27.6.03



E certa vez eu escrevi um pequeno texto inspirado na banda carioca Luisa Mandou Um Beijo (muito boa, por sinal). E o Fernando Paiva (que é o guitarrista) foi muito gentil e elogiou o que eu havia escrito. E eu fiquei contente. E trocamos alguns e-mails e ele me indicou uma outra banda carioca, uma banda já extinta, chamada Vibrosensores. Eu escutei algumas de suas canções e adorei a banda. Achei encantadora a forma de abordagem deles. E agora, o grande Fernando está escrevendo de modo brilhante na sua MÁQUINA DE ESCREVER . E na última edição, ele escreveu sobre os VIBROSENSORES . E eu, aproveitei a oportunidade e escrevi o texto abaixo sobre eles...e vocês devem ouvir a banda e ler o Máquina de Escrever e aproveitar esse final de semana, que é o melhor que se tem a fazer...



APENAS RELÂMPAGOS...

O beijo que você me deu
sob o sol
A chuva molhando
os campos de maçã

(Sob o Sol - Vibrosensores)

Lembro que choveu MUITO naquela tarde. Muito mesmo. Mais do seria normal em qualquer outro dia, em qualquer outro dia que não aquele. Maldito. Tudo estava bem, mas o céu, como puro capricho, decidiu se rebelar. O céu, assim de repente, tornou-se cinza. Absurdamente cinza. Cinza chumbo, quase noite. E choveu muito mesmo naquela tarde. Como jamais eu pensei que poderia chover em qualquer outro dia normal. Em qualquer outro dia que não aquele. Maldito. Lembro-me que eu estava no parque central, quieto, pensando nas verdades que eu havia ouvido e arquitetando uma fuga mirabolante do viciado e repetitivo labirinto caótico que a minha vida havia se transformado. Lembro-me que não estava sol, nem tampouco abafado, e que, portanto, não havia tantas nuvens no céu capazes de provocar aquela tempestade. Não mesmo. Mas, ainda assim tudo aconteceu. Não me dei conta, e, de repente, tudo aconteceu. O céu tornou-se cinza. Absurdamente cinza. Corri para qualquer lado, apenas com o intuito de me proteger da tempestade. Não deu tempo e fui atingido por uma enchente de gotas gordas, gotas enormes, capazes de molhar muito uma pessoa naquele parque. Parei assim que alcancei uma marquise de cimento, feia, mas que bem serviu para me abrigar, temporariamente, da tempestade. Sem ar pela corrida, sentei-me no chão inundado e acendi um cigarro para foder de vez meu pulmão. Pus-me a observar as pessoas correndo para um lado e para outro, à procura de um abrigo. Senti-me estranho diante daquele balé desarticulado praticado no parque central. Senti-me muito estranho. E, de repente, um estrondo gigantesco me fez cerrar os olhos bruscamente. Um raio caiu próximo ao lago do parque. Lembrei-me que raios causavam-me medo. Tanto medo quanto o causado pela solidão e pelo meu coração estilhaçado. Senti-me estranho. E triste, muito triste, afinal no meio da tempestade, lembrei-me do beijo que ela me deu naquele parque. Sob o sol. Chorei como uma criança aflita... e, eu, que nem religião tinha, me peguei rezando para a tempestade passar...



Alguém tem medo de chuva?



MANHÃ DE DOMINGO

E seus olhos não suportavam mais tantas lágrimas. Inchados. Cansados. Borrados. Infelizes. Pequenos. Sua cabeça parecia explodir. Não tolerava mais os ecos das palavras rudes e estúpidas que havia ouvido horas antes Você é como uma manhã de domingo. Triste e cinza. Apenas triste e cinza. E eu não quero isso para mim... e essa foi a pior despedida que ele poderia proporcionar para aquela linda garota de cabelos vermelhos, que agora estava naquele banheiro de padaria imundo, com olhos inchados, cansados, borrados e infelizes...muito infelizes...



CHANCES

Ele achava, até aquela noite, que nao era capaz de fazer nada que prestasse. Ele acreditava, piamente, que tudo em que tocava se transformava em lixo. Ja havia algum tempo que ele tinha a certeza de estar perdido. Total e irrecuperavelmente perdido. Uma cançao derretida em acido do Radiohead, sem começo, sem meio e sem fim. Até aquela noite.

- Quer dançar comigo? - ela pediu, carinhosa
Ele o olhou surpreso e perguntou - Quando? Agora?
- Nao, na semana que vem - ela brincou
- Por que você quer dançar comigo? - ele perguntou - Eu ja nao te fiz mal suficiente?
- Eu te amo seu idiota. Quero dançar a porra da minha vida inteira com você porque eu te amo. Apenas isso - ela respondeu - Agora, vem dançar.

Ele apenas sorriu e decidiu que ainda iria se dar uma chance. Uma ultima e preciosa e necessaria chance. E na pista do Clube Varsovia, naquela noite, um casal dançou apaixonadamente. Um garoto perdido tentando se encontrar e uma garota decidida querendo ser feliz. Apenas querendo ser feliz...


21.6.03



PROMESSAS

- Você promete uma coisa? - ela pediu, quase afogada em tanto amor.
- Tudo o que você quiser - ele disse.
- Você promete nunca me magoar? - ela disse, desafiadora.
Ele a encarou por breves instantes e respondeu, direto - Prometo tentar.
Ela respirou aliviada e disse, tranquila - Obrigado.
Ele devolveu o olhar e perguntou - Obrigado pelo quê?
- Por não mentir para mim - ela respondeu, sentindo-se a garota mais apaixonada e feliz do planeta...




ADOLESCENTES...

- Quer um gole? - ele perguntou, com um sorriso bobo no rosto.
- Do quê? - ela indagou - Você não está bebendo nada.
- Da minha saliva - ele disse, com um olhar ainda mais sacana.
- Nojento - ela retrucou, dando-lhe um soco simbólico.
- Me dá um beijo, vai - ele pediu.
- Te amo seu trouxa - ela disse, segundos antes de dar um dos beijos mais apaixonados da sua pequena vida...




INVERNO? NÃO EXISTE INVERNO SEM NEVE...

E, depois da porrada violenta que a vida lhe deu na boca do estômago, bem na boca do estômago, ela resolveu dar um "foda-se". resolveu que tudo o que ela mais queria era viver. Depois de todos aqueles cansativos dezoito anos, ela queria apenas viver. E foda-se quem lutasse contra ela. Ela queria ser viva. Queria sair com os amigos, queria dançar a noite toda, queria deitar na cama e dormir, queria sorrir, queria quebrar portas com socos, queria quebrar garrafas aos cacos, queria desprezar quem a desprezava, queria beber até cair, queria fumar o que quisesse, queria olhar para quem quisesse, queria foder quem não a entendesse, queria, enfim, apenas ser feliz. Assim, de uma só vez e tão de repente. Ela queria viver a sua vida. naquela tarde chuvosa de início de inverno, no escuro do seu quarto, ela percebeu isso. Percebeu que o frio estava apenas começando...e ela iria enfrentá-lo de frente, com certeza...para o bem ou para o mal...para o bem ou para o mal...



17.6.03



Então, aí embaixo, eu escrevi uma estória triste e uma feliz. Na verdade, gosto de pensar que as duas são apenas... estórias, comuns a quem está apenas vivo. Mas, apesar da distância entre ambas, eu espero que elas tenham sempre um final feliz. Ah, a primeira eu escrevi para essa moça gentil aqui... ... e, a segunda, bem, a segunda eu escrevi para uma pessoa especial e para quem quiser sorrir e amar... apenas para quem quiser sorrir e se divertir com minha bobas e poucas palavras... divirtam-se...



PARA QUEM PRECISA DESABAFAR

- Me diz uma coisa? - foi a primeira coisa que ele perguntou assim que a viu. E ela estava com um olhar triste. O mais triste de todos.
- O quê – ela disse, sem mais disfarçar qualquer lágrima.
- Eu sei que não há nada a fazer ou a dizer agora, mas seu eu te der um puta abraço, você me promete uma coisa? – ele perguntou.
Ela não conseguia mais falar nada, então apenas consentiu com a cabeça.
- Então tá... eu vou te dar o abraço e você vai chorar e chorar e chorar e chorar até se sentir mais leve e segura...
Ela desabou em seu ombro e chorou... desejando ser uma criança e um pouco mais feliz. Sempre com bons amigos como ele ao seu lado...







NAMORADOS...

Eles eram dois adolescentes. Dois adolescentes descobrindo o mundo, descobrindo a vida, tentando, experimentando, buscando saídas e caminhos e o que mais fosse necessário para ser feliz. Eles eram apenas dois adolescentes. Adoravam estar juntos. Precisavam se falar praticamente todos os dias. Precisavam se VER praticamente todos os dias. Adoravam estar grudados.

Eram adolescentes...

E o tempo foi passando e passando e passando. E, de repente, eles ainda adoravam estar juntos e ainda adoravam se falar todos os dias e ainda precisavam se VER todos os dias e ainda adoravam estar grudados, mas não de um modo pesado, sufocante, asfixiante. Apenas de um modo tranqüilo, feliz, em paz. Como somente quem ama MUITO é capaz de sentir...

E depois de todo esse tempo – anos - lá estavam os dois, com rugas, ainda mais uma vez, sentados na fofa areia daquela praia, naquele dia nublado como o chumbo.

- E quantos anos faz hoje? – ele perguntou, enquanto acendia um cigarro e abria uma cerveja.
- Que estamos juntos? – ela respondeu, com um sorriso gostoso nos lábios, ajeitando o seu velho chapéu de palha, mais apropriado para um dia de sol do que para aquele dia de chuva.
Ele retribuiu o sorriso e disse – Exato.
- Estamos juntos o tempo suficiente para eu saber que dificilmente vou deixar de te amar. O tempo suficiente para eu saber que sou feliz como nunca e o tempo insuficiente para te ter por perto, porque, meu querido, isso eu quero por todo o resto da minha vida. Ainda que ela esteja próxima do fim.
- Me dá um beijo agora vai... – ele pediu feliz, apenas feliz como uma criança e apaixonado como qualquer um de nós, como sempre, e cada vez mais...



11.6.03



POR FAVOR, USE O HEADPHONE - A PONTE (CASINO)

ESTRADAS VAZIAS E PONTES NO CHÃO...


"Faz um tempo que
Eu já falo mesmo em me mudar...
"

Ela pensou que seria possível esquecer os seus problemas. Todos os seus problemas. Ela pensou que seria fácil. Simples como tomar um destilado forte. Uma anfetamina demente. Acreditou que, para tanto, apenas um carro bastaria. Um carro que a levasse para longe dali e seguisse por todas as estradas possíveis, todos os caminhos imaginários, ou não. E assim ela fez.

Em um dia úmido e cinza - como os seus olhos - ela acordou bem cedo. Era madrugada, quase manhã. Encheu a sua mochila velha com uma porção de maços de cigarro; fitas cassete com as músicas prediletas; livros de poesia barata; e, fotos antigas. Fotos suas e de seus amigos. Fotos que ela adorava, caso sentisse saudade. Entrou em seu carro velho, adoravelmente sujo e despedaçado, o ligou e saiu por aí. Sem destino, sem saber para onde ir, sem saber se iria voltar. Ou querer voltar.

E ela rodou e rodou e rodou por várias estradas, por vários quilômetros e por vários dias. Parou, vez ou outra, em alguma pousada para descansar. Mas não desejou dormir em nenhuma delas. Dormindo, ela sabia que podia sonhar e, na verdade, isso era o que ela menos queria naqueles dias. Medo de pesadelos. Medo de pesadelos.

E, após alguns dias, ela percebeu que não poderia mais simplesmente se enganar e rodar por aí. Ela se deu conta de que era impossível simplesmente fugir dos seus problemas. Entrou em um estado de desespero quase sufocante. Absolutamente angustiante. Resolveu então acelerar ainda mais o seu carro, como se fosse possível descolar da sua própria sombra.

Mas, não era possível, definitivamente não era...

De repente, como se o acaso conspirasse, ela teve que frear bruscamente. À sua frente não havia mais para onde ir. À sua frente havia apenas a estrada fechada e uma ponte destruída. Não havia mais para onde ir. Simplesmente não havia mais...

Ela, sempre linda, mudou de idéia quanto a desistir da sua vida. Ao invés de simplesmente dar meia volta naquele asfalto escuro para enfrentar o seu destino, ela ali ficou. Parou o carro, ligou o rádio no último volume, desceu do veículo, sentou-se sobre o capô imundo de pó e vento, acendeu um cigarro e ficou lá, apreciando o pôr do sol e sentindo o frio do começo da noite na estrada aberta. Não seria, com certeza, naquele instante, mas a ponte ainda iria se reerguer para ela poder dar o fora dali. Ainda que dependesse apenas da sua própria força... ela estava certa disso...



"Faz uma semana e meia que a estrada abriu
A ponte feita às pressas
E a janela canta
O carro sujo, esperto, o conserto, o rádio, a roda, o vento, faz uma
Semana e meia que marcamos compromisso
Eu faço qualquer coisa só pra ver de novo
O tom de pele, o rosto, o riso, a brincadeira
E os discos
Faz um tempo que
Eu já falo mesmo em me mudar
Largar esse trabalho chato e contra-produtivo,
Pra ver televisão, pra ler uns livros,
Rasgar jornais, rever os amigos.
Faz um frio à noite na estrada aberta
À frente as férias auto-impostas
automóveis, risos
Faz tempo, faz tempo.
Há quanto tempo,
Há quanto tempo
".







O post acima é baseado em uma canção...uma linda canção chamada A Ponte, a banda? Casino, do Rio de Janeiro...

9.6.03



432 Beijos (1 Sorriso)

Já passava das quatro e meia da manhã. E lá estava ela sozinha, ainda mais uma vez, tentando chegar em casa após uma festa. Mais uma festa e mais um final de semana. E lá estava ela, tentando achar seu caminho. Não, ela não estava bêbada, não estava chapada, não estava nada. Estava sóbria e consciente e isso era justamente o que mais lhe incomodava, pois a consciência lhe trazia a dor, a consciência lhe fazia lembrar do seu problema, da sua depressão, a consciência lhe tirava o sorriso do seu belo rosto. E tudo o que ela queria era que a festa acabasse e que as pessoas percebessem que ela não era mais a mesma garota alegre de antes. Agora, tudo havia mudado. Ela desejava, com toda a força, que as pessoas percebessem a sua tristeza e perguntassem e lhe dessem o colo e o carinho necessário para ela poder ser ela própria. Apenas ela própria. E festa após festa, isso definitivamente não estava acontecendo. E ela estava de saco cheio. Resolveu, naquela madrugada, sair da festa e rodar por aí até decidir parar a porra do seu carro em uma padaria qualquer para tomar um café barato e amargo, apenas para despertar. Apenas para enfrentar a realidade. Assim que sentou no banco sujo do balcão de uma padaria antiga, vazia, no centro da cidade, pediu um café ao atendente. Assim que o café chegou, quente, acendeu um cigarro. Ficou observando o seu reflexo em um espelho que havia sobre o balcão e, definitivamente, não gostou nada do que viu. Dispersou-se de tal forma por entre seus pensamentos tristes, que não percebeu o senhor atrás dela.

- Ei mocinha, tristeza não combina com cafés amargos e com os primeiros raios de sol de uma bela manhã de domingo, ninguém te explicou isso? – disse um senhor de voz grossa, vestido de palhaço, atrás dela.
Ela virou-se rapidamente, surpresa com o comentário e com os trajes de palhaço do senhor e disse – É comigo? – perguntou, ciente da tolice da pergunta.
- Só pode ser não, moça? Essa espelunca está vazia – respondeu o senhor, sorrindo francamente.
- Desculpe, definitivamente eu não estou bem. Estou vendo até palhaços agora – ela brincou.
- Dá para perceber – ele disse, sentando-se ao seu lado – Dá para perceber. É fácil ver uma tristeza funda nos seus olhos. Mesmo sem te conhecer, eu posso dizer que eles já não brilham como antes, não é mesmo? Conheço a tristeza. Animo festas de crianças carentes – por isso a roupa, aliás. E o mais foda, perdoe meu linguajar, mas é estritamente necessário, é que nenhum filho da puta de um amigo percebe isso né? – ele afirmou, sorrindo de um modo camarada e simpático.
Ela riu e respondeu – Exatamente. Exatamente. Todos pensam que eu sou a Miss Simpatia. A garota sorriso, aquela que só ajuda e que nunca, jamais, precisa ou precisará ser ajudada. A senhorita perfeita. Quer saber? Estou farta disso. Estou cansada demais dessa droga toda. Quero chorar e gritar e pedir ajuda. Será que é demais? – ela desabafou, com lágrimas gordas se formando no canto dos olhos.
Ele a amparou com o ombro e disse, tranqüilo – Calma mocinha, calma. É claro que não é demais pedir ajuda. Claro que não. Voc~e inclusive deve fazer isso, mas, mesmo que ninguém te escute, pode estar certa que as coisas acabam por se resolver. Ah, acabam mesmo.
Ela o olhou nos olhos e permaneceu calada.
- Faz o seguinte – ele disse – Lá no fundo tem um banheiro. Vai lá e lave seu rosto e tire essas lágrimas horrorosas da sua adorável face. O dia já está quase nascendo e é óbvio que ele não merece encontrar tanta dor – ele sorriu. – Vai.
Ela fez um sinal positivo com a cabeça e foi em direção ao banheiro. Antes de entrar, deu uma olhada em direção aquele senhor simpático, vestido de palhaço, e ensaiou um breve sorriso.
Minutos depois, assim que saiu do banheiro, ela percebeu que a padaria estava vazia de novo. No lugar em que estava sentada havia apenas um nariz de palhaço postiço e uma xícara de café nova, quente. Ela perguntou ao atendente onde o palhaço estava e ele respondeu que o mesmo havia acabado de sair, mas que havia deixado um beijo, o café e o nariz para ela. Ela não entendeu nada, ficou confusa. Porra, é sempre assim – pensou, irritada. Percebeu então, um bilhete em cima do balcão, embaixo da xícara de café. Leu o bilhete curto, amassado, escrito em uma letra triste e apressada:

Um velho palhaço provoca sorrisos e faz a alegria das pessoas. Essa é a sua função. Mas, na verdade, o certo seria que, tanto os sorrisos como as alegrias fossem provocadas espontaneamente por cada um de nós. E se isso não é possível para você, neste momento, então fique com um pouco do velho palhaço (o meu nariz) para te ajudar. Quando menos esperar, você vai se pegar sorrindo e, aí, o velho palhaço pode se aposentar. Seja feliz querida menina. 432 beijos para você, pois eu sou palhaço, mas não sou bobo de dar apenas um (ainda mais em uma moça tão bonita como você). Cuide-se...”.

E, com os olhos novamente cheios de lágrimas, entre padarias antigas, narizes postiços, cafés pequenos e dias nascendo, ela começou a sorrir, como um breve e delicioso raio de sol...




5.6.03



PRIMEIRO NAMORADO

Eles estavam no quarto dela, felizes. Ele adorava estar no quarto dela. Na verdade, ele gostava muito mais de estar com ela, propriamente dita, do que estar em seu quarto, mas, enfim, a verdade é que estar juntos, de qualquer forma e em qualquer lugar, tornava-se motivo de felicidade, rara felicidade para ele. E, naquela tarde chuvosa e extremamente fria, eles estavam mais uma vez no seu recanto predileto. O quarto dela.

- Já ouviu esse disco? – ela perguntou, animada
- Que tipo de música é? – ele disse, enquanto tirava das mãos dela o álbum
Ela sorriu, tímida e disse – Romântica. Você não gosta? – perguntou com um sorriso.
- Você sabe que eu adoro qualquer música ao seu lado – ele mentiu, alegre.
- Deixa disso. Eu sei que você curte outro tipo de som, mas relaxa babe, isso pouco importa.
- Tem razão. O que importa somos nós, não?
Ela olhou para ele, nervosa, e disse – Como assim?
Ele respirou fundo e emendou – Adoro estar aqui, adoro estar com você, adoro isso tudo. Adoro você. Simples assim. Por que não ficarmos juntos, então?
Ela o fitou com um brilho diferente nos olhos e cantarolou - ... se você quer ser minha namorada, ai que linda namorada...
- Como? – ele perguntou, um tanto assustado, um tanto excitado.
- Nada, vem cá me dar um puta beijo, meu namorado, meu primeiro namorado...

ÚLTIMO...APENAS O ÚLTIMO...

Eles estavam no quarto dela, quase chorando. Deus, como ele já adorou estar no quarto dela. Na verdade, ele já gostou muito mais de estar com ela. A verdade é que estar juntos, de qualquer forma e em qualquer lugar, tornava-se motivo de angústia, muita angústia e desespero para eles. E, naquela tarde chuvosa e extremamente fria, eles estavam mais uma vez naquele antigo recanto. No quarto dela.

- Já ouviu esse disco? – ela perguntou, triste.
- Que tipo de música é? – ele disse, enquanto tirava das mãos dela o álbum.
Ela desviou os olhos e disse, amarga – Baladas tristes, apenas isso. Você costumava gostar.
- Você sabe que eu deixei de gostar de muita coisa nos últimos tempos. Em especial coisas tristes – ele retrucou, sem mentir.
- Agora isso pouco importa, você não acha?
- Tem razão. O que importa somos nós, não?
Ela olhou para ele, irritada, e disse – Tem razão. Vou me lembrar disso. Vou me lembrar.
Ele respirou fundo e emendou – Vou indo então. Creio que tudo o que havia a ser dito já foi, não acha?
Ela o fitou com um brilho indiferente nos olhos e nada respondeu, permanecendo apenas em silêncio.
- Já houve canções mais bonitas do que esse silêncio, não? – ele perguntou, um tanto cansado, na verdade, extremamente cansado.
- Com certeza. De todas as coisas que foram ditas nessa porra de quarto, talvez essa seja a mais verdadeira, a mais verdadeira...







Já escrevi sobre o post acima. Já fiz uma brincadeira semelhante, com duas situações iguais/diferentes. Não resisti e fiz de novo. Aliás, acabo sempre fazendo as mesmas coisas again and again and again...

...mas eu gosto...