30.5.03



COMO SE APENAS A BOA SORTE PUDESSE AJUDAR

Ela entrou no seu quarto escuro. Não acendeu as luzes. De modo algum. Preferiu acender apenas uma vela de cor barbante ao invés de ligar a luz. Ao menos era possível enxergar o que precisava. Na verdade, não precisava nem enxergar muito. Já havia deixado tudo preparado. Tudo. Era só pegar as roupas que gostava mais, os seus cigarros, alguns poucos livros e um ou dois discos que gostava mais. Não precisava mais do isso. Não sabia se o lugar para onde estava indo podia acomodar muito mais do que isso. Seu corpo não parava de coçar. As feridas estavam irritando. Em poucos minutos ela arrumou tudo. Colocou sua pequena mochila em cima da cama e pôs-se a observar o seu quarto. Uma última contemplação. Seus olhos foram e voltaram e quando ela deu-se conta, estavam cheios de lágrimas. Mas não eram apenas lágrimas de alívio. Eram lágrimas de dor, de ódio, de revolta, de saco cheio, de arrependimento por não ter tomado qualquer atitude antes. Por não ter percebido que a sua vida e a de mais ninguém era o que, de fato, importava. Sabia que não tinha tanta força assim, mas, fazer o quê? Saiu do quarto sem olhar para trás, batendo a porta com muita força. Ele não estava lá e ela deixou a casa sem se despedir. Sem dar um último abraço. Parou do lado de fora e sentou-se no meio fio. Estava chovendo muito, porém isso não a incomodou. Começou a chorar com muita, mas muita força, como se o seu grito pudesse tirar toda a dor, como se a tempestade pudesse limpá-la e como se a maldita coceira pudesse sumir. Depois de alguns minutos, acendeu um Marlboro molhado e começou a andar pela rua, deixando tudo aquilo para trás, como se isso fosse possível...

Do lado de dentro, em cima da mesa da cozinha, apenas um bilhete de adeus e um desejo de boa sorte...nada mais do que isso...nada mais...






RECONQUISTA

Talvez esteja tudo sob controle – ele pensou, tenso, enquanto tomava um gole de vodka - Mas talvez não. Talvez eu tenha me atrapalhado, me precipitado, feito um julgamento totalmente errado do que eu era ou não capaz de fazer – continuou, enquanto andava pela sala, em círculos, segurando o copo de vodka – Caralho, será que ninguém pode explicar como agir, como fazer as coisas direitas, ao menos uma vez nessa droga de vida. Será que eu nunca vou acertar uma? Uma só? – ele prosseguiu, quase chegando ao desespero. Até que o interfone tocou. Ele correu para a cozinha e atendeu rápido, quase gritando e ofegante:

– Quem é?
- Oi Sr. Marcelo. Correndo? – perguntou o porteiro, velho conhecido dele.
- Quem é?
- A Dona Vanessa. Ela pode subir?
- Pode. Claro.
- Ótimo.

Assim que desligou o interfone, ele deixou de lado o copo de vodka. Correu em direção ao espelho para dar uma última ajeitada nos poucos cabelos. Respirou fundo e pensou, com esperança e com os olhos quase cobertos de lágrimas – Preciso reconquistá-la, preciso reconquistá-la, por mais difícil que seja pedir desculpas do alto dos meus sessenta e poucos anos...


28.5.03



ENTRE SORRISOS E ENGANOS E NEW ORDER

- Não acredito – ela disse, toda feliz, apontando seu dedo, gracioso, em sua direção.
- Pára Anne. Qual o problema? – respondeu, quase-bravo, Edu.
- Você está feliz. Você está sorrindo. Não acredito – ela disse, provocativa.
- Pirou de vez? Eu não posso sorrir? É crime agora, nessa porra de país, estar feliz? – ele disse, agora já todo-bravo.
- Não querido – ela brincou – É óbvio que não é crime sorrir e ser feliz e o caralho, mas é que você parece fazer questão de evitar todas essas coisas boas da vida. Você parece ter uma obsessão mórbida pela tragédia, pelo drama, pelo choro, pelo sofrimento, por tudo o que não vale a pena. Assim, eu fico feliz para caramba ao pegar você, todo desarmado, rindo. E rindo sozinho, sabe Deus por qual motivo.
- Eu não estava sorrindo porra. Que saco essa sua mania de querer adivinhar as coisas.
- Hey, comporte-se rapaz. Que vocabulário é esse? – disse Anne, fingindo rigidez.
- Desculpe Anne. Desculpe. Mas eu não estava rindo ou sorrindo de nada. Eu só estava lembrando...
- Não acredito – ela gritou, interrompendo.
- Que foi agora? – ele disse, já perdendo as esperanças de ter uma noite tranqüila no Clube Varsóvia.
- Você está apaixonado? – ela afirmou, certa disso.
- Eu? Apaixonado? Vá se fod...
- HaHaHaHa – ela gargalhou – Você está completamente apaixonado. E posso apostar que é pela Mariana. Acertei?
- Esquece – ele respondeu, irritado.
- Relaxa Edu. A paixão é boa. Você nem imagina como eu adoro te ver assim. E a Mariana é linda. Tem tudo a ver contigo. Relaxa e aproveita, mas fala com ela né? Ela não vai adivinhar que você está enlouquecido por ela.
- Não entendi. Você adora me ver “assim” como? – ele não resistiu à curiosidade.
- Feliz. Apenas feliz...espera aí. Vou dançar e já volto – ela disse, saindo da mesa e indo em direção à pista, chacoalhando ao som do New Order que o DJ maravilhoso acabara de colocar.
Ele apenas a observou e, enquanto acendia um Marlboro pensou, contrariado – Se você soubesse por quem estou apaixonado porra...se você soubesse...



Hey, eu creio que eu já escrevi algo parecido com o post acima, mas...isso não importa, não é mesmo?

23.5.03



MEDO DE NÃO SENTIR MEDO

- Você já sentiu medo, Olívia? – perguntou Clarisse à amiga.
Olívia a olhou surpresa e respondeu – Medo? Como assim? Não entendi.
- Medo Olívia, medo. Apenas medo. Você anda tão feliz, aliás, faz tanto tempo que não te vejo tão alegre. Você não tem medo por estar assim?
- Medo por estar feliz? – Olívia perguntou.
- Exato. Medo por estar feliz, medo de perder o que se tem, medo de chorar, medo do escuro, medo, enfim. Apenas medo.
Olívia abraçou Clarisse com carinho e disse, tranqüila - Eu já senti muito medo Çice, você sabe disso. Já senti mais medo do que qualquer pessoa jamais poderia ter sentido. Quantas vezes eu já não chorei no seu ombro por conta disso?
- Então... e agora esse medo passou?
- Não. Ele nunca passa. Apenas aprendi a esquecer que ele existe. E com você por perto isso fica fácil, muito mais fácil.
Clarisse apenas sorriu e respondeu, feliz - Que lua linda não?
- Sempre é Clarisse, sempre é... - e sorriu...






Hey, vou escrever sobre a canção "Tudo de bom"...vocês são tudo de bom...



QUANDO A LÁGRIMA ENSURDECE A ALMA

Ele estava ansioso. Mal podia esperar para o espetáculo começar. Havia poucas pessoas na platéia, mas isso não o incomodava. Não, definitivamente isso não o incomodava. Pessoas de sorte – pensou, rindo da própria arrogância. Ele havia ensaiado muito para aquele momento. O seu grande momento. Sabia que não iria cometer qualquer engano, qualquer erro. Estava seguro e confiante de que tudo correria bem. E, na hora marcada, a cortina subiu e as parcas pessoas começaram a aplaudir. Ele fez um gesto gentil com a cabeça, andou através do tablado de madeira ruidosa daquele palco e sentou-se em frente ao seu piano. Respirou fundo e começou a tocar. Nota por nota, tecla por tecla, acorde por acorde. Enquanto tocava, sua vida começou a ziguezaguear em flashback por sua mente. Estava tão seguro da sua música, do som que extraía daquele lindo piano de cauda, que podia se dar ao luxo de pensar. De pensar no seu passado. De pensar na sua vida. De pensar nos seus erros, nos seus acertos, na sua morte, nos seus amores perdidos e na sua poesia. E enquanto a música preenchia todo o ambiente daquele antigo teatro - sorte de poucos - ele sentiu uma lágrima escapar e rolar pelo seu rosto até atingir uma tecla aleatória do seu piano. A lágrima de encontro ao instrumento não teve, óbvio, força suficiente para produzir qualquer som. Porém, dentro da sua alma, o barulho era ensurdecedor, absolutamente ensurdecedor...




20.5.03



IF YOU ARE LONELY YOU CAN TALK TO ME

- Tudo bem? – ela disse logo após ter percebido o seu “alô” fraco, triste e preocupante ao telefone.
Após breves momentos de silêncio, ele respondeu - Não deveria estar tudo bem? Não entendo a sua pergunta.
Ela respirou profundamente e disse, com a voz ligeira, com a voz irritada, com a voz mais protetora do mundo – Porra João, mas você é um filho da puta, sabia? Um idiota. Pára de achar que o mundo conspira contra você e que tudo o que você merece é pena das pessoas. Eu jamais vou te dar toda essa atenção que você quer. Ainda não esqueceu aquela vaca?
- Não me recordo em que parte você entra na história, ou melhor, não sei o que você tem a ver com tudo isso – ele disse, nervoso.
- Eu tenho a ver com isso porque sou sua amiga, porra – ela gritou – Eu tenho a ver com isso porque ainda penso em você e ainda me importo com você, mesmo você fazendo a maior questão de ignorar tudo isso. Quando você vai crescer e perceber que o mundo, definitivamente, não gira ao seu redor. É difícil perceber isso? Ela parou e percebeu o choro abafado dele, cortando o silêncio.
- Desculpe – ele disse, ofegante.
- Relaxa. Me diz, o que vai fazer essa noite? – ela perguntou.
- Noite? Já são quatro horas da madrugada.
- Então? Já ouviu que a noite nunca termina? – ela disse, rindo.
- Vou dormir. Apenas dormir e tentar sonhar um pouco.
- Eu vou sair para dar umas voltas, tomar alguma coisa. Qualquer coisa me liga, por favor? – ela pediu, com a voz doce.
- Pode deixar. Eu ligo sim.
- Bem, vou indo. Amanhã nos falamos.
- Lê? – ele disse.
- Fala.
- Sabe como eu me sinto?
Ela não respondeu
- Me sinto como uma criança com medo. Totalmente machucada. Por isso é difícil dormir no escuro. Somente por isso. Me desculpe.
- If you´re lonely, you can talk to me – ela cantarolou, baixinho, lembrando daquela velha canção dos Beatles.
- O quê? – ele perguntou.
- Nada. Apenas uma canção de ninar. Apenas uma canção de ninar. Durma bem...





Hey, e obrigado a todos pelos elogios...às vezes não respondo nos comments, mas vocês sabem quem são...thanx...



Hey, obrigado pelos balões...

19.5.03



BANG...(YOU ARE DEAD...)

Pareceu como um estampido de uma arma de fogo. Seco, curto, rápido, porém mortal e dolorido, extremamente dolorido. Ela não percebeu o que estava acontecendo, até se dar conta de que o alvo havia sido ela. Sentiu o sangue fluindo com uma velocidade extraordinária dentro das suas veias, das suas artérias, do seu corpo. Sentiu que talvez não houvesse nada mais a fazer. Nada. E ela não queria chorar. De novo não...mas talvez não houvesse outra alternativa. Ela tinha tomado toda a porrada em cheio. E ele precisou de apenas poucas palavras para matá-la de novo, para matá-la ainda mais uma vez..."Não te amo mais. Esquece. Não há como ficarmos juntos. Não há...lamento...".

...pareceu como um estampido de uma arma de fogo. E ela era o alvo...ela era o alvo...



Ontem eu assisti (mais uma vez) ao filme Pontes de Madison...lindo filme. O que é de matar é imaginar quantas mulheres como Francesca existem ou existiram por aí...



Hey...eu estou aqui...de volta, alive and kicking...é só esperar... se é que vcs ainda tem saco para isso...

8.5.03



BALÕES COLORIDOS. APENAS BALÕES COLORIDOS...

- Balões coloridos? Adoro balões coloridos – uma voz masculina disse atrás dela, enquanto ela esperava para entrar no Clube Varsóvia. Ela virou-se, de imediato, apenas para saciar a sua curiosidade e saber quem tinha dito aquilo a ela. Espantou-se por ele ser tão bonito. Parecia uma espécie de rock star adoravelmente decadente, vestindo uma calça jeans suja e desgastada e uma camiseta idem. Mas era bonito ainda assim. Ela o olhou por alguns segundos e decidiu responder.
- Que bom que gosta. Minha mãe costuma dizer que eu tenho ótimo gosto – disse, irônica.
Ele sorriu e retrucou – Tem mesmo. Pode apostar. Festa especial hoje, né?
- Você conhece a Carlinha? – ela perguntou.
- Não. Eu freqüento sempre aqui e sabia que ia rolar uma festa bacana hoje.
- É. A Festa dos Balões Coloridos. Aniversário de uma amiga e ela bolou o tema. O pessoal do Clube topou a idéia e lá vamos nós. Todos carregando pencas de balões coloridos. E lá dentro vai estar assim. Centenas de balões.
- Os balões ficam lindos nas suas mãos – ele interrompeu, com um sorriso bonito.
Ela o olhou surpresa e respondeu – Perdão?
- Eu disse que os balões ficam lindos nas suas mãos. Os balões ficam ainda mais bonitos com alguém tão interessante como você os segurando. Aposto que nenhum lá dentro vai estar assim.
- Obrigado – ela disse, completamente sem graça – Generosidade sua. Talvez seja porque você adora balões coloridos. Somente isso.
- Não. Talvez porque eu simplesmente sei reconhecer uma mulher linda quando vejo uma. Empreste-me um balão? Eu já volto – ele pediu, sumindo dentro da banca de flores que ficava na esquina do Clube.
Voltou minutos depois, com um discreto lírio branco grudado ao balão colorido – Tome – ele disse – Aliás, deixe-me prender o balão em seu punho – pediu, enquanto amarrava suavemente a corda em torno do seu pulso.
- O que você está fazendo? – ela perguntou.
- Apenas tomando cuidado para não perder de vista, durante a festa, o balão mais bonito de todos. O balão mais bonito que já vi.
Ela olhou fixamente em seus olhos e disse, feliz – Não se preocupe. Apenas não se preocupe...



7.5.03



Por Favor, Use os Headphones
"Save Me"
(Aimee Mann)


- Então? – ele perguntou, enquanto parava o seu carro bem em frente ao apartamento dela.
- Chegamos, né? – ela disse, com um ligeiro sorriso.
- É, chegamos. Fico feliz por você. Não há nada mais agradável do que mergulhar embaixo das cobertas quentes, nesse frio de rachar que está fazendo. Veja os vidros do carro. Estão completamente embaçados.
- Tem razão – ela respondeu – Realmente está um frio de matar. E esses vidros embaçados dão uma falsa pista do que estamos fazendo aqui dentro desse carro, não acha?
Ele sorriu da brincadeira e disse – É mesmo. O porteiro vai pensar em toda a sorte de delírios eróticos. Com essa violência toda que assola o mundo, somente um carro com duas pessoas absolutamente sedentas por sexo dentro dele, poderia estar estacionado na rua, às quatro e meia da manhã, com os vidros absolutamente embaçados.
Ela olhou para ele, carinhosa, e disse – Não vou te convidar para subir, tá?
- Tudo bem – ele disse, desviando o olhar.
- Você não vai ficar chateado? Por favor?
- Não, claro que não. Está tudo bem. A noite foi ótima.
- Foi mesmo. Foi uma das melhores noites que tive em muito tempo. Acredite em mim. Bebi, sorri, dancei, me diverti...
- ... beijou – ele a interrompeu.
- Isso. Beijei. E foi muito bom. Mas preciso pensar um pouco a respeito disso tudo, ok? Não quero me precipitar. Até ontem você era o melhor amigo do meu ex-namorado. Aliás, até semana passada eu o namorava. Não quero apressar as coisas. Quero estar certa de que não vamos arrebentar a nossa cara com uma força devastadora e sem volta.
Ele olhou-a, compreensivo, enquanto ela prosseguiu – Então, tudo bem?
- Tudo. Fique tranqüila – ele respondeu.
- Então eu vou subir para as minhas cobertas quentinhas e você vai para casa dormir como um anjo. Combinado?
- Amanhã você me liga? – ele perguntou.
- Pode ser, pode ser.
Trocaram ainda mais um beijo longo antes de ela sair do carro com um sorriso grande. Na entrada do prédio, ela se virou e acenou e mandou um beijo para o carro parado. Ele ficou lá, dentro do veículo, com a cabeça encostada no vidro e observando aquela mulher linda desaparecer por entre a entrada do edifício antigo. Ficou quieto, apenas ouvindo uma antiga canção de amor que estava tocando no rádio, enquanto seus dedos desenhavam palavras desconexas no vidro embaçado. Decidiu ir embora e ligou o carro. Não percebeu que os seus dedos quentes e cheirando a fumaça de cigarro, havia deixado o recado estampado no vidro úmido do carro. Havia escrito “salve-me”. E nem sequer havia percebido isso. Até a mensagem desaparecer. Até a mensagem desaparecer...

Save Me
(Aimee Mann)


You look like... a perfect fit,
For a girl in need... of a tourniquette.
But can you save me?
Come on and save me...
If you could save me,
From the ranks of the freaks,
Who suspect they could never love anyone.

'Cause I can tell... you know what it's like.
A long farewell... of the hunger strike.
But can you save me?
Come on and save me...
If you could save me,
From the ranks of the freaks,
Who suspect they could never love anyone.

It struck me down, a Greyhound,
Like Peter Pan, or Superman,
You have come... to save me.
Come on and save me...
If you could save me,
From the ranks of the freaks,
Who suspect they could never love anyone,
Except the freaks,
Who suspect they could never love anyone,
But the freaks,
Who suspect they could never love anyone.

Come on and save me...
Why don't you save me?
If you could save me,
From the ranks of the freaks,
Who suspect they could never love anyone,
Except the freaks,
Who suspect they could never love anyone,
Except the freaks,
Who could never love anyone



5.5.03



LEMBRANÇAS DE CAPUCCINOS E NUVENS CINZAS

- Anne? Anne? Não acredito! – Pedro gritou a uma moça alta e loira, com quem acabara de cruzar na rua e que andava rápida, tentando lutar contra a chuva com um simples e pequeno guarda chuva cor de café.
Ela olhou para trás em direção àquela voz e o observou, distante, dizendo após alguns segundos sem disfarçar a surpresa – Pedro? Você?
Ele fez um sinal carinhoso com a cabeça e disse com um sorriso, aproximando-se – Exato Anne. Pedro. Que bom que lembrou – disse, abraçando-a suavemente debaixo do guarda chuva cor de café.
Mesmo surpresa, ela disse, terna - É claro que eu lembro. É claro. Como poderia esquecer?
- Tudo bem com você? – ele perguntou.
- Tudo ótimo. Tudo ótimo. Levando a vida e walking on the normal side como NÃO diria Lou Reed – respondeu sorrindo da própria brincadeira.
Ele sorriu e propôs - Escuta, se você tiver uns minutinhos, eu adoraria tomar um capuccino aqui na esquina. Prometo que será rápido. Essa chuva está de matar.
- Não sei. Estou atrasada.
- Pelos bons tempos? Apesar de ser totalmente démodé e antiquada, essa ainda é uma boa razão.
- Olhe Pedro, eu não sei se eu quero reabrir pequenos baús. Entende o que digo?
- Anne, eu também não quero. Não é todo dia que nos encontramos e provavelmente isso vai demorar mais uma vida para acontecer de novo. É só um capuccino.
- Tudo bem, mas só um capuccino rápido. Tenho mesmo um compromisso.

Assim que chegaram ao café, sentaram a uma mesa pequena, deixando de lado os ensopados guarda chuvas.

- Estranho nos encontrarmos assim, não? – ele disse, com um sorriso diferente.
- Coisas da vida, como dizia a minha avó Jacqueline. Quando menos esperamos, alguma surpresa esbarra conosco.
- Uma boa surpresa? – ele pergunta
Ela olha de uma forma seca e diz - Uma surpresa. Apenas uma surpresa. Uma espécie de teste que a vida nos aplica para tirar um sarro das nossas vidinhas rasas e sem a menor graça.
Ele a olhou com certo constrangimento e perguntou - Já faz quanto tempo?
- Desde a última vez em que nos falamos? Uns nove anos. Nove anos...quem diria? Jamais imaginei que fosse passar tanto tempo e que estaríamos aqui, de novo, eu e você tomando um capuccino rápido e molhado - sorriu.
- É. Um capuccino rápido – ele emendou, com certa tristeza – O que será que houve com a gente?
Ela olhou para a chuva que caía lá fora e disse, distante – Não sei. Eu realmente não tenho a menor idéia. Não sei se fui eu, você ou o próprio João que acendeu o pavio e explodiu tudo. Às vezes me pergunto se talvez não tenha sido os três juntos que tomaram a overdose. Numa espécie de celebração doentia da vida inconseqüente, da vida louca, da vida eterna.
- Também me pergunto isso. Também me pergunto. Eu sei é que doeu demais e eu não tinha nem um terço da maturidade suficiente para fugir daquilo tudo.
- Sabe que ainda faço terapia? – ela perguntou – Sabe que ainda tenho sonhos? Ainda desejo todo aquele pó? Toda aquela nossa vida adoravelmente destrambelhada? Adoravelmente marginal? Adoravelmente lúdica? Sabe que tenho sonhos com o João quase todas as noites? Choro ao lembrar como éramos grudados. Eu, você e ele. Adorável e tragicamente ligados.
- Amigos de infância...
- ... que se matam de tanto tomar drogas? – ela o interrompeu – É, hoje em dia seria o roteiro de um filme de quinta categoria. Totalmente irrelevante. Totalmente clichê.
- Mas real – ele disse – Absurdamente real e mais comum do que se pensa. Você parou?
- Completamente. E você?
- Também...completamente.
- Sabe de uma coisa?
- O quê – ele disse.
- Só tem uma coisa pior e mais assustadora do que ser anormal, viciada ou pervertida. Ser...
- ... absolutamente normal – interrompeu Pedro, gargalhando violentamente junto com Anne naquela tarde de capuccinos, risadas, memórias e nuvens cinzas. Nuvens bem cinzas...





Tem dias que eu adoraria, de verdade, a existência de um Clube Varsóvia...



FAST FOOD - FAST LOVE

- Você é completamente louca – Ana afirmou, com um sorriso, enquanto observava Paola comer um gigante sanduíche de queijo.
Paola a olhou intrigada e após engolir uma mordida, respondeu - Oras. Não sei o motivo. Você vê algum problema nos nossos planos. Quero dizer, nos planos que fiz para nós?
- Sinceramente? – Ana perguntou
- Óbvio. Com toda a sinceridade do universo.
- Talvez seja meio precipitado vendermos o seu carro e todas as pequenas bugigangas e tralhas e tranqueiras que temos por aqui para juntarmos toda a nossa esparsa grana, trocarmos por libras e irmos morar fora daqui, na cinzenta e úmida e fria, porém muito legal, cidade de Londres.
- Você não sabe lavar pratos?
- Sei
- Você não gosta de frio?
- Gosto.
- Você se incomoda de ralar para conseguir o que quer?
- Não.
- Você gosta de Londres?
- Possivelmente sim.
- Então? Não sei por que me chama de louca. Vai ser ótimo, você vai ver. Confia em mim, babe. Uma única vez.
- Tá e o seu noivo? – ela perguntou, séria.
- “Ex-noivo” – Paola corrigiu – E ele não vai conosco. Pode relaxar. Quer um pedaço? – perguntou, com a cara cínica mais adorável do mundo.
- Lunática.
- Também te adoro. Também mesmo – finalizou sorrindo...