16.9.03

O SEGUNDO BEIJO PERDIDO

Eles estavam bêbados. Bem, na verdade eles estavam “quase” bêbados. A quantidade de vodka e de cerveja que eles haviam consumido e ingerido naquela noite chuvosa e fria dava para afogar até mesmo o herói aquático dos desenhos infantis dos anos setenta, Namor, “O Príncipe Submarino”. Mas isso não importava ou importava muito pouco naquela noite. O que fazia a diferença é que ambos estavam alegres e sorrindo e felizes. Como há tempos não ficavam. E, porra, não podia ser diferente. Eles eram amigos há “séculos”. Desde a época em que ela era a garota prodígio e ele o vilão da escola. E agora ela morava sozinha e eles, como não podia deixar de ser, continuavam amigos. Sempre juntos, sempre ajudando um ao outro, sempre por perto. Que mal há nisso? Nenhum, desde que eles mantivessem sempre bem guardados os seus segredos, os seus medos, os seus sonhos perdidos, os seus desejos recolhidos e as suas vontades sufocadas. Desde que eles tomassem os cuidados devidos...

- Não agüento mais a ausência de nicotina no meu corpo, me dá um Marlboro? – ela pediu, manhosa.
- Você está bêbada – ele gargalhou – Para quem parou de fumar, esse sétimo cigarro da noite é um péssimo sinal, não?
- Foda-se. Foda-se tudo. Foda-se o mundo, o sistema de saúde, os grupos antitabagistas, seja mais o que for – ela sorriu, acendendo o cigarro – A partir de hoje, só vou fazer o que EU quiser, pode ser? Se, por acaso, eu quiser fumar um pacote inteiro de cigarros, que assim seja. Cansei de fazer o que me mandam, o que me pedem, o que me induzem. Simplesmente cansei. Fácil assim.
Ele a observou com um carinho todo peculiar. Sabia o que ela queria dizer. Sabia das suas necessidades. Sabia que ela PRECISAVA viver – Vá em frente. Viva. Você sabe que eu quero que você seja feliz. Muito feliz. Você sabe disso.
Ela o encarou atentamente, após perceber toda a delicadeza e o carinho contido nas suas palavras e a beleza estampada no seu olhar. Ele realmente se importava com ela. E isso era muito especial – Você me ama? – ela perguntou, abrupta, rápida, direta, sem perceber.
Ele continuou com os olhos fixos na fumaça do seu cigarro. Sentiu seu sangue congelar por inteiro. Sentiu seu coração simplesmente bater numa velocidade alucinada. Sentiu sua voz fraquejar – Amo. Claro que amo.

Ambos se olharam fixamente, expressando um amor pouco visto. Um carinho raro e especial. Ambos se olharam fixamente e pareceram congelar no tempo, congelar no espaço. Tudo aquilo durou segundos, instantes talvez, mas rápido demais até ele dizer, confuso – Preciso ir para casa.

Ela o olhou com desespero e consentiu com a cabeça. Permaneceu deitada no sofá, apenas o observando, enquanto ele pegava o seu casaco e sumia pela porta.

O beijo perdido mais uma vez se fez. Um beijo que nunca foi dado. Um beijo que nunca foi dado...para tristeza de quem ama...


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