23.5.03



QUANDO A LÁGRIMA ENSURDECE A ALMA

Ele estava ansioso. Mal podia esperar para o espetáculo começar. Havia poucas pessoas na platéia, mas isso não o incomodava. Não, definitivamente isso não o incomodava. Pessoas de sorte – pensou, rindo da própria arrogância. Ele havia ensaiado muito para aquele momento. O seu grande momento. Sabia que não iria cometer qualquer engano, qualquer erro. Estava seguro e confiante de que tudo correria bem. E, na hora marcada, a cortina subiu e as parcas pessoas começaram a aplaudir. Ele fez um gesto gentil com a cabeça, andou através do tablado de madeira ruidosa daquele palco e sentou-se em frente ao seu piano. Respirou fundo e começou a tocar. Nota por nota, tecla por tecla, acorde por acorde. Enquanto tocava, sua vida começou a ziguezaguear em flashback por sua mente. Estava tão seguro da sua música, do som que extraía daquele lindo piano de cauda, que podia se dar ao luxo de pensar. De pensar no seu passado. De pensar na sua vida. De pensar nos seus erros, nos seus acertos, na sua morte, nos seus amores perdidos e na sua poesia. E enquanto a música preenchia todo o ambiente daquele antigo teatro - sorte de poucos - ele sentiu uma lágrima escapar e rolar pelo seu rosto até atingir uma tecla aleatória do seu piano. A lágrima de encontro ao instrumento não teve, óbvio, força suficiente para produzir qualquer som. Porém, dentro da sua alma, o barulho era ensurdecedor, absolutamente ensurdecedor...




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