11.6.03



POR FAVOR, USE O HEADPHONE - A PONTE (CASINO)

ESTRADAS VAZIAS E PONTES NO CHÃO...


"Faz um tempo que
Eu já falo mesmo em me mudar...
"

Ela pensou que seria possível esquecer os seus problemas. Todos os seus problemas. Ela pensou que seria fácil. Simples como tomar um destilado forte. Uma anfetamina demente. Acreditou que, para tanto, apenas um carro bastaria. Um carro que a levasse para longe dali e seguisse por todas as estradas possíveis, todos os caminhos imaginários, ou não. E assim ela fez.

Em um dia úmido e cinza - como os seus olhos - ela acordou bem cedo. Era madrugada, quase manhã. Encheu a sua mochila velha com uma porção de maços de cigarro; fitas cassete com as músicas prediletas; livros de poesia barata; e, fotos antigas. Fotos suas e de seus amigos. Fotos que ela adorava, caso sentisse saudade. Entrou em seu carro velho, adoravelmente sujo e despedaçado, o ligou e saiu por aí. Sem destino, sem saber para onde ir, sem saber se iria voltar. Ou querer voltar.

E ela rodou e rodou e rodou por várias estradas, por vários quilômetros e por vários dias. Parou, vez ou outra, em alguma pousada para descansar. Mas não desejou dormir em nenhuma delas. Dormindo, ela sabia que podia sonhar e, na verdade, isso era o que ela menos queria naqueles dias. Medo de pesadelos. Medo de pesadelos.

E, após alguns dias, ela percebeu que não poderia mais simplesmente se enganar e rodar por aí. Ela se deu conta de que era impossível simplesmente fugir dos seus problemas. Entrou em um estado de desespero quase sufocante. Absolutamente angustiante. Resolveu então acelerar ainda mais o seu carro, como se fosse possível descolar da sua própria sombra.

Mas, não era possível, definitivamente não era...

De repente, como se o acaso conspirasse, ela teve que frear bruscamente. À sua frente não havia mais para onde ir. À sua frente havia apenas a estrada fechada e uma ponte destruída. Não havia mais para onde ir. Simplesmente não havia mais...

Ela, sempre linda, mudou de idéia quanto a desistir da sua vida. Ao invés de simplesmente dar meia volta naquele asfalto escuro para enfrentar o seu destino, ela ali ficou. Parou o carro, ligou o rádio no último volume, desceu do veículo, sentou-se sobre o capô imundo de pó e vento, acendeu um cigarro e ficou lá, apreciando o pôr do sol e sentindo o frio do começo da noite na estrada aberta. Não seria, com certeza, naquele instante, mas a ponte ainda iria se reerguer para ela poder dar o fora dali. Ainda que dependesse apenas da sua própria força... ela estava certa disso...



"Faz uma semana e meia que a estrada abriu
A ponte feita às pressas
E a janela canta
O carro sujo, esperto, o conserto, o rádio, a roda, o vento, faz uma
Semana e meia que marcamos compromisso
Eu faço qualquer coisa só pra ver de novo
O tom de pele, o rosto, o riso, a brincadeira
E os discos
Faz um tempo que
Eu já falo mesmo em me mudar
Largar esse trabalho chato e contra-produtivo,
Pra ver televisão, pra ler uns livros,
Rasgar jornais, rever os amigos.
Faz um frio à noite na estrada aberta
À frente as férias auto-impostas
automóveis, risos
Faz tempo, faz tempo.
Há quanto tempo,
Há quanto tempo
".





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