1.4.03



QUANDO CAMINHAR SOB A CHUVA MOLHA ALGO MAIS DO QUE OS PÉS

Você é uma inútil. Você não sabe nada da vida. Pensa que tudo vai acontecer do jeito que você imagina? Do jeito que você quer? Da maneira que você pensa que pode suportar? A vida, mocinha, é muito diferente do que você imagina. Você nunca viveu. Você não sabe o que é isso. Você acha que sabe tudo, mas não passa de uma criancinha mimada, sem a menor noção do mundo ao seu redor. Idiotinha presunçosa.

Caminhando sob a chuva as palavras não saíam da sua mente. Ela ficava repetindo-as, repetindo-as, repetindo-as, como um efeito fade away em alguma guitarra distorcida. Aliás, sua vida tinha virado uma guitarra distorcida. Um som nada uniforme, nada melódico, nada bom. Sua vida tinha desabado. E lá estava ela, caminhando sob a chuva e carregando aquela maldita mala pesada, com parte dos seus dezoito anos de vida dentro dela. E as palavras iam e vinham, porém não abandonavam a sua mente.

Não me diga que sabe o que quer, não me diga isso. Você acha que é capaz de decidir o melhor rumo para a sua vida, mas não é. Quantas vezes eu tenho que lhe dizer isso? Quantas vezes? Parece que você não escuta, parece que você é surda. Não quer ouvir e eu já estou de saco cheio de ficar repetindo isso, como um disco riscado. Você não entende ou não quer entender?

E as suas lágrimas confundiam-se com a chuva pesada que molhava o seu corpo e tornava aquela maldita mala ainda mais pesada do que o costume. Ela não sabia para onde ir, o que fazer, o que esperar. Tudo o que sonhava era com um gole de café bem quente, um cigarro seco e um lugar para sentar e pensar no que fazer da sua vida. E as palavras continuavam lá, gritando na sua cabeça.

Então faça o que você quiser. Faça o que deseja, mas não me peça ajuda entendeu? Não me peça ajuda nunca mais porque eu simplesmente cansei. Ofereci a você tudo o que era possível e estava ao meu alcance. Tudo o que eu podia e tinha condições de fazer. Você, estúpida, não aceitou, aliás, jamais aceitou. Então, tome o seu caminho.

E naquele momento, andando sem uma porra de um guarda chuva e segurando aquela mala extremamente pesada, debaixo da tempestade, ela procurava achar o caminho. Mas não sabia por onde começar. E as palavras...

Saia já da nossa casa. Minha e da sua mãe. Saia já. Vá embora agora para onde você quiser. Você e essa desgraça sem pai na sua barriga não têm espaço por aqui. Você se drogou, você bebeu, você viveu a vida da forma mais inconseqüente possível e jamais aceitou as minhas ordens e fez sua mãe sofre e me fez sofrer. Vá embora. Você tem vinte minutos para pegar os seus trapos. Cai fora. E jamais, entendeu? Jamais volte a nos procurar.

E de repente ela, desesperada, caiu no chão percebendo que aquela maldita mala de roupas agora estava rasgada e aberta no meio da rua, deixando molhar pela tempestade parte dos seus dezoito anos de vida. E ela começou a chorar e a chorar. Tentando não pensar em qual caminho precisava escolher.



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