sorte. E, neste último aspecto, (thanks God!), o acaso conspira – mesmo em favor de “garçonetes” solitárias.

E naquela noite, ele conspirou...

Perdida entre copos com marcas vagabundas de batom, cinzeiros sujos, chão molhado, toalhas engorduradas, mesas imundas e um barulho irritante produzido por um DJ incompetente, ela encontrou, naquela noite, apenas um garoto lindo dentre uma multidão de pessoas desconhecidas.

Um garoto lindo e simpático e com um cabelo comum, com um olhar comum, um intelecto comum, uma vida comum, tatuagens comuns, hábitos comuns, vícios comuns, coturnos comuns, tudo comum.

Comum a ela.

E eles passaram a manhã toda – fim de expediente para ela – conversando no boteco em frente ao Clube Varsóvia.

Felizes e comuns.

Como qualquer começo de amor deve ser.


14.6.04

PARA GARRAFAS QUEBRADAS, NADA COMO LUVAS DE VELUDO

- Então, tá! – ele disse, com a voz delirante, quase todo chapado pelas doses cavalares de vodka, por ele ingeridas naquele boteco cravado no centro da cidade – Então, tá! – ele continuou - Vamos imaginar tudo isso como um grande engano, um grande, um enorme, um monstruoso erro de cálculo. Um mal entendido. Que acha? Vamos encarar as coisas dessa forma? Tudo fica mais fácil.
- Para quem? – ela perguntou, incrédula – Fica tudo mais fácil para quem? – perguntou com os olhos frios, enquanto acendia o seu inseparável Marlboro Light.
Ele a olhou com espanto, não podia acreditar em tudo aquilo. Não podia mesmo – Talvez para nós dois. Talvez para nossa amizade. Talvez para o mundo – ele exagerou.
Ela deu uma tragada forte e profunda no seu cigarro, e disparou com a sua voz rouca e penetrante – Não posso acreditar que você vai negar isso a nós. Não posso mesmo. Porra cara, jamais pensei que você fosse este tipo de babaca, de covarde, de bundão, de idiota. Declarações de amor são o que para você? – ela perguntou.
Ele suspirou em desespero e disse, quase sem voz – Declarações de amor de amigas queridas, de pessoas que eu adoro, de pessoas que são a minha própria vida, de pessoas adoráveis e lindas como você, são como cacos de garrafas quebradas, podem machucar para caralho. – ele argumentou, arrasado.
- E não vale a pena? – ela perguntou, cruel.
Ele encarou o chão, com muito cuidado para não esbarrar nos olhos pretos daquela moça linda sentada à sua frente. Encarou o chão e ficou em silêncio, enquanto escolhia cuidadosamente as melhores palavras a dizer, sem machucar. Não foi necessário.
- Tudo bem – ela disse – Tudo bem. Não precisa dizer nada. Mais nada. Quer mais vodka?
Ele concordou com a cabeça e disse, aliviado – Eu te amo amiga.
Ela apenas apagou o cigarro e deu um sorriso, feliz e infeliz por tudo estar de volta ao seu lugar. Como era antes. Como era antes daquela semana começar...


11.6.04

estou em falta várias pessoas... e-mails, textos, enfim, porradas de coisas.

segunda volto à atividade normal...podem apostar...

9.6.04

VOCÊ AINDA ACHA POUCO?

O cheiro no quarto era de tempestade e suor. Cheiro de chuva e suor. Cheiro de cinza e garoa e suor. Já sentiram isso? Já sentiram? Já sentiram essa porra de mistura de odores?

Ela já...

...

Constantemente...

E enquanto tais aromas inundavam o seu quarto, ela permanecia quieta, calada, impassível, insana, impossível. Sentada no canto do quarto como uma criança. Uma miserável criança abandonada.

Ela detestava sentir assim. Ela simplesmente detestava estar vulnerável, fraca, cansada, amarga, enfadonha, estressada, desinteressada, enfim, triste, vulgar e comum.

E tudo por causa de um coração partido.

Vocês acham pouco?

E a paisagem que se podia ver através da janela para fora daquele maldito quarto, era a de um fim de tarde cinza, chuvoso e molhado, triste e nada incomum.

E a paisagem que se podia ver através da janela para dentro daquele maldito quarto, era a de uma menina cinza, apaixonada, quebrada, triste e nada, definitivamente, nada incomum.

E tudo por causa de um coração partido.

Vocês ainda acham pouco?


falta de computadores por perto...

td bem agora!

25.5.04

alguém já quebrou um vidro de perfume?

por querer...?
PERFUMES QUE ESCAPAM (QUANDO SEUS VIDROS SE QUEBRAM)

O bar estava lotado. Bem, na verdade ele estava mais do que lotado, ele estava no limite do suportável. No limite tênue do suportável. Cheio de pessoas, risadas, sorrisos, bebidas, cigarros, sonhos, mentiras, verdades, desejos, frustrações, energias, música, perfumes, perfumes, perfumes, perfumes...

Ele estava encostado no balcão, tomando uma cerveja qualquer. Não era, com certeza, o dia mais feliz da sua vida. Ele estava sozinho e cansado de pensar em todas as besteiras e bobagens que disse e ouviu dela. Todas as besteiras e bobagens que ambos fizeram. Cúmplices num amor descuidado, cheio de rastros, lágrimas, decepções, mas muitos, muitos sorrisos.

Ele olhava a multidão e não sabia direito, a razão de estar encostado no balcão daquela espelunca de bar. Melhor do que ouvir baladas tristes no aparelho de som da sala – ele pensou, sem firmeza.

De repente, em meio a toda aquela vida que girava ao seu redor, ele sentiu um delicado e adorável odor invadindo, penetrando, arruinando a sua vida.

Olhou para todos os lados como desesperado. Sem rumo. Como louco. Queria saber se ele podia ter tanta sorte – ou seria azar? – refletiu. Queria saber se era ela.

Percebeu que o perfume era o mesmo. A garota não...

Pagou a conta com rapidez e foi para casa na carona de lágrimas contidas. Estava pronto para ouvir baladas tristes no aparelho de som da pequena sala do seu apartamento... de preferência, sem nenhum odor. Sem nenhum aroma. Apenas com o sabor do fracasso.

Algo mais do que usual para as suas madrugadas. Mais do que usual...


19.5.04

HOTEL VARSÓVIA

Vitória abriu os seus pequenos olhos cinzas e viu o que mais parecia ser um sonho. Um delicioso sonho de inverno. Um delicioso sonho. Adorável e apaixonante.

Isabela estava com o seu corpo esguio e lindo totalmente nu, em pé, ao lado da pequena janela daquele vermelho quarto de hotel, segurando um Gitannes com a mão direita e um copo de vodka com a esquerda, no qual dava suaves e lentos goles com os seus lábios grandes, firmes e vivos, enquanto apreciava Varsóvia.

Vitória abriu os seus pequenos olhos cinzas e mal acreditou no que estava acontecendo. O que ela via diante da janela daquele quarto de hotel vermelho era o vulto suave e frágil de uma garota linda. Linda. Linda de verdade.

Não podia ter essa sorte, pensava, pois Vitória era, de fato, apenas simpática, o que, convenhamos, é um adjetivo bastante peculiar e ingrato, utilizado apenas para evitar o constrangimento da utilização da palavra “feia”.

Mas isso em nada impedia o seu sonho e pouco importava naquela manhã fria.

Apesar da falta de clareza dos seus pensamentos, o que Vitória tinha certeza era que o frágil e delicado e lindo vulto de Isabela estava mesmo lá, diante dela, como num delicioso sonho. Adorável e apaixonante.

- Já acordou? – Isabela perguntou com um sorriso, sem desviar os olhos ruivos da pequena janela daquele vermelho quarto de hotel.
Vitória assentiu com um som confortável, porém sem nada responder.
- Não via a hora. O dia está lindo – Isabela completou, apagando o cigarro no cinzeiro do frigobar e virando o copo de vodka.
Vitória se ajeitou na cama e perguntou, tranqüila – Lindo, Isa? Cinza do jeito que está? E frio do jeito que parece estar?
Isabela se aproximou da cama e lhe fez um carinho nos cabelos totalmente desarrumados e desalinhados de Vitória – Está lindo como as coisas mais improváveis que possamos imaginar. Lindo como os seus olhos cinzas.

Vitória apenas sorriu e disse – Estou muito feliz. Muito mesmo. Queria que você soubesse.

Isabela respondeu com um brilho no olhar - Você está há pouco tempo no inverno do planeta. Já viu neve na sua vida, Vi?
- Não – respondeu, como uma criança ansiosa.
- Então levanta. Nevou durante a madrugada. A cidade é só neve.
Vitória levantou rapidamente a sua cabeça e deu um beijo espetacular em Isabela, com todo o amor que há e pode haver nessa vida.

- Realmente, o dia está lindo... – finalizou, ansiosa pela neve.


18.5.04

VOLÚPIA (AINDA EXISTE ESSA PALAVRA?)

- Você viu? - ela perguntou, apontando para o céu.
- O quê? - ele disse, curioso.
- Uma estrela cadente.
Ele procurou pelo céu, mas não viu nada.
- Já sumiu, seu bobo - ela disse.
- Fez um pedido? - ele perguntou.
Ela sorriu e lhe deu um beijo enorme, molhado, cheio de paixão e excitação e volúpia (como se ainda estivesse em uso tal palavra) - Fiz sim.
- Será que vai ser atendida? - ele provocou.
- Depende de mim - ela retrucou e sorriu e lhe deu um outro beijo enorme, ainda mais molhado, mais cheio de paixão e excitação e volúpia (como se ainda estivesse em uso tal palavra)...

13.5.04

RISCANDO CALENDÁRIOS VELHOS, GRUDADOS COM DUREX EM PAREDES ENGORDURADAS DE COZINHAS SUJAS

Ele estava furioso. Furioso como ninguém nunca o viu antes. Furioso como nem ele próprio acreditava que pudesse ficar. Furioso com todas as merdas que havia feito. Furioso com a falta de cigarros em casa. Furioso com a falta de dinheiro no bolso. Furioso com a tequila barata que restava no fundo da garrafa. Furioso com o maldito cheiro do incenso que invadia as suas narinas, vindo do pardieiro em que sua vizinha morava. Furioso com a falta de perspectivas. Furioso com a falta de emprego. Furioso com o tédio. Furioso com sua idade avançada. Furioso com todos os seus fracassos. Furioso com a ausência dela. Furioso com ele.

E, assim, de repente, ele deixou de lado toda aquela “fúria”, apenas para sentar no chão sujo da sua casa e sussurrar baixinho uma canção de amor. Love Kills. Canção de bêbados e de vagabundos e de notívagos sorrateiros, que amam mais do que podem suportar.

Sussurrar a canção imbecil e rasgar algumas fotos foi o bastante para ele dormir um pouco, ainda que completamente bêbado e jogado no chão.

Quando o sol da manhã arrombou a janela e rasgou os seus olhos sujos, acordando-o sem o menor arrependimento, ele pôde, inerte, perceber o maldito calendário velho, por ele todo riscado, grudado com durex na parede engordurada da sua cozinha suja.

Foi o bastante para ele perceber que a fúria, a famosa “fúria”, de nada adiantou. A sua vida era a mesma porra de vida da noite anterior.

Depois da segunda, sempre vem a terça, a quarta, a quinta... e nada muda... nada... simplesmente nada


ANA/RAFA

- Tomei uma decisão – ela disse, feliz, encarando-o com seus olhos claros e com seus sorrisos todos.
- Qual? – ele arriscou, com medo.
- Te beijar – ela disse, deixando todo o medo de lado e fazendo o que mais queria, desde aquele dia.

10.5.04

ANALGÉSICOS PARA... QUALQUER TIPO DE DOR

- Você acredita em Deus? – Olívia perguntou à Sofia.
- Deveria? – a amiga respondeu.
- Não sei. Não sei mesmo. Não sei se esse tipo de coisa resolve nesse momento. Não mesmo. Aliás, não sei e nem tenho a mínima idéia do que pode ser analgésico nessas horas.
Sofia encarou Olívia e disparou, rápida – Talvez o barulho das ondas do mar. Que pensa?
- Agora, querida? – Olívia perguntou.
- Já!
- Então...

...e saíram daquele quarto fechado, deixando para trás cigarros apagados, fotos rasgadas e memórias embaraçadas. Memórias de amores impossíveis, de garrafas quebradas e de assuntos de meninas.


6.5.04

CORES (AZUL, AMARELO, VERMELHO, VERDE...)

A sensação de calor e tédio predominava naquela sala de aula. Calor insano. Tédio insano. Noite insana. As palavras da pessoa em pé diante de todos aqueles alunos soavam como nada aos seus ouvidos. Soavam tão interessantes quanto nada. A sensação de calor e tédio que predominava naquela sala de aula era insana e desumana. Mas ela estava lá. Como sempre, como todos os dias.

Ela observava, curiosa, aquele garoto lindo de morrer que estava sentado próximo a ela, na última fila. Ela observava com muita curiosidade o movimento das suas mãos. Eram mãos firmes, jovens, lindas, rápidas, que faziam a caneta deslizar por sobre o caderno velho, como se fosse Fred Astaire. Ele desenhava a paixão. Ele desenhava o amor. Ele desenhava como se fosse possível uma caneta dançar uma linda canção de amor.

Ela não imaginava o que ele estava desenhando. Não, ela não imaginava. Mas estava curiosa. Muito curiosa.

Seus olhos não desgrudavam daquelas mãos, por um segundo que fosse, por um instante sequer. Seus olhos não desgrudavam daquelas mãos, nem para que ela pudesse admirar por poucos segundos aquele garoto lindo, tão lindo, tão jovem, tão adorável, com cabelos propositadamente descuidados, propositadamente apaixonantes.

De repente, ele parou de desenhar, rasgou o papel com firmeza e olhou na sua direção. Deu um sorriso confortável, divino, e abriu a folha semi rasgada, semi amassada, em direção a ela e ela, menina, parou de existir por um instante.

Um coração. Um coração colorido de azul e amarelo. Um coração estilizado. Um coração lindo. Dele, para ela.

Ela pensou em dizer alguma coisa, mas ficou em silêncio. Ele pensou em desenhar alguma coisa, mas suas mãos tremiam.

Ele? Azul. Ela? Amarelo.

Quem pode dizer, com toda a certeza, quantas cores existem num arco-íris e se o pote de ouro está mesmo lá. No seu final. Pronto para ser resgatado.

Apenas eles... apenas os dois. O azul e o amarelo...



BLUE AND YELLOW
(The Used)

"and it's all in how you mix the two
and it starts just where the light exists
it's a feeling that you cannot miss
and it burns a hole
through everyone that feels it

well your never gonna find it
if your looking for it
won't come your way
well you'll never find it
if your looking for it

should've done something but I've done it enough
by the way your hands were shaking
rather waste some time with you

and you never would have though in the end
how amazing it feels just to live again
it's a feeling that you cannot miss
it burns a hole through everyone that feels it

should've said something but I've said it enough
by the way my words were faded
rather waste some time with you
"

DEPRESSA, DEPRESSA

Ela estava tão entretida, pedalando a sua bicicleta amarela, e também, distraída e distante e longe com os seus pensamentos e com os seus delírios habituais, que sequer teve como perceber o céu se tornar repleto de nuvens. Nuvens pesadas, de cor grafite, cinzas, distorcidas, lentas e prontas para desabar. Prontas para derramar toda a dor dos anjos.

Ela estava tão entretida na sua própria tristeza.

Quando as primeiras gotas começaram a cair sobre os seus longos cabelos ruivos, só então ela percebeu a tempestade.

Inútil, pois já estava completamente ensopada, ela procurou um abrigo. A cidade estava deserta, como em uma espécie de delírio psicotrópico e, portanto, não foi difícil se ajeitar sob uma velha cabine telefônica, no melhor estilo Audrey Hepburn.

Ela sorriu da própria ironia. Parada em frente a um telefone, sem ter para onde ir, sem ter para quem ligar. Pensou nele com muita tristeza. Sabia o número de cor. Sabia o maldito número de cor e salteado. Olhou para o céu negro como a noite e sentiu as gotas enormes da chuva desabarem em seus olhos pretos e lindos “agora não são mais lágrimas, é apenas chuva” – pensou, confusa no seu próprio medo.

Decidiu que não faria a ligação. De maneira alguma. Ele não teria mais a sua submissão. “amar e perdoar tanto assim é ser submissa?” – ela pensou, inquieta.

Subiu em sua bicicleta rapidamente e decidiu sair daquela cabine telefônica o mais depressa possível. Não queria pensar e nem tomar mais decisões na sua vida e tampouco chorar por quem não a queria (não?).

Correu o mais depressa que pôde com a sua bicicleta, enquanto chorava como nunca jamais chorou.

Por mais depressa que fosse, ela não conseguia ser mais rápida do que a tempestade.

E algum maldito consegue ser?


4.5.04

lampejos de criatividade
lágrimas
lascas de cinzas caídas no blusão
chuva
lampejos provocados pelos raios
raios provocados pela raiva
raiva provocada pelas lágrimas
lágrimas provocadas pela dor

quem dera fosse eu o Todo-Poderoso para brecar a dor...

quem dera...

e o papel? continua em branco

27.4.04

quem se leva a sério demais comete o erro de ser apenas um idiota

presunçoso

um idiota presunçoso

como eu e como qualquer um de nós
são apenas vidros quebrados
são apenas detalhes passados
são apenas letras queimadas
são apenas erros armados
erros cometidos
erros do passado
erros atuais
erros repetidos
erros idiotas

como escrever poesia sem ser poeta
como escrever poesia em guardanapos sujos de papel

only mistakes and cold coffees
Estou em falta com tanta gente e, principalmente, comigo mesmo. Estou em falta com o tempo de viver e creio que nunca vou conseguir parar o relógio e fazer tudo o que quero. Mas espero que tudo esteja bem e todos estejam bem. Eu estou aqui, de volta ao meu maravilhoso mundo de fantasias de Varsóvia...

20.4.04

TORNANDO TUDO MAIS DIFÍCIL

Ele entrou em sua casa com os olhos vermelhos, inchados, desesperados. Jogou o seu casaco imundo em um canto qualquer da sala. Não acendeu a luz. Nenhuma luz. Também, convenhamos, ele nem precisava disso. A cortina daquela sala era tão vagabunda, que praticamente todos os ambientes da porra do apartamento ficavam claros e iluminados com a luz vermelha neon que pulsava do hotelzinho de putas vizinho. Ele tirou as botas tão sujas como o casaco jogado e ficou descalço, pisando no assoalho frio. Frio como ele estava agora. Acendeu um cigarro e ficou andando de um lado para o outro, imaginando o que poderia fazer. Quando se deu conta, estava com os pés sangrando. Tinha esquecido os cacos de vidro do copo americano cheio de conhaque que ele quebrou horas atrás. Estava tão longe, longe de tudo e de qualquer coisa real, que nem se deu conta de que o assoalho frio estava melado de conhaque e infestado de cacos disformes de vidro. Resultado? Seus pés sangravam e incomodavam. Porém, ele estava pouco se fodendo para os seus pés. Apagou o maldito cigarro numa caixa de fita cassete qualquer e sentou-se no assoalho frio, de forma a tentar conter um pouco do sangue e retirar alguns pedaços dos cacos. Ele agradeceu por não serem pequenos. Mais fácil para retirá-los. Muito mais fácil. Aliás, mesmo com todo o sangue, com toda a luz neon, com o cigarro apagado em latas de cervejas, com a jaqueta suja jogada num canto, com aquela porra de sala pequena, enfim, com toda a merda que era a sua vida, nada, mas absolutamente nada podia ser pior do que aquele quarto de hospital em que ele havia estado durante a noite toda. Nada. Aquele quarto de hospital era branco e feio e vazio e triste e claustrofóbico e cruel e rude e muito pesado para ele.

E para ela então? A pessoa que ele havia deixado naquele quarto de hospital branco e feio e vazio e triste e claustrofóbico e cruel e rude e pesado, muito pesado para qualquer um.

Ele deitou no chão melado de conhaque barato e começou a chorar como uma criança. Começou a chorar como alguém desesperado. Como alguém com medo. Ele não entendia a razão e nem o motivo de ela querer fazer tão mal a si própria, mesmo com todo o amor que ele sentia. Com todo aquele universo de amor.

Ele apenas não entendia.

E enquanto ela permanecia com os seus cortes no quarto de hospital, ele gritava querendo obter apenas uma razão. Apenas uma maldita razão.

A vida não é como andar de skate, querido. É muito mais perigosa do que isso. Muito mais. E isso é que me excita...


13.4.04

SALTOS ORNAMENTAIS

- Você está triste hoje? – ele perguntou – Algum problema?
Ela sorriu, apenas fazendo um gesto negativo com o seu rosto e balançando os seus longos cabelos.
- Tá bem – ele disse, incrédulo – Você acha que ainda me engana? Depois de todos esses anos, de todo esse tempo, depois dessa vida que vivemos juntos? Não engana não, my dearest friend.
- Amor, amor, amor... por que ele é tão pé no saco? Por que ele irrita e enerva e destrói e deixa marcas e maltrata e tira o sono dos pobre mortais?
Ele apenas riu – Que beleza, hein? Discorrendo sobre absurdos, pensando sobre questões sem resposta, enfim, sendo banal e uma garota clichê. Logo você, querida, a menos garota clichê de todas as que já conheci. E olha que eu já conheci muitas assim.
- Garotas clichê? – ela perguntou.
- Não, garotas apaixonadas. Garotas apaixonadas e perdidas e com um sorriso bobo como esse seu agora. Estampado como uma cicatriz na sua linda e adorável face.
- Eu sou uma idiota mesmo – ela respondeu.
- Por que? Porque ama? Porra, amor não é pecado, amor não é errado, amor não é complicado...
- Não? - ela interrompeu, indignada.
Ele a encarou com simplicidade – Não. Não é complicado não. De forma alguma. É extremamente simples, aliás.
- Sei – ela zombou – Até parece.
- Teve uma garota que eu conheci, há muitos anos, que me disse uma coisa que eu jamais esqueci. Era uma noite linda e eu gostava muito dela. Claro que ela não me dava bola, mas isso pouco importa. Ela era apenas uma amiga. Uma boa amiga. Não ótima amiga como você, mas uma boa amiga. Uma irmã. Naquela noite ela me disse algo adoravelmente simples, adoravelmente simples, mas que realmente se encaixou na minha vida. Óbvio que estávamos completamente bêbados, mas ainda assim me lembro das palavras bêbadas daquela garota. Ela disse que um sentimento que te deixa sem ar, sem fôlego, sem rumo, sem noção, sem sentido, sem chão, sem céu, sem objetivo, sem auto-estima, com medo, com insegurança, com tremor, com nervosismo, com insônia, com pavor, com auto-indulgência, com culpa, com pânico, enfim, com toda a sorte de síndromes e melindres e desesperos que uma pessoa pode conhecer, não pode ser complicado. Esse tipo de sentimento não pode, oh Deus, claro que não, ser apenas complicado.
Ela o encarou, com sarcasmo e perguntou – Não? Não pode ser complicado?
- Nós somos complicados – ele disse, tranqüilo – Nós. A complicação reside aqui – ele fez um carinho nos longos cabelos cacheados dela - O amor não tem nada com isso. Nada. – finalizou, virando um copo de tequila.
- Sabe de uma coisa? – ela disse, serena – Preciso de terapia.
Fazendo um sinal para o garçom daquele velho boteco, ele perguntou – De pinga ou de vodka? Limão ou morango? – e deu um sorriso ... lindo, por sinal, como tudo deve ser.


5.4.04

LET THE SUNSHINE IN

Havia areia dentro dos seus sapatos. Muita areia. E ela já estava irritada com isso. Muito irritada. Cansou de toda aquela merda e de todo aquele incômodo e resolveu sentar na areia e arrancar e jogar para longe os sapatos que a incomodavam demais. A incomodavam muito.

Sentiu-se melhor quando se colocou em pé e sentiu os tornozelos afundarem lentamente na areia fofa e úmida da madrugada. Melhor, muito melhor – ela pensou. Não queria mais sapatos. Definitivamente.

Caminhou assim, descalça, alguns poucos metros e desabou na areia, esgotada.

Completamente esgotada.

Não fisicamente, por óbvio, mas emocionalmente, o que, convenhamos, é MUITO pior.

E ela ficou deitada por vários instantes, sentindo o seu corpo absorver a umidade da areia úmida, sentindo os seus ruivos e longos cabelos crespos misturarem-se com a areia fina, sentindo a ponta dos dedos dos seus pés cansados de tanto andar, sentindo o coração batendo forte, desesperado, aflito, insano. Sentindo medo e frio e dor e vontade de chorar.

Ficou deitada por vários instantes e percebeu que a chuva agora fazia parte do passado e a lua, poderosa, havia voltado a reinar, brilhando no céu, imponente, mesmo sendo tão solitária.

E ela agarrou um punhado da areia que antes machucava os seus pés e deixou-a escorrer por entre os seus dedos. E o que ela mais queria, era ser a lua naquele instante, apenas para poder boiar sozinha no espaço, sem ninguém para incomodar, sem ninguém para reparar, sem ninguém para machucar, sem ninguém para gargalhar e zombar das suas feridas, para esquecer os seus desastrados diálogos.

- Por que vc me machuca assim? – ela perguntou, aflita – Por que você SEMPRE me machuca assim? – insistiu.
Ele permaneceu em silêncio, apenas evitando encarar os seus olhos.
- Não vai me responder? Como sempre você faz?
- Acho melhor você ir – ele disse.
Ela somente chorou...


E quando se deu conta, ela não estava mais em companhia da lua. O sol estava nasceno, vermelho como os seus cabelos, no horizonte distante e intocável. Seu rosto estava inchado e seus olhos ardiam.

Sentou-se e pegou mais um punhado de areia. Dessa vez não deixou escorrer nem um grão por entre os seus delicados dedos.

A areia não vai mais me machucar – pensou, triste e feliz, enquanto procurava os seus sapatos com a ajuda do brilho do sol...



30.3.04

BATALHAS PERDIDAS (PERDIDAS??)

I begged you not to go.
I begged you, I pleaded.
Claimed you as my only hope
and watched the floor as you retreated.

(The Good Fight – Dashboard Confessional)

Nada como uma boa luta. Nada como uma boa batalha.

Nada.

Nada tão revigorante e também nada tão assustador, pois quem poderá nos deter quando, no auge da nossa fúria, deixarmos todos os nossos pensamentos cristãos de lado, e então, nosso único objetivo se transformar em um estranho e prazeroso desejo de vingança?

Ninguém...

Mas... foda-se, como eu ia dizendo, nada como uma boa luta. Nada como uma boa batalha. Nada e nada e nada e nada.

Porém, estranhos, a batalha, ainda que boa, cansa o lutador.

Cansa, claro que cansa. Cansa e mente quem diz o contrário, o avesso, o reflexo, o espelho.

A batalha cansa quando o gosto de sangue se torna palatável e a garganta deixa de suportar engolir a dor e a rispidez e a maldade. O sangue desce como líquido nojento e viscoso e o estômago não consegue mais suportar tanto amargor.

E os olhos? Ah, os olhos fraquejam e revelam a verdade, revelam o pavor, revelam o medo. E as lágrimas caem, desaforadas, contra a própria vontade dos olhos de quem luta.

Nada como uma boa batalha.

Mesmo que perdida. E ela sabe disso, sentada na sua cama, admirando no espelho de retângulos o seu pálido reflexo. O seu pálido reflexo feito de luta e de sangue, de desejos e desesperos, de tédio e de medo, de coragem escondida e de orgulho despedaçado.

E ela não percebe que, embora bem raso, o reflexo também mostra que só se arrebenta quem tem coragem. Só se fode quem dá a cara, quem chora em público, quem rasga a alma, para o bem ou para o mal, para o sorriso ou para o mal.

Para o sol ou para o mal.

E coragem era o que ela mais tinha... embora ainda não soubesse disso.

Embora ainda não soubesse...

E no bilhete amassado, ela implorava para ele não ir, ela implorava para ele não ir, a sua única esperança... e o chão era seu único panorama, após ele fugir da luta...fugir inteiramente da batalha...


29.3.04

ESPELHOS LOUCOS (TRANSFORMANDO SÁBADOS EM DOMINGOS)

E lá estava ela. Mais uma vez. Sentada àquela mesa de bar, olhando o movimento de pessoas estranhas, de pessoas comuns, de pessoas normais, de pessoas rasas, lotadas, aborrecidas. Olhando o copo de cerveja que ficava um pouco mais vazio a cada gole. Olhando os garçons, graciosos e mal humorados, levando e trazendo bandejas e copos e bebidas e comidas e cinzeiros sujos e cinzeiros limpos.

E lá estava ela. Ainda mais uma vez. Sentada àquela mesa de bar, olhando os sorrisos dos outros e lembrando dos seus próprios sorrisos antigos. Próprios sorrisos antigos. Bem antigos.

Sentada àquela mesa de bar. Tão dela e de suas preciosas amigas. Parecia que nada poderia devastar aqueles sonhos, aqueles desejos, aqueles beijos, aquela amor, aquela poesia, aquela loucura. “Quando eu queria mudar o mundo, meu carro vivia cheio de gente” – ela pensou, nostálgica, lembrando dessa frase profética, contida em um encarte de um velho disco de vinil que ela nem lembrava mais qual era. É, quando eu queria mudar a porra desse mundo, nem precisava de carro – completou, enquanto pedia a conta.

E assim, lacônica, a noite chegou ao fim.

Ela tomou lá as suas costumeiras cervejas, mas com uma diferença, uma ENORME diferença: ela estava sozinha. Sozinha...completamente.
Ninguém veio, ninguém foi, nenhuma delas, nenhuma delas. Todas as cinco “inseparáveis” amigas. Todas as cinco “inseparáveis” amantes. Todas as cinco “inseparáveis” irmãs. Nenhuma delas.

E ela pagou a conta e enquanto saía do bar, foi surpreendida por uma grata melodia sussurrada pelo garçom velho, gracioso e mal humorado.

- Ei? – ela perguntou ao garçom – Que canção é essa?
Ele a olhou surpreso e respondeu com uma pergunta – Qual?
- A que você cantou baixinho agora. Essa que você sussurrou. Que música é essa? – ela insistiu.
- Não sei não, viu. Não tenho a menor idéia – ele respondeu – É uma música gringa aí, que estava tocando no andar de cima. Ficou na cabeça, mas não sei o que é.
- Canta de novo – ela pediu – Por favor.
Ele sorriu, sem graça e cantarolou totalmente desafinado e sem jeito e constrangido, mas feliz porque, rapidamente, ela reconheceu a canção e continuou sozinha.

- Todos os dias são domingos – ela disse, com um sorriso.
- Reconheceu a música? – ele perguntou.
- Sim. E posso dizer que ele tem toda a razão, todos os dias são como domingos. Obrigado.
- Bem, de nada mocinha. De nada. Não entendi nada, mas deixa para lá. Os dias não deveriam ser como domingos. De forma nenhuma. Mas... como é Deus quem escolhe... até a próxima.
- Até a próxima. Até a próxima – ela respondeu, sorrindo aliviada, pois, no fundo, sabia que não haveria próxima vez.

Nunca mais.