31.10.03

ESTRELAS ROUBADAS

Roubar estrelas não é crime e nunca foi. Assim como roubar o brilho da lua. Esse tipo de ação decorrente da própria falta de bom senso de quem ama. Rouba-se o céu, o sol, o sal, o mar, enfim, o próprio coração e a alma das pessoas. Então, roubar estrelas não é crime e nunca foi.

Crime é destruir uma paixão. Apenas para não querer sofrer, apenas para fazer sofrer.


30.10.03

LO(VE)NDON CALLING

O corpo dos dois parecia derreter, tamanha a excitação, tesão, volúpia, desejo e vontade que impregnava o ambiente naquele quarto. O suor transbordava por cada poro de cada corpo. Por cada poro. Por cada corpo. Ele estava absolutamente enlouquecido, extasiado. Ela, por sua vez, estava em uma espécie de transe, de delírio. Mãos e bocas e seios e pernas e coxas e dedos e lábios e línguas e beijos e saliva se encontravam. Sem parar. Sem parar. Contínua e sofregamente. O bouquet que pairava no ar era o de uma espécie de vinho raro. Beleza rara. Ela sentia o seu gosto na sua boca. Na dele e na sua própria. Ele sentia seu corpo no dela. Sutil, intenso, integrado. Suor e paixão e delírio e toques e gemidos. Sexo ou amor, ou seja lá o que isso quer dizer...

...

E eles deitaram e ficaram quietos, respirando o silêncio.

Por pouco tempo. Por pouco tempo.

Ela, agitada como sempre, gargalhou brava e abruptamente e ligou o velho aparelho de som nos últimos decibéis.

- Que música improvável para o momento, não? – ele falou, sorrindo e acariciando os seus cabelos.
- The Clash? – ela respondeu, elétrica – London Calling? ´magina, música calma para pessoas felizes – ironizou.
Ele sorriu ainda mais e emendou – É, mas, provavelmente os meus pais ou os meus avós costumavam ouvir alguma big band embriagada neste pós-gozo, se é que escutavam alguma coisa, claro, além de fumar e fumar e fumar, naquele chavão tão adorável da vida comum.
Ela o olhou feliz e respondeu, linda - Olha, pode parecer a coisa mais ridícula que você já ouviu nessa vidinha besta. A coisa mais cafona e sem noção, porém, querido, pode apostar que nada é improvável num momento desses. Nada. Improváveis? Somente nós podemos ser.
LUGAR COMUM

Ele tirou repentinamente a mão da sua coxa... “ela não gostou...”.

Ele tirou repentinamente a mão da sua coxa... “ele não gostou...”

E, no fundo, ambos gostaram. Sobrou apenas o medo. E não é sempre assim?

24.10.03

Prometo que me recupero, escrevendo um conto bonito, bem bonito...
vocês me perdoam quando eu não respondo aos comments ou quando demoro para responder e-mails?

Por favor? (fazendo cara de manha) hehehe

21.10.03

ESSES SÓRDIDOS SALÕES DE FESTAS

Ele podia sentir a fumaça penetrando lentamente os poros das suas narinas. Amarga. Azeda. Crua. Como a vida. Ele podia sentir a densidade do momento, apenas pela maldita fumaça entorpecendo as suas narinas. Decidiu acender mais um cigarro. Preferia o próprio odor por ele produzido a aquele cheiro de hipocrisia, bourbon barato e esperma contido, sufocado, preparado. A noite era escura; as luzes, negras; e, as flores, coloridas. O salão, esfumaçado. Havia freiras e padres por todos os lados, dançando animadamente ao som de uma big band qualquer. Freiras putas, padres imaginários, pessoas comuns, pessoas vãs preocupadas com perfumes que, de santas, ah, que de santas nada têm. Nada. Porra nenhuma. E ele estava cansado de tudo aquilo. Cansado como o sol deve ficar por todo dia ter que nascer para fazer a vida feliz. Para fazer a vida girar. Ele queria ser a corrente marítima que dilacera, quebra e mata os incautos e conforta os divinos. Ele queria ser a morte que surpreende e entristece os tolos, porém eterniza os escolhidos. Ele queria ser qualquer coisa naquele momento, que não apenas um mero idiota com um cigarro mentolado no canto da boca, celebrando o nada, celebrando a alegria que lhe foi roubada. Ele podia, enfim, sentir a fumaça penetrando lentamente os poros das suas narinas. Naquele salão de festas de merda, ele podia perceber as imagens da linda moça vestida de noiva, rasgando a sua retina. As imagens da linda moça ruiva vestida de noiva, que um dia foi toda sua... somente sua... não fosse a estupidez e insensatez que exalava de seu suor, de seu cheiro, de suas lágrimas... que não eram poucas. Não nesta noite.


17.10.03

O CLUBE DAS GAROTAS PERDIDAS

- Sabe o que eu acho Teka? – perguntou Lena, enquanto acendia mais um cigarro naquela mesa do Clube Varsóvia.
Teka, já esperando os costumeiros sermões da amiga, a olhou com apreensão, enquanto virava um gole da cerveja que restava naquele copo americano – Lá vem porrada. Diz.
- Você se preocupa demais. Demais. Muito mesmo. Caralho! – gritou - Por que você, uma vez na sua vida, não deixa as coisas acontecerem? Por que você precisa sempre estar na frente quando o assunto é dor, tristeza, ansiedade ou insegurança? Pode me dizer? Isso não faz sentido, não tem razão de ser.
- Lena querida, você não entende, não? Você simplesmente não entende. Isso porque a sua vidinha é perfeita, seus amigos são perfeitos, seus sonhos são perfeitos. Você é linda, interessante, inteligente, enfim, uma mulher admirável.
- E? – perguntou Lena, mostrando puro descaso com tais elogios.
- Conhece aquela canção que diz mais ou menos assim “... você está perdida garotinha / eu sei que você sabe o que fazer / impossível? / sim, mas verdadeiro ...”? – cantarolou, absolutamente desafinada e numa tradução livre, a canção “You´re Lost Little Girl” de The Doors.
Lena, rindo da amiga, disse – Nossa, como você canta mal. Conheço sim. E...?
- E então que isso não é verdade. Eu simplesmente não sei o que fazer. Simplesmente não sei.
- Conta comigo Teka –disse a amiga - Bem vinda ao clube das garotinhas perdidas. Quem sabe, juntas, seja mais fácil achar qualquer caminho.
- Quem sabe - emendou Teka, sorrindo com a amiga.


...contos fantásticos...vou pensar nisso...

16.10.03

SADOMASOQUISMO

Ela adorava seduzir e destruir. Adorava. A idéia de ter um poder quase sobrenatural sobre todos os homens a enlouquecia, a envaidecia, a excitava, a deixava má, cruel, sarcástica, fria, insensível. Ela adorava seduzir e destruir. Adorava. A volúpia de seus desejos era quase inacreditável. Quase inacreditável. E por isso mesmo ela sempre pensou que conseguiria alcançar todos os seus objetivos e ser poupada de todo o tipo de dor, apenas seduzindo e destruindo. Apenas com os seus lindos cabelos amarelados, suas unhas vermelhas, seus olhos azuis, sua tatuagem discreta, suas botas de couro, seus decotes generosos, seus cigarros sujos de batom, seus copos de vodka e seus delírios insanos. Mas, é óbvio que todos podemos cometer erros. E, infelizmente, para ela, cometeu o pior de todos os erros. E esse tipo de coisa jamais poderia ocorrer. Jamais. Um erro crítico. Um erro patético. Um erro fatal. Um erro miserável. Um erro vagabundo. Um erro lamentável. Um erro. Apenas um erro e foi o que bastou para ela perceber que não adianta charme, glamour, classe, autoconfiança, segurança, lindos cabelos amarelados, unhas vermelhas, olhos azuis, tatuagens discretas, botas de couro, decotes generosos, cigarros sujos de batom, copos de vodka e delírios insanos para protegê-la eternamente da dor. Não, isso simplesmente de nada adianta.

O erro que ela cometeu? Apaixonou-se louca e grandiosamente. Simplesmente isso.


E se eu escrever sobre ardentes casos de amor?
OLHOS FRIOS

- Tudo bem? – ele perguntou, assustado com os olhos vermelhos e inchados da namorada.
- Não sei – ela respondeu, inquieta.
- Como assim, não sei? – ele disse, confuso – Ninguém chora à toa.
- Não? – ela disse, sem alterar seu sereno tom de voz – Tem certeza?
E ele a olhou com os seus lindos olhos verdes frios ... assustado por perceber que já a havia perdido.

13.10.03

O QUE VOCÊ FAZ QUANDO SE SENTE ASSIM?

Ele estava sozinho. Bem, na verdade ele sempre esteve sozinho. Sempre. E hoje não era diferente, óbvio. Ele estava, mais uma vez, apenas sozinho. Nesta noite de sábado. Nesta noite fria. Nesta noite chuvosa. Ele estava sozinho, tendo como companhia apenas os seus amigos abstratos e inanimados. Tendo como companhia apenas os seus medos, os seus livros, os seus discos, suas fotos, seus desejos, suas vontades, suas idéias, suas intenções, seus cigarros, suas drogas, suas tatuagens, seus remédios, seus poemas, suas lágrimas. Bem, talvez ele não estivesse tão sozinho assim, mas, no fundo, não era nada disso o que ele queria. Ele queria, na verdade, estar em algum lugar vivo. Rodeado de amigos e conversas e goles de bar. Ele queria, na verdade, estar com o coração lotado de sangue. Lotado de amor ou paz ou gozo ou seja lá o que lhe desse vontade de continuar alive and kicking. Alive and kicking and loving. E ele não estava assim naquela noite. Ele estava apenas triste. E olhando através da janela do seu quarto, molhada pelas gotas gordas de chuva que caíam sem parar, ele pensou por que raios não tinha com o que se ocupar e por que raios ficava sempre esperando... sempre esperando alguém lhe chamar... mesmo um alguém desconhecido que jamais faria isso. E ele não sabia o que fazer quando se sentia assim. E as malditas lágrimas, essas filhas de uma puta, não o deixavam esquecer por um minuto sequer, que ele simplesmente não sabia o que fazer quando se sentia assim...


Posso dizer uma coisa? Adoro isso aqui. Adoro estar aqui. Vocês são ótimos amigos. Obrigado...
QUE DIFERENÇA FAZ?

- Você sabe a diferença entre a dor de perder alguém e a dor de nunca ter conhecido alguém? – ela disse, desesperada.
Ele permaneceu em silêncio, triste, apenas encarando o chão.
- Quando você nunca conhece alguém, o ódio não passa a ser o seu melhor amigo quando esse alguém vai embora.

9.10.03

QUANDO AS GARRAFAS NÃO PRODUZEM ESTILHAÇOS

- Olha só, está vendo? Na ponta dos pés – ela disse, quase gargalhando e com a voz mais turva possível.
Ele sorriu vendo aquela garota linda, de cabelos escuros como a noite, tentando se equilibrar sobre uma garrafa de champanhe das mais vagabundas em uma praça deserta de algum bairro residencial e chato da cidade - Você está bêbada, querida. Pode se machucar. Melhor parar.
- Feliz ano novo! Feliz ano novo. Feliz ano novo para todos os imbecis do mundo – ela gritava - Eu falei que devíamos viajar. Quem mandou ficarmos nessa porra de cidade nessa data tão fucking special? Agora é isso. Você vai ter que aturar a sua melhor amiga aqui, completamente bêbada e transtornando a sua vida – ela emendou, irônica.
- Bem, ao menos você está tornando um pouco mais divertido esse pé no saco de reveillon – ele concordou.
- Obrigado. Obrigado. Uma salva de palmas para mim. Eu mereço.
- E cá estamos nós. Na primeira madrugada do ano. Ouvindo fogos e gritos idiotas e buzinas descompensadas e sirenes de emergência e sambas enredo insuportáveis. Mais uma vez, sozinhos. Mais uma vez, bêbados. Mais uma vez, contando só um com o outro – ele disse, enquanto acendia o décimo cigarro da noite.
Ela desistiu da garrafa de champanhe, ajoelhou na grama úmida pela noite e o encarou de um modo fixo, curioso, tentando não parecer muito bêbada.
- O que está olhando? – ele perguntou.
- Posso te falar uma coisa? Você jura que morre aqui. Entre nós? – ela pediu, séria.
- Claro. Óbvio. Primeira promessa de ano novo – ele brincou.
- Não. É sério – ela disse.
- Claro. Pode dizer. Morre aqui. Entre nós.
- Em determinado momento desse ano, eu pensei, quero dizer, eu tive a certeza de que jamais veria um outro ano novo, um outro reveillon. Eu tive a certeza de que não teria mais essas pequenas sensações. Esses pequenos prazeres. Não havia nada disso em minha mente, só a certeza de que eu não teria mais nada. Entende?
Ele consentiu com a cabeça, triste.
- Então, eu preciso te dizer – ela continuou – Que eu só estou aqui agora por sua causa. E as marcas de barro e grama no meu corpo são bem mais felizes do que qualquer outra marca que eu poderia fazer. Devo isso a você. A alegria de estar bêbada num reveillon nesta cidade insuportável. Obrigado. Mesmo.
Ele não disse nada. Com lágrimas nos olhos apenas jogou um beijo no ar, prontamente “agarrado” por ela.
Ela se levantou imediatamente, tentou esconder as lágrimas e disse, rápida - Ei, veja. Na ponta dos pés novamente – gritou, voltando mais uma vez a sua atenção para a garrafa de champanhe.
- Que tal abrirmos uma nova? – ele sugeriu – Celebramos e aposto que nessa, depois de vazia, você consegue subir.
Ela apenas sorriu e disse - Com certeza... com certeza... basta você estar por perto...

3.10.03

O QUE FAZEMOS COM VELHAS FOTOS?

- Então estamos finalmente reunidas nessa mesa de bar aqui no Clube Varsóvia? A gangue das três – disse Clara, com um sorriso genuinamente feliz.
- Como a vida muda, não? Costumávamos fazer isso sempre. Agora, nunca nos vemos e tampouco nos falamos. É quase um milagre esse nosso encontro – retrucou Leca – Ainda mais depois de tudo o que aconteceu. Depois de tudo o que dissemos.
- É mesmo. Como a vida muda – concordou Ana.
- Tem razão. E o pior de tudo é que eu não sei qual foi o atalho viciado que tomamos. O que deu errado, o que aconteceu? Eu não tenho essa noção. Alguma de vocês tem? – perguntou Clara.
- Melhor deixar isso para lá. Nossos erros, medos, verdades e defeitos. Erramos? Foda-se. O que importa é que estamos juntas essa noite. Isso é o mais legal – disse Ana, tentando desviar o assunto.
- Você está certa – concordaram as outras.
- Vamos brindar então. Vodka e mais vodka – gritou Leca.

E as três amigas ficaram sentadas naquela mesa do Varsóvia durante horas a fio. Conversaram e sorriram e colocaram os assuntos em dia. Mataram uma saudade intensa. Uma saudade dolorida. Uma saudade inevitável.

- Então vamos? – disse Ana, enquanto acendia um último Marlboro.
- Nossa. Já é quase quatro da manhã. O tempo voa, caralho – concordou Leca – Mas foi ótimo.
- Esperem. Eu tenho um presente para vocês.
- Hehe. Essa é a nossa Clara. A sempre amorosa Clara – brincou Leca.
- Tomem – disse, enquanto entregava para as duas uma foto Polaroid antiga, em que as três apareciam juntas, abraçadas, felizes, sorrindo. Como irmãs. Como verdadeiras amigas – Pelo menos na foto estamos bem. Eternamente bem.

E as três ainda ficaram ali no Clube Varsóvia por mais algum tempo, apenas observando aquela pequena foto antiga. Sem prometer nada uma para a outra. Sem esperar nada uma da outra. Apenas observando o seu adorável passado, sem saber o que esperar do seu nublado futuro. Apenas sem saber.


QUEM ATENDE OS SEUS DESEJOS?

- Corre Estela – ele disse – Vem ver.
- O quê? – ela retrucou – Que afobação é essa?
- Olha ali. Lá no alto. Uma estrela cadente – ele disse, animado – Faça um pedido.
Ela ficou quieta por alguns instantes e respondeu – Já fiz.
- Espero que se realize – ele desejou, antes de beijá-la.

- Corre Estela – um outro “ele” disse, anos depois.
- O quê? – ela retrucou – Que afobação é essa?
- Olha ali. Lá no alto. Uma estrela cadente – o outro “ele” disse, animado – Faça um pedido.
Ela respondeu de pronto – De forma alguma. Detesto pedidos e desejos e estrelas cadentes. Tudo bobagem.
- Tudo bem – o outro “ele” concordou – Eu já fiz o pedido por nós – finalizou, antes de beijá-la.
Alguém já quis simplesmente se esconder?

1.10.03

QUANDO SEMPRE FALTA ALGO...

Era quatro e meia da manhã. O bar estava quase vazio. Quase. Havia uns poucos clientes espalhados aqui e acolá, todos sendo servidos por garçons cansados e exaustos que mal podiam esperar para vê-los pelas costas.

Diferentemente dos demais, ela estava sozinha. Como sempre. Lá estava ela, ainda mais uma vez, sentada e acompanhada apenas por seus cigarros, seus pensamentos, sua tequila e seus papéis.

Estava escrevendo sem parar desde que chegou. Escrevendo e escrevendo e escrevendo. Palavras desconexas, palavras coloridas, palavras doces, palavras confessionais. Ela estava escrevendo uma carta para alguém. Uma pessoa querida, bastante querida. Ela sabia que naquele texto estava toda a sua declaração de amor por aquela pessoa. Toda. Não havia sequer uma palavra a mais do que o necessário. Tudo o que ela sempre quis dizer a ele estava lá, naqueles pequenos guardanapos amassados de papel vagabundo. Entre tragadas de cigarro sem filtro e goles de tequila barata, ela dissecou toda a sua vida, todo o seu amor, toda a sua dor. Aproveitou que estava quase embriagada. Aproveitou para afastar o medo e escrever tudo aquilo que sempre sonhou. Aproveitou o bom senso turvo e decidiu se abrir. Como nunca. Como sempre quis.

Ao final do décimo guardanapo, ela decidiu ir embora. Com os olhos vermelhos e cansados e cheios de lágrimas ela decidiu ir embora.

- Ei moça... – disse o garçom, enquanto ela saía do bar.
Ela se virou e perguntou – Eu?
- Isso mesmo. Você esqueceu isso – ele disse, apontando para os guardanapos escritos.
- Pode deixar aí mesmo – ela respondeu, disfarçando as lágrimas.
- Ué. Não entendi. Você passou a madrugada toda escrevendo nesses papéis e agora vai embora, deixando-os aqui. Jogados no lixo. Isso não está certo.
Ela o olhou com um sorriso terno e disse – Então não jogue fora. Isso é mais ou menos como uma declaração de amor. Dê para alguém que você ame.
Ele olhou-a desconcertado e perguntou, confuso – Mas, porque você não a entrega para quem você escreveu?
Ela apenas sorriu e disse tranqüila antes de sair em definitivo do bar – Entregue para alguém que você ame. Apenas entregue para alguém que você ame. E tenha uma boa sorte com isso. E tenha uma boa sorte no amor...
DOCES ASAS OBSCURAS

Tudo o que ela queria era que um anjo aparecesse e lhe acolhesse em suas asas. Asas doces, delicadas, gentis e seguras. Asas eternas, perfeitas, poéticas e fortes. Isso era tudo o que ela queria. Do fundo do seu coração. Do fundo da sua alma. Mas, infelizmente, ela acreditava que esse anjo jamais apareceria. Não, definitivamente ele não apareceria - ela costumava pensar. Nunca em minha vida. Nunca em minha própria vida. Não tenho tanta sorte.

A verdade é que por ela ser apenas pessimista e descrente da sua própria vida, sempre desejando a dor, ela jamais percebeu as pequenas plumas caídas no chão, sempre ao seu lado. Sempre por perto.

Pobre dela...