25.9.03

SOCOS E CINZEIROS SUJOS

A crueldade nunca lhe caiu bem. Quero dizer, a crueldade nunca lhe caiu bem, porque, na verdade, a crueldade não fazia parte dela. De modo algum. Porra, ela sempre foi uma pessoa incrível, uma ótima amiga, uma filha gentil, uma ouvinte atenciosa, uma namorada carinhosa, enfim, uma pessoa adorável. Sem vícios, sem defeitos, sem maldade. A crueldade nunca lhe caiu bem, com certeza, mas ela estava de saco cheio disso.

No fundo - ela me disse aquela noite – estou de saco cheio de ser vista como uma pessoa educada, sensível, gentil, o caralho. Quero que me vejam como sou, com meus defeitos, com meus erros, com meus problemas. Quero que saibam que eu fumo, que eu já tomei drogas, que eu bebo tequila de uma forma descompensada, que eu quero fazer uma tatuagem, que eu gosto de rock barulhento, cheio de guitarras e ruídos, que eu faço sexo constantemente, enfim, que eu sou apenas uma pessoa. Quero ser eu mesma. Apenas isso. Estou de saco cheio de ser boa e de as pessoas terem uma expectativa, sempre vulgar e tola e fútil, a meu respeito. Estou de saco cheio disso. E você, querido – disse irônica – definitivamente não faz parte disso. Do que eu quero. De tudo o que eu quero para mim.

A crueldade nunca lhe caiu bem. E, ao contrário, tomar socos na cara sempre foi a minha especialidade. Entre lágrimas, vodka e cinzeiros sujos.


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