29.9.03

teste

25.9.03

Meus dedos doem. De tanto teclar. E no monitor não aparece nada. Apenas palavras desconexas e sentimentos doloridos. Sentimentos extremamente doloridos. Não me deixem esquecer como é bom escrever...como é bom escrever...
OUVINDO O SOM DO MAR (AMORES POSSÍVEIS OU NÃO)

- Ouve – ela disse, tranqüila.
- O quê? - ela perguntou.
- O som, o barulho, essa sinfonia, essa música deliciosa – ela respondeu, sorrindo.
- Mas não há música alguma por aqui, querida. Estamos sozinhas nesta praia. Eu, você, o céu cinza, nossos medos e esse mar bravo.
- Então... o mar bravio. O som do mar. Apenas isso – ela retrucou, sem tirar os olhos do oceano – 7:15 da manhã. Você não acha essa a música mais deliciosa que poderíamos ouvir? A música mais romântica? – sorriu.
Ela olhou para ela com carinho e disse, calma e sorrindo – Você não desiste, não?
Ela retribuiu o olhar delicioso e respondeu – Não. Não desisto mesmo. Vou te amar para sempre. Quer você queira ou não. Quer você tenha medo ou não. Quer você rejeite isso ou não. Pode ter certeza.
E ficaram por lá, como duas estranhas, como duas amigas, apaixonadas, ouvindo o barulho do mar. Apenas ouvindo o barulho do mar.
SOCOS E CINZEIROS SUJOS

A crueldade nunca lhe caiu bem. Quero dizer, a crueldade nunca lhe caiu bem, porque, na verdade, a crueldade não fazia parte dela. De modo algum. Porra, ela sempre foi uma pessoa incrível, uma ótima amiga, uma filha gentil, uma ouvinte atenciosa, uma namorada carinhosa, enfim, uma pessoa adorável. Sem vícios, sem defeitos, sem maldade. A crueldade nunca lhe caiu bem, com certeza, mas ela estava de saco cheio disso.

No fundo - ela me disse aquela noite – estou de saco cheio de ser vista como uma pessoa educada, sensível, gentil, o caralho. Quero que me vejam como sou, com meus defeitos, com meus erros, com meus problemas. Quero que saibam que eu fumo, que eu já tomei drogas, que eu bebo tequila de uma forma descompensada, que eu quero fazer uma tatuagem, que eu gosto de rock barulhento, cheio de guitarras e ruídos, que eu faço sexo constantemente, enfim, que eu sou apenas uma pessoa. Quero ser eu mesma. Apenas isso. Estou de saco cheio de ser boa e de as pessoas terem uma expectativa, sempre vulgar e tola e fútil, a meu respeito. Estou de saco cheio disso. E você, querido – disse irônica – definitivamente não faz parte disso. Do que eu quero. De tudo o que eu quero para mim.

A crueldade nunca lhe caiu bem. E, ao contrário, tomar socos na cara sempre foi a minha especialidade. Entre lágrimas, vodka e cinzeiros sujos.


...então, LET´S ROCK...demorei, mas voltei...

19.9.03

Pessoas podem QUERER ser tristes? Isso não machuca demais?
... e então o tempo voou e eu mal consegui fazer qualquer coisa essa semana. E meus textos e minhas idéias ficaram suspensas. Esperando. Esperando o momento de eu transformá-las em palavras...e vou fazer isso. Se quiserem esperar...

16.9.03

O texto abaixo é sobre um segundo beijo perdido. Isso em razão de eu já ter escrito, certa vez, sobre um beijo perdido (quem não leu precisa vasculhar esses arquivos, mas no blog antigo, aliás). Falta de criatividade é isso...repetição de temas...mas o que eu posso fazer se eles são tão "reais" e "vivos", não é?
O SEGUNDO BEIJO PERDIDO

Eles estavam bêbados. Bem, na verdade eles estavam “quase” bêbados. A quantidade de vodka e de cerveja que eles haviam consumido e ingerido naquela noite chuvosa e fria dava para afogar até mesmo o herói aquático dos desenhos infantis dos anos setenta, Namor, “O Príncipe Submarino”. Mas isso não importava ou importava muito pouco naquela noite. O que fazia a diferença é que ambos estavam alegres e sorrindo e felizes. Como há tempos não ficavam. E, porra, não podia ser diferente. Eles eram amigos há “séculos”. Desde a época em que ela era a garota prodígio e ele o vilão da escola. E agora ela morava sozinha e eles, como não podia deixar de ser, continuavam amigos. Sempre juntos, sempre ajudando um ao outro, sempre por perto. Que mal há nisso? Nenhum, desde que eles mantivessem sempre bem guardados os seus segredos, os seus medos, os seus sonhos perdidos, os seus desejos recolhidos e as suas vontades sufocadas. Desde que eles tomassem os cuidados devidos...

- Não agüento mais a ausência de nicotina no meu corpo, me dá um Marlboro? – ela pediu, manhosa.
- Você está bêbada – ele gargalhou – Para quem parou de fumar, esse sétimo cigarro da noite é um péssimo sinal, não?
- Foda-se. Foda-se tudo. Foda-se o mundo, o sistema de saúde, os grupos antitabagistas, seja mais o que for – ela sorriu, acendendo o cigarro – A partir de hoje, só vou fazer o que EU quiser, pode ser? Se, por acaso, eu quiser fumar um pacote inteiro de cigarros, que assim seja. Cansei de fazer o que me mandam, o que me pedem, o que me induzem. Simplesmente cansei. Fácil assim.
Ele a observou com um carinho todo peculiar. Sabia o que ela queria dizer. Sabia das suas necessidades. Sabia que ela PRECISAVA viver – Vá em frente. Viva. Você sabe que eu quero que você seja feliz. Muito feliz. Você sabe disso.
Ela o encarou atentamente, após perceber toda a delicadeza e o carinho contido nas suas palavras e a beleza estampada no seu olhar. Ele realmente se importava com ela. E isso era muito especial – Você me ama? – ela perguntou, abrupta, rápida, direta, sem perceber.
Ele continuou com os olhos fixos na fumaça do seu cigarro. Sentiu seu sangue congelar por inteiro. Sentiu seu coração simplesmente bater numa velocidade alucinada. Sentiu sua voz fraquejar – Amo. Claro que amo.

Ambos se olharam fixamente, expressando um amor pouco visto. Um carinho raro e especial. Ambos se olharam fixamente e pareceram congelar no tempo, congelar no espaço. Tudo aquilo durou segundos, instantes talvez, mas rápido demais até ele dizer, confuso – Preciso ir para casa.

Ela o olhou com desespero e consentiu com a cabeça. Permaneceu deitada no sofá, apenas o observando, enquanto ele pegava o seu casaco e sumia pela porta.

O beijo perdido mais uma vez se fez. Um beijo que nunca foi dado. Um beijo que nunca foi dado...para tristeza de quem ama...


TRUE STORIES

- Alô? Pedro? – ela disse, com fina ironia na voz.
- Alô. Isso. Quem fala? – ele respondeu, sem conseguir disfarçar a surpresa e a decepção.
- Ora, já me esqueceu? Assim, tão fácil? Não esperava por isso – ela continuou, com a voz ainda mais mordaz – Depois de tantos bons momentos. Sei que foram curtos, mas você disse que foram ótimos.
Ele ficou em silêncio por poucos instantes e disparou – Claro que sei quem está falando, Carla. Claro que sei. Como está? – ele disse, nervoso, bastante nervoso.
- Eu vou bem. E você? Melhor?
- Indo. Como eu te disse, todos aqueles problemas andaram me tirando o sono. Mal saio de casa – ele afirmou, com muita convicção.
- Coitado. Mal sai de casa? Que tristeza. Logo você, um baladeiro de primeira – ela retrucou, direta.
- Espero que você não tenha ficado chateada comigo. Não deu mesmo para te ligar esses dias. Eu estou aqui em casa, atolado em serviço. Não bastasse tudo, ainda mais esse tipo de problema. Excesso de trabalho.
- Fico chateada por você. Quem sabe não nos vemos qualquer dia desse, não é? – ela provocou.
- Espero que sim. Não vejo a hora.
- Me diz uma coisa, você está em algum bar? – ela perguntou, arisca.
- Não. Claro que não. Não te disse que estou em casa, atolado em serviço – ele reagiu, indignado e nervoso. Bastante nervoso.
- Curioso. Bem curioso. Eu poderia jurar que você está em algum bar nesse exato momento.
Ele riu atônito e disse – Você está louca ou bebeu demais. Não sei qual das duas hipóteses, mas com certeza uma delas.
- Tem certeza? – ela insistiu.
- Claro que tenho pó – ele respondeu irritado.
- Então tudo bem. Mas posso te pedir dois favores?
- Claro.
- Então tá. Da próxima vez não vá a um boteco com essa ridícula camisa amarela e, por favor, não me ligue nunca mais. Otário.
E ele se virou, com cara de idiota, percebendo a presença dela no bar. Com absoluta cara de idiota...

12.9.03

Esse blog ficou meio movimentado nos últimos dias. Mais do que o normal. Bem mais do que o normal. Quem frequenta esse espaço sabe que sempre houve uma cumplicidade, uma unidade, uma espécie de troca (deliciosa troca) entre as minhas palavras e a atenção de vocês.

E no meio dessas semanas, eu lamento não ter tido o tempo e nem a oportunidade de agradecer como se deve a todas as pessoas que entram aqui e as palavras bacanas que eu recebo, seja através de comments, seja através de e-mails.

Então, eu aproveito a agora (sem querer ser cafona), para agradecer a todas as pessoas legais que entram aqui e perdem um minutinho do seu dia, lendo as palavras que eu jogo por aqui, tentando acertar o alvo...seja ele qual for...

Valeu...vocês não sabem como isso é bom e me faz bem...mesmo!!!

Beijos para quem é de beijos...
Abraços para quem é de abraços...


Bom final de semana...
BEIJANDO O CÉU

- Certa vez, quando eu era muito pequena, minha mãe me disse que bastava ter pensamentos bons para eu poder flutuar e beijar o céu – ela disse, chorando.
- E você conseguiu, não conseguiu? Bem ou mal... – sua melhor amiga perguntou, fazendo um carinho nos seus cabelos.
- Consegui. E perdi tudo. De uma só vez, como seu fosse uma imbecil.
- Mas você está aqui. Viva e sendo você.
- E fodida também. E a partir de hoje eu vou sufocar todos os meus bons pensamentos.

E sua amiga chorou junto. Querendo acreditar que ela ainda iria ficar bem novamente. Apenas querendo acreditar...

11.9.03

TUDO O QUE ELA QUERIA...

Tudo o que ela queria era ser importante para ela...

Os seus pensamentos flutuavam naquela noite. Ela estava absolutamente obcecada por Lúcia. Apaixonada. Mas não de uma forma sexual, romântica ou o que quer que fosse. Ela estava, na verdade sempre foi, fraternalmente apaixonada pela amiga. Ela realmente amava a sua amiga Lúcia. Queria ser como ela. Independente, decidida, objetiva, direta, moderna, fumante ativa, mochileira, enfim, Lúcia. Uma garota com a idade dela, com muito menos dinheiro que ela, porém com muito mais vontade de viver. Muito mais vontade de ser feliz. Lúcia era a antítese dela. Lúcia gostava de “tentar”, pouco importando se iria dar certo ou não. Lúcia gostava de viajar, pouco importando como chegaria ou voltaria do seu destino. Lúcia não tinha medo ou, se o tinha, disfarçava como poucos. Os seus pensamentos flutuavam naquela noite. Ela estava aflita e desesperada. Sabia que Lúcia não voltaria a ligar para ela. Não depois de tudo o que ela lhe disse, não depois de todas as acusações e mentiras e devaneios que ela havia cuspido na sua cara. Todos os seus acúmulos foram jogados na cara de Lúcia. E Lúcia não merecia isso. Por tudo o que já haviam vivido juntas, por tudo o que já haviam dividido. Lúcia foi a sua melhor amiga por muito tempo. Por muitas noites chuvosas, quentes, noites regadas a tequila, vodka, pinga, regadas a psicotrópicos, regadas a desejos, loucuras, sonhos e paixões. Lúcia foi a sua metade que deu certo. A sua metade que soube viver. Era por isso que ela se espelhava e desejava tão ardentemente ser Lúcia. Estava arrependida de ter falado tanta besteira naquela porra de noite. Arrependida, mas também magoada. Magoada porque, apesar de tudo, ela estava ferida. Amava Lúcia, mas não iria ligar. Não iria pedir desculpas. Não iria voltar atrás. Seu estômago apertou com tanto orgulho e desespero. Tudo o que ela queria, era ser novamente importante para ela...para aliviar toda aquela dor...toda aquela dor...


EMBRULHANDO A LUA PARA PRESENTE

- Então vamos combinar uma coisa? – ele perguntou, animado.
- O quê? – ela disse, curiosa.
- Quando eu conseguir alcançar a lua, voando, eu vou roubá-la e te dar de presente.
Ela sorriu com a idéia tola e infantil dele e disse, tranqüila – Mas se você roubá-la só para mim, o que os outros casais vão fazer? Ficar sem o luar? Não precisa.
Ele a olhou e a olhou e a olhou e a olhou e perguntou – Ué, não quer a lua? Não entendo. Não consigo imaginar um outro presente tão cool e descolado e romântico e apaixonado como esse.
- Eu sei de um – ela afirmou, categórica – Tá certo que pode te dar ainda mais trabalho do que o presente lunar.
Ele a olhou intrigado e disse – Posso saber qual?
- Você. Basta você se entregar e me amar. Completa, total e absolutamente.
Ele sorriu e disse, carinhoso – Maldita vodka. Você está bêbada.
- Apaixonada – disse, encerrando o assunto e o beijando, a forma perfeita de dizer “eu te amo”...

10.9.03

SAUDADES ADORAVELMENTE DESCONHECIDAS

- E então Grasi? Nunca mais teve notícias da Isa? – Gustavo perguntou, enquanto acendia um cigarro e pedia mais um capuccino ao garçom do Clube Varsóvia.
- Não Gus, não. Já faz alguns meses. Ela deu uma desencanada. Sabe como são essas coisas né? - Grasi respondeu, também acendendo um Marlboro.
- Entendo assim, mais ou menos. É muita maldade sumir assim – disse Gus, com um sorriso.
- Ah, você não deve ficar chateado. Ela teve mil problemas. Eu nunca soube ao certo o que rolou, mas ela deu uma desencanada total. Uma sumida para recarregar as energias, para recarregar a vida. Ela deve estar flutuando por aí, no espaço, apenas para aliviar a dor, apenas para afastar os maus pensamentos.
- Eu sei, claro. Não fico chateado não. De forma alguma. Apenas gostaria de tê-la por aí, alive and kicking. Ela faz falta, não?
- Nem me fale Gus, nem me fale. Adoro aquela garota. Ela é divertidíssima. Nunca vi ninguém tão fascinada por tintura para cabelo de farmácia como ela. Muito embora morássemos em cidades diferentes, ela sempre foi muito importante para mim. Esperta, inteligente, carinhosa, interessante, enfim, uma pessoa adorável. Ela sempre me deu a maior força, sabia? Quando eu estive mal, com todos aqueles problemas e aquelas pílulas coloridas malditas, foi ela que estava lá, me escrevendo, me dando ajuda, me ligando, enfim, sendo uma puta amiga. Adoro essa garota.
- Tem razão. Ela é fucking, fucking great – disse Gus, gargalhando.
- Haha, ela iria adorar esse termo. Essa definição dela própria.
- Espero que sim.
- O curioso... – disse Grasi – ...é que vocês nunca se encontraram pessoalmente, né?
- É mesmo – consentiu Gus – Nunca tivemos oportunidade. Você sabe como foi, começou com aquele papo de ela ser sua amiga do interior e você falar de mim para ela e vice versa, daí conversamos por telefone quando você estava internada, daí falamos de uma amiga dela, a Clara, mochileira, daí passamos a trocar cartas e ficamos amigos virtuais, amigos de cartas escritas em papel e em nanquim. Como antigamente. Como nos tempos nada modernos. Nada dessas bobagens tecnológicas. Algo adoravelmente démodé. Foi ótimo. Trocamos grandes idéias naqueles papéis de carta.
- Engraçado – disse Grasi.
- O quê? – perguntou Gus.
- Não é estranho sentirmos saudades de quem sequer conhecemos?
- Mas quem disse que não a conhecemos? – ironizou Gus, com um sorriso – Quem disse?


ALGUÉM NOVO PARA SER VOCÊ

É bom inventar alguém novo para ser você

E ela disse isso, assim, na sua face. Sem o menor pudor, sem o menor constrangimento, sem a menor piedade. Não se importou se ele ia chorar, beber, se drogar, se matar, enfim, se desesperar por não mais tê-la. Por ter, finalmente, percebido que jamais voltaria a tê-la. E ele ouviu aquelas palavras duras soar como trovões dentro dos seus ouvidos. Como uma explosão de uma bomba muito barulhenta. Uma bomba cruel. Uma bomba mortal. O efeito conseguiu ser ainda pior do que aquele ruído infernal. O efeito foi devastador. Foi devastador. Ele se sentiu derrotado. Como há tempos não se sentia. Ele se sentiu acabado, aniquilado, destroçado. Não encontrava palavras em seu escasso vocabulário para fazer frente ao que ouviu. Não conseguiu dar o troco. Dar o tapa na cara que gostaria. Engoliu seco e sentiu seu coração batendo desesperadamente acelerado. Desesperadamente descompassado. Desesperadamente triste. Não chorou. Não, ela não o veria chorar. Lágrima alguma. Lágrima alguma. Ela não merecia isso. Mas, quando a porta do carro se fechou e ele ficou lá, sozinho, enquanto ela entrava na sua casa, ele percebeu que nem isso ela queria. Nem mesmo vê-lo chorar. Talvez fosse bom inventar alguém novo para ser ele próprio. Para ser ele próprio...

5.9.03

MELODIAS SURPREENDENTES

- Que barulho lindo é esse, mãe? – perguntou Lia, atenta a uma suave melodia que ecoava para dentro daquele idiota quarto de hospital.
- Deixe-me ver – disse a sua mãe, aproximando-se da janela – Olha só que maravilha. É um garoto tocando piano em um dos apartamentos residenciais aí da frente. Bem, com esse sossego que é essa rua, nem parece rua de hospital, só assim para ouvir essa belezinha. Você teve sorte.
- Sorte? É, tive muita sorte mesmo. Uma cirurgia de emergência, um corte gigantesco no corpo, uma recuperação horrível, uma beleza mesmo. Como sou sortuda.
- Bem, ao menos você está num hospital que tem trilha sonora. Uma agradável trilha sonora. Um garoto, que toca muito bem por sinal, ensaiando na janela em frente ao seu quarto. Eu acho melhor do que outras opções possíveis. Bem querida, eu já vou indo, você fica um pouco sozinha que eu já volto. Só vou pegar umas coisinhas em casa e já, já, estou de volta. Fique bem.
- Obrigado mãe. Até mais.

Assim que a porta se fechou, Lia pôs-se a escutar mais detidamente a doce melodia que maravilhosamente explodia em seus ouvidos, naquela altura, já bem cansados de todos aqueles barulhos metálicos e frios, típicos de um hospital. É, realmente ele toca muito bem – pensou, enquanto se ajeitava para dormir.

E após aquele dia, Lia adorava ficar sozinha no seu quarto, apenas para ouvir, em silêncio, o garoto tocar. Ela adorava aquele fio de música. Adorava e ficava sempre ansiosa, à espera da próxima canção. Ela tinha muita curiosidade em vê-lo, porém em todos os momentos que teve alguma oportunidade, ou ele não estava tocando ou não estava ao alcance dos seus olhos. De qualquer forma, seu passatempo predileto naquele quarto de hospital era imaginar como era o seu rosto, o seu corpo e as suas mãos suaves, dedilhando tecla a tecla aquele piano.

Depois de duas semanas, ela finalmente teve alta. Antes de ir embora, tentou uma última vez visualizar o seu desconhecido amigo. Não conseguiu, mas não ficou triste. Deixou ao acaso os desencontros.

Antes de deixar o hospital, ela pediu a sua mãe para comprar uma rosa e um pequeno cartão. Sem entender nada, a mãe fez a sua vontade. Ela escreveu um pequeno bilhete e pediu a mãe para deixar na portaria do prédio em frente. A mãe sorriu, já entendendo tudo. Porém, nada falou e fez o pedido.

- Vamos, Lia? – perguntou a mãe.
- Claro. Obrigado – disse a garota, não sem antes dar uma última olhada para trás para ver aquele pequeno prédio verde do menino pianista.

O bilhete? Era apenas um agradecimento pela força e poesia que um desconhecido deu, sem saber, para outro desconhecido. Coisa rara hoje em dia. Coisa rara de se ver. Coisas da vida.
Definição de saudade? Definição de saudade? Lembranças de momentos bons. É simples assim?

4.9.03



...me diverti muito hoje, com mudanças e estórias...gostei. Preciso ser menos impessoal, falar mais e escrever menos... os resultados são bons.



REGANDO GIRASSÓIS COM AMOR E SAUDADES

- Então é isso? – ela perguntou, quase aflita, com a voz distante.
- Creio que sim – ele respondeu, disfarçando a tristeza – Fique tranqüila, a viagem vai ser do caralho. Você vai amar. Você vai, estuda e, logo, logo, vai estar de volta e nós continuaremos juntos. Sempre juntos. E, afinal, nem é tanto tempo assim.
- Pô, seis meses é quase uma vida – ela disse.
- Não, relaxa, vai passar voando. E você tem razão, vai ser uma vida. A sua vida. A nossa vida.
Ela permaneceu em silêncio e ele emendou – Vá tranqüila querida, por favor. Você sabe que eu te amo e tudo o mais e pode apostar que quando você voltar eu vou estar te esperando. Pode estar certa.
- Você tem certeza que não quer ir ao aeroporto? – ela perguntou – Já estou quase saindo.
- Nós já conversamos sobre isso, não? – ele retrucou, firme.
- Tá bem, tá bem, não vou mais discutir isso. Bom, preciso ir. Nossas despedidas já fizemos. O resto vem depois – ela disse, já chorando.
- Fique bem querida. Você sabe que eu te amo e que vai dar tudo certo – Cuide-se e até a volta. E vai ser logo.
- Tchau. Te amo. Vou te ligar muito.
- Também. Te amo. Boa viagem.

E desligaram o telefone e caíram nas lágrimas. Os dois. Cada um no seu canto. Cada um no seu momento de vida. Simultâneos.

No dia seguinte, ele já estava de pé bem cedo. Resolveu dar uma volta pela rua antes de ir para o trabalho. Dar uma caminhada, um cigarro, um café na esquina. Assim que passou pela portaria do prédio foi abordado pelo porteiro, que segurava um dos mais lindos buquês de flores que ele já havia visto. Girassóis gigantes e lindos. Amarelos como a cor do seu cabelo. Amarelos como a cor do casaco cashmere preferido dela. Amarelo como o sol.

- Deixaram para você hoje bem cedinho. Tem um cartão aí – o porteiro disse, com um sorriso discreto nos lábios.
Ele segurou o buquê e respirou aliviado, esquecendo a vodka e a ressaca e a péssima noite que teve. O cartão dizia simplesmente “O vendedor me disse que esse buquê, se bem cuidado, dura uns seis ou sete meses. Simbólico, né? Cuide bem dele. Por favor. Eu estou levando um para cuidar também. Basta regar com saudade e não com lágrimas. Até a volta. E eu vou voltar. Com muito amor. Por toda a vida. Te amo... muito. Muito mesmo”.
Ele foi interrompido do seu gozo pelo porteiro - Nunca vi um troço desses. Mulher dando flores para homem. Esse mundo está perdido mesmo. Onde vai parar essa bagunça?
Ele olhou para o porteiro, feliz como nunca e disse, bem humorado – Ainda bem que o mundo mudou Seu João. Ainda bem. E o senhor não sabe o que está perdendo...




Estou contente. Olha o novo template que ELA fez para mim. Ficou bom? Eu gostei...qualquer reclamação não é comigo (rs).

Ficou cinza e bonito, como o dia de hoje...

Obrigado...

3.9.03



qual o livro mais triste do mundo? (apenas curiosidade...)


ei, eu vou escrever amanhã um conto sobre flores e pessoas com saudades...e isso porque estou morrendo de saudades de vocês...