22.8.03



QUANDO AS CARTAS SÃO DEVOLVIDAS POR AUSÊNCIA DE ENDEREÇO

Ela abriu sua pequena caixa de papéis antigos, textos mal escritos e fotos amarelas e feias, e mal acreditou na carta que encontrou...

“Então você se acha assim mesmo? Um misto de erros e trapaças e enganos e fracassos. Uma piada. Uma piada sem graça. Uma pessoa a quem ninguém leva a sério, nem mesmo você. Uma pessoa desprovida de qualquer capacidade de as pessoas gostarem de você. Uma pessoa que pensa que a solidão pode aliviar sua dor, sua dor em existir, sua dor por não amar, sua dor por não compreender que você não é o centro do universo e que as pessoas não querem ser sua amiga. Não, querida, você está errada. Você não é nada disso. Você apenas precisa aprender que a vida não é feita de inverno e dias cinzas. A vida é feita de sonhos, de sol, de noite, de fúria, de desejos, de energia, de sorrisos e, claro, também de coisas ruins, desagradáveis e incômodas. Mas, ora, você está viva ou o quê? Você precisa aprender a ser você. Apenas ser você. Ninguém pede mais do que isso. E se todos te tratam como uma piada e não percebem que você quer chorar e quer gritar, mande todos para o inferno. É lá o lugar das pessoas tolas. O que nunca foi o seu caso, muito embora você ainda acredite nisso.
Te amo


E ela sorriu. Não acreditou que havia escrito aquela carta e nem lembrava que ela ainda existia. A carta que ela escreveu para ela mesma, ainda adolescente, numa solitária tentativa de aquecer seu coração numa solitária noite chuvosa de inverno. E por mais que ela ainda gostasse da noite e dos tons cinzas, sorriu com carinho ao perceber que aquelas palavras somente fariam sentido agora, anos depois, numa quente manhã de verão...

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