29.4.03



O TELEFONE MUDO EM CIMA DA CÔMODA BORDÔ

Ela sentou em frente ao telefone e esperou, esperou e esperou...nenhuma idéia surgiu. Nenhuma. Ela levantou e foi para o aparelho de som. Ligou uma música, mas logo mudou de idéia, uma vez que estava sem a menor paciência para ouvir qualquer coisa. Voltou para o telefone. Esperou que a idéia surgisse. Começou a roer as unhas. Desistiu quando percebeu que havia se ferido e cortado a pele de uma delas até o sangue aparecer. Acendeu um cigarro. Apagou na sequência. Esqueceu que havia parado de fumar. Deu um "foda-se" e acendeu outro. Meu pulmão é o meu menor problema - pensou. Estava cansada de tudo aquilo. De toda aquela angústia. Quis gritar, correr, chorar, mas não conseguiu. Pegou o telefone novamente. Discou os números. Uma voz masculina atendeu. A velha voz masculina que tanto ela conhecia. Desligou sem falar nada. Desligou sem falar que aceitava as suas desculpas. Desistiu dele. Desistiu do amor. E começou a chorar... Porque isso precisa doer tanto? E porque eu preciso ser tão idiota? sempre... - pensou, já sabendo a maldita resposta...

25.4.03



SOMENTE O DESCONTROLE...

Assim que entrou no pequeno apartamento em que morava, no centro antigo da cidade, ele jogou as chaves da porta de entrada sobre a mesa com duas cadeiras que enfeitava a sua ridícula sala. Fez a mesma coisa com o seu blusão sujo, porém, ainda que se tratasse de uma roupa, ele sequer tomou cuidado de jogá-lo sobre algum aparador. Deixou-o caído no carpete marrom, empoeirado e velho. Foi direto para a cozinha. Acendeu a luz e abriu o armário. Pegou um copo tipo americano, quebrado nas bordas, e deixou sobre a pia. Abriu uma outra porta do mesmo velho armário da cozinha e sacou uma garrafa de conhaque. Conhaque de última categoria. Conhaque de padaria. Conhaque de esquina. Encheu o copo até a borda e, sem se preocupar com as bordas quebradas, virou o líquido vermelho escuro de uma só vez. Encheu novamente o copo, mas desta vez não virou. Deu apenas um pequeno gole. Tateou dentro de alguma gaveta e achou uma caixa de fósforos, engordurada e pegajosa. Não se importou. Pegou um cigarro dentro do bolso da calça jeans e o acendeu. Deu uma longa tragada e sentiu-se bem. Sentiu-se vivo. Pela primeira vez naquele dia. Pela primeira vez naquele dia, definitivamente. Voltou à sala e ligou seu velho aparelho de som. Ficou surpreso por ele ter ligado de primeira, sem que fosse necessário dar o tradicional soco para fazer seus chips e transistores funcionarem adequadamente. Pensou que, talvez, sua sorte estivesse mudando. Abriu um baú que ficava ao lado das caixas de som e escolheu alguns discos de vinil antigos. Se o mundo fosse acabar, ao menos que acabasse com a trilha sonora perfeita. Escolheu discos de rock. Queria ouvir e esquecer onde estava. Esquecer como foi seu dia. Assim que a agulha pousou sobre o vinil e os primeiros acordes foram saindo das semi-quebradas caixas de som, ele virou o restante do conhaque, apagou o cigarro no já sujo carpete marrom e começou a dançar e a dançar e a dançar. Sem parar. Exaustivamente. Em transe. Rodopiou pela sala, chutou as caixas de som, tirou a camisa, subiu na cadeira, socou o lustre, cruzou o ar, dançou e dançou e dançou, como se o mundo fosse acabar, como se o mundo fosse explodir. Depois de alguns momentos nesse ritmo frenético ele desabou no chão, de uma só vez. Chorando violentamente, pensou no que deveria fazer para mudar a sua vida. O que deveria fazer para retomá-la do ponto em que desistiu dela. Do ponto em que quase desistiu definitivamente dela. Da sua própria vida.



USE OS HEADPHONES
SUMMER´S GONE - PLACEBO


- Hey, hoje não é o último dia do verão? – ela perguntou, enquanto observava o sol se pôr pela janela. Precisamos celebrar.
- Que dia é hoje? – ele perguntou.
- Dia 20 – ela respondeu, enquanto deixava a paisagem do pôr do sol para lá e se concentrava em um casal de velhinhos fantásticos que andavam de mãos dadas na rua.
- Não. Amanhã é o último dia do verão, então – ele disse, com um sorriso adorável, indo em sua direção.
- Eu detesto quando o verão termina. Eu simplesmente detesto quando as coisas, no geral, terminam. Eu não gosto disso. Não gosto do fim das coisas, não gosto de encerramentos. Não gosto de términos. Eu sempre choro nas cerimônias de encerramento das olimpíadas – disse, com um sorriso. Lindo, por sinal, e prosseguiu – Veja aquele casal na rua. Não é lindo? É lindo perceber que o amor existe em pessoas tão vividas. É uma prova de que o amor pode resistir a tudo, quer dizer, a quase tudo, já que certamente um deles morrerá logo e o outro sentirá dor. Muita dor.
- Que pensamento macabro. Você não deve pensar dessa forma no futuro. Isso é cruel. Você tem que pensar em algo mais imediato. Felicidade imediata. Não deixe o futuro ser a sua vida. Foda-se a idade deles. O importante é que eles estão juntos e felizes e se amando, andando de mãos dadas em pleno fim de tarde de um dia comum de fim de verão. As coisas às vezes acabam. Simples assim. É necessário isso. Por pior que possa parecer. Por mais dolorido que seja. Mas é preciso e você não deve simplesmente esperar esse fim. Definitivamente. Viva, enquanto isso.
Ela o olhou com um carinho intenso, indescritível em palavras - Foi o nosso melhor verão – ela afirmou, ao mesmo tempo em que o abraçava forte e carinhosamente.
- Foi nosso verão – ele sorriu.
- O primeiro de muitos.
- Foi o nosso verão. Isso que importa – ele disse, para depois beijá-la com todo o amor possível, como se não houvesse mais Brian Maolkos, como se não houvesse mais dias de verão, como se não houvesse mais dias, sejam lá eles quais forem.



Summer’s gone
(Placebo)

Kitty your face so forsaken
Crushed by the way that you cry
Kitty your face so forsaken
What a surprise

You try to break the mould
Before you get too old
You try to break the mould
Before you die

Kitty your heart that it racing
Stung by the love in your eye
Kitty your heart that is racing
What a surprise

You try to break the mould
Before you get too old
You try to break the mould
Before you die

Kitty your face so forsaken
Crushed by the way that you cry
Kitty your face so forsaken
Say goodbye

Sing for your lover like blood from a stone
And sing for your lover who’s waiting at home
If you sing when you’re high and you’re dry as a bone
Then you must realise that you’re never alone
And you’ll sing with the dead instead
.......instead

You try and break the mould,
Before you get too old
You try and break the mould,
Before you die

Sing for your lover like blood from a stone
And sing for your lover who’s waiting at home
If you sing when you’re high and you’re dry as a bone
Then you must realise that you’re never alone
And you’ll sing with the dead instead
...... instead



hey...oi...
E eu pensei em acabar com tudo isso...férias involuntárias...férias de idéias...confusão...tudo bem agora...voltem sempre. Estarei aqui...pelo menos por ora...

...ao menos atualizei minha relação de links...

17.4.03



Hey, eu queria aproveitar e desejar BOA PÁSCOA A TODOS...

Bom feriado...talvez novidades apareçam por aqui no período...let´s wait...

15.4.03



COMO DIZIA A MINHA AVÓ (OU O MAIOR CEGO É AQUELE QUE NÃO SABE AMAR)

Ainda não havia começado a tempestade. O céu, no entanto, resolveu discordar do sol e daquele calor abafado e sufocante e se tornou totalmente negro. Negro como a noite. Cinza e profundo como os maiores medos. E ela estudava canto lírico. E não queria deixar o conservatório sob a ameaça daquela tempestade. Ela não queria se molhar. Não queria perder a voz, ainda mais uma vez. Resolveu então, esperar. Apenas isso. E enquanto esperava, ele se aproximou e perguntou, de modo simpático.

- Talvez o mundo acabe hoje – ele disse, com um sorriso.
Ela olhou em sua direção e mal acreditou que ele havia, pela segunda vez em uma mesma semana, iniciado uma conversa com ela – Tem razão. Se chover todo esse cinza, aí estamos afogados. Literalmente.
Ele sorriu novamente, um sorriso ainda mais bonito do que o primeiro e perguntou - Vai esperar a chuva? Talvez ela demore a chegar e a ir embora.
- Vou esperar sim. Com certeza eu não vou chegar a tempo de pegar o ônibus e não estou nem um pouco a fim de me molhar inteira. Tenho um recital no próximo final de semana e quero as cordas vocais inteiras.
- Muito bem. Você tem toda a razão em preservar a maravilha que é a sua voz. Você não pode privar o mundo dela. Pode apostar.
Ela olhou para ele constrangida e disse, sentindo suas bochechas ficarem totalmente vermelhas – Maravilha? Minha voz? Como você sabe? Nunca me ouviu cantando.
- Quem disse? – ele perguntou.
- Eu. Não me lembro de ter cantado com platéia. Exceto nos recitais na casa da professora Paulina. Mas você sequer é aluno dela.
Ele fez uma deliciosa cara de culpado e respondeu - Teve um dia, já faz um tempo, que eu fiquei escutando você cantar no estúdio. Sozinha. A tarde toda. Linda e sozinha. Fiquei encantado com a sua voz, o seu modo de cantar. É tão triste. É tão doce. É tão lindo. Encantador mesmo. Mal pude acreditar em meus ouvidos. Somente um anjo poderia cantar assim.
- E como você sabe que era eu que estava cantando? Podia ser qualquer outra garota – ela perguntou, tímida.
Ele riu e respondeu – Ah, querida. Eu tenho outros meios de VER e SENTIR as coisas, que não por meio desses meus cansados olhos cegos.
Ela ficou absolutamente sem graça pela pergunta idiota e respondeu – Desculpe. Não quis ser indiscreta ou estúpida ou cretina ou qualquer outra coisa.
- Relaxe. Não precisa se desculpar. Não há nada de errado nisso. Eu sou cego e você canta bem...
- ... e você é muito gentil – ela o interrompeu
Depois de alguns segundos de silêncio, ele completou - ... e você é linda! Absolutamente linda! – ele elogiou, com um brilho notável no canto dos lábios.
Ela ficou lá, parada, olhando para aquele garoto lindo à sua frente, mal acreditando que ela a achava linda. Disse, de forma rápida e sem pensar – Vamos tomar um café na padaria do Gero? – convidou.
- Mas e a chuva? Ela já começou. E a sua voz?
- Não tem problema. Canto lírico é algo tão lindo que eu posso cantar com o coração. Basta ele estar feliz.
- E ele está?
Enquanto o segurava pelo braço para ajudá-lo a descer as escadarias do conservatório, ela respondeu, baixinho – Você nem imagina o quanto...nem imagina...
E ele apenas sorriu...





TODA VIAGEM TEM UM FIM?

Nada. Ele não podia fazer nada. Ele não podia fazer nada, muito embora desejasse fazer tudo, inclusive dar a sua própria vida a ela. Mas isso já era demais. Ele apenas podia olhar para aquela garota deitada em sua cama e pensar porque raios ela havia chegado àquele estado. Ela estava lá, literalmente desacordada em sua cama. Desmaiada como se estivesse praticamente morta. Mas não estava. Estava viva. Estava nua. Mas isso não era bom. Nada bom. Não era mais agradável ver o seu corpo nu. As marcas agora ficavam visíveis e visíveis e visíveis e isso era um inferno para ele. As marcas roxas no braço. O pus. O sangue batido. As marcas da borracha no antebraço. As marcas das picadas por todo o lado. A palidez mórbida do seu torso. A palidez mórbida da sua face. O sangue seco grudado em seus lábios. As unhas sujas dos pés e das mãos. O cabelo mal cortado, mal cuidado, mal lavado. Sujo. Feia. Ela estava feia. Feia demais. Feia como nunca ele imaginou que ela pudesse ficar. Ela era linda de morrer. Linda demais. Deus, como eu não posso fazer nada por essa garota deitada em minha cama? – pensou - Deus, como eu amo essa garota deitada em minha cama - prosseguiu. Com todas as suas forças. Mas, talvez, essas mesmas forças já estivessem por um fio. Um fio suspenso. Um fio tênue. Um fio fraco e fino. Um breve sopro de força. E ele estava cansado de tudo aquilo. Cansado mesmo. Cansado demais. Não podia deixá-la um minuto, um segundo sozinha. Ela saía e quando voltava, era sempre naquele estado. Sempre. Triste. Isso era por demais triste e ele sentia culpa. Culpa sabe lá do que, mas sentia. – Caralho, eu tomei as mesmas drogas que ela. Eu tomei – pensou. Mas com ele nada aconteceu. Não houve uma queda, não houve dor, não houve nada além de uma boa viagem. Nada além de boas risadas e memória agradáveis. E tudo se transformou em um pesadelo. Ela era o seu pesadelo. E ele queria, mas não podia, acordar. Não podia deixá-la no seu pesadelo, sem rumo, sem direção. Ela jamais voltaria. E ele não sabia o que fazer. Ele, sinceramente, não sabia o que fazer.

Assim que acendeu um cigarro na sala, ele ouviu, vindo do quarto, a voz fraca daquela garota nua em sua cama.

- Ri? – ela perguntou – Você está aí? Ri? Me desculpa... por favor – disse, chorando.

Ele jogou o cigarro no chão e o apagou. Respirou fundo. Tomou um gole do conhaque que estava em suas mãos e se dirigiu ao quarto. Pronto para tentar, ainda mais uma vez, ajudar aquela linda garota nua, que insistia em morrer na sua maldita cama.



11.4.03



BOM FINAL DE SEMANA...(PARA QUEM É DE BONS FINAIS DE SEMANA...)



Por Favor, Use os Headphones
"Dead Leaves And The Dirty Ground"
(The White Stripes)


Ele pegou, sem o menor cuidado, todas as suas roupas daquela porra de armário velho. As velhas camisetas de banda, as velhas bermudas rasgadas, os jeans já quase brancos e castigados pelo uso absurdo, enfim, tudo o que costumava vestir. Jogou tudo de uma vez dentro da pequena mala com cheiro de naftalina e excesso de pó acumulado pelo pouco uso. Abriu uma gaveta e sacou uma pilha de revistas antigas. Pegou seus livros, pegou parte dos cd´s. Pelo menos os que sei que são meus – pensou. Parou próximo a porta e jogou a mala com raiva no chão. Havia esquecido as fotos. Abriu um baú antigo, e procurou por alguns álbuns antigos. Olhou algumas fotos e fechou a porra do baú com força. Desistiu de levar qualquer foto. Queria simplesmente apagar qualquer foto dos últimos três anos.

- Você vai mesmo? – ela perguntou, aborrecida e visivelmente entediada.
- Posso? – ele respondeu, ríspido.
- Já vai tarde, meu chapa – ela retrucou.
- Beleza então. Depois eu pego essas fotos. Quero as mais antigas, mas não estou com o menor saco de procurar agora.
- Como quiser.
- Então tá. A gente se vê.
- A gente se vê – ela respondeu desanimada, virando-lhe as costas e sumindo em direção a cozinha.

Ele a observou sumir cozinha adentro e pegou a pequena maleta cheia de coisas. Deu uma última olhada na pequena sala, toda desarrumada e cheia de velas e incensos acesos e saiu. Assim que saiu pelo quintal ele esmurrou o velho e pesado portão de ferro e pôs-se a chorar, como uma criança, imaginando por que razão a sua vida tinha se tornado um caos.

Enquanto isso a cozinha era inundada por lágrimas. Inundada por sonhos desfeitos e pela triste perspectiva de as folhas mortas sujarem todo o quintal ...

" Dead Leaves And The Dirty Ground "
(The White Stripes)


Dead leaves and the dirty ground
when I know you're not around
shiny pops and soda pops
when I hear your lips make a sound

Seven notes in the mailbox
will tell you that I'm coming home
and I think I'm gonna stick around
for a while so you're not alone

If you can hear a piano fall
you can hear me coming down the hall
if I could just hear your pretty voice
I don't think I need to see at all

Soft hair and a velvet tongue
I want to give you what you give to me
and every breath that is in your lungs
is a tiny little gift to me

I didn't feel so bad till the sun went down
then I come home
no one to wrap my arms around

Well any man with a microphone
can tell you what he loves the most
and you know why you love at all
if you're thinking of the holy ghost

10.4.03



ABSOLUTE BEGGINERS

Ela estava linda.

Não. Ela era linda... essa é a verdade...

Tinha cabelos totalmente pretos e ligeiramente ondulados, que brigavam, de modo violento, com os seus olhos verdes pela atenção de quem a observava. E não eram poucos os que faziam isso. Definitivamente não eram poucos. Ela sempre ia ao Clube Varsóvia e ficava lá, a noite toda, dançando e bebendo e fumando e dançando e bebendo e fumando, numa espécie de misterioso ritual de celebração, numa espécie de misterioso ritual particular. Ritual habitual. Nunca a vi conversar com alguém, apesar de ir quase todos os finais de semana ao Clube. Seus olhos não demonstravam qualquer simpatia ou antipatia em relação a nenhum dos demais freqüentadores do local. Ela apenas ia para se divertir, e deixava bem claro isso. Bem claro.

E assim eram todos os dias. Exceto aquele...

Naquele dia, em especial, ela estava lá, no Clube Varsóvia, linda como sempre. Tinha as unhas pintadas de preto. A maquiagem pesada e borrada com o suor que escorria da sua testa suavemente branca. provocado pela dança insana e interminável que ela sensualmente praticava. Vestia um coturno preto e surrado que contrastava com o vestido de cor rosa choque que estava vestindo, de alça, que deixava à mostra uma pequena tatuagem nas costas de um microfone estilizado aonde podia se ler I Hate Myself and I Wanna Die (“eu me odeio e quero morrer”).

Ela estava linda. Como sempre...

A observei por alguns instantes. Aproveitei para sentar ao seu lado, quando ela foi ao bar pedir uma tequila ao Márcio, histórico barman do Clube Varsóvia.

- Quer um cigarro? – ofereci.
Ela não respondeu, apenas me olhou indiferente e pegou um Marlboro no bolso da sua própria calça.
- Fogo então? – perguntei sorrindo.
- Pode ser – respondeu, inclinando a cabeça para que eu acendesse o seu cigarro.
- Pode parecer a coisa mais estúpida do universo, a coisa mais clichê dos livros de amor, mas eu sempre te vejo por aqui...
- ...e daí? - ela interrompeu.
Totalmente sem graça eu disse - Isso é legal. Apenas mostra que você tem bom gosto.
- Posso te fazer uma pergunta? – ela disse, após virar a tequila e pedir outra ao Márcio.
- Claro.
- Por que você está aqui, perdendo seu tempo comigo?
A olhei rapidamente e respondi – Não creio que eu esteja perdendo tempo. Apenas tentei conversar com você. Há algum problema nisso?
- Se você me conhecesse bem, saberia que pela minha total inaptidão para relacionamentos, sejam eles fraternos ou sexuais ou amorosos, há um grande problema nisso. Há um grande problema que pode nos machucar.
- E você vai me impedir de experimentar esse grande problema?
De repente, por causa da chuva, as luzes do Clube se apagaram e a multidão começou a gritar de excitação até que se acendessem todas as luzes de emergência.
- Vem – ela disse ao meu ouvido – Tenho uma festa para ir. Vem comigo.
- Mas e o nosso problema?
- Ele começa agora, querido – ela disse, finalmente sorrindo para mim. Um sorriso lindo, aliás. Como a introdução de uma bela canção...





MANHÃS DE VODKA, BEIJOS E ESTÓRIAS DE AMOR

Ele acordou de repente e olhou para o relógio, lento. Verificou que já era quase cinco e meia da manhã. Pôde ouvir as gotas da chuva pesada que explodiam na janela, como querendo transformá-la em um oceano de estilhaços. Resolveu que já era hora de levantar. O fez sem muito barulho. Foi até o banheiro e na volta ficou parado, em pé, observando aquela mulher linda que dormia profundamente na sua cama. Ela era realmente muito bonita. Tinha os cabelos pretos como um show do Bauhaus. Seu corpo nu era espetacular. A tatuagem estilizada nas costas era tímida e de impacto. De alto impacto. Muito boa – ele pensou. Continuou lá, parado, observando aquela mulher dormindo e mal podia acreditar que, depois de muito tempo, ele finalmente acordava feliz. Muito feliz. Pensou que esse era um bom motivo para uma comemoração. Mais um dos inúmeros brindes solitários que ele adorava dar. Foi até a cozinha e sacou a garrafa de vodka do congelador. Que se foda que ainda nem escovei os dentes. Melhor – pensou, enquanto abria a garrafa e deitava um pouco do líquido consistente em um copo velho, daqueles de requeijão, o único que estava limpo àquela altura da manhã. Deu um gole e se deliciou com o tapa etílico a que foi submetido. Voltou ao quarto e sentou no chão frio para observá-la ainda mais. Com o barulho forte da chuva, ela acordou, devagar e confortável, e sorriu em sua direção.

- Já de pé? Bom dia – ela disse, ajeitando seu corpo nu na cama imensa.
- Acordei agora há pouco. Quer um gole? – ele perguntou, oferecendo o seu copo, ainda pela metade.
- O que é?
- Remédio para manhãs chuvosas. Vodka – ele respondeu, sorrindo.
- Daqui a pouco.

Após a breve conversa eles decidiram apenas se olhar, em silêncio, por alguns minutos, ao som da tempestade que desabava lá fora e sob o cheiro de vodka que preenchia o quarto. Assim o fizeram. E com muito carinho. Com um conforto enternecedor. Fazia muito tempo que ele não sentia algo assim. Fazia muito tempo que ele não acordava e se sentia assim, simplesmente feliz. Quis gritar, dizer a ela alguma coisa, cantarolar uma canção de Brian Molko, enfim, fazer algo que deixasse bem claro a sua felicidade. Achou que o melhor a fazer era apenas ficar ali, sentado naquele chão frio, observando aquela linda mulher nua em sua cama.

- Você acredita em paixão à primeira vista? – ele perguntou.
Ela sorriu e respondeu – Não, por quê?
- Depois eu te explico, agora só me dá um beijo – respondeu, inclinando seu corpo e beijando aquela linda mulher de cabelos escuros como um show do Bauhaus.

3.4.03



QUANDO AS PÍLULAS ROSAS JÁ NÃO FAZEM MAIS EFEITO

Ela tomou o primeiro táxi que apareceu. Absolutamente transtornada. Seus olhos estavam vermelhos e borrados, muito borrados, dando uma clara demonstração de que aquela tarde não tinha sido fácil para ela. Nada fácil. O taxista percebeu todo o desespero naquela moça bonita, de cabelos vermelhos, totalmente despenteados, olhos azuis como a tristeza e pele branca, branca como alguma espécie de sonho. Ela pediu, respirando com dificuldade, que ele a levasse até a Consolação. Ele nada disse e pôs-se a observar, pelo espelho retrovisor, todo o desespero daquela moça.

- Quer que eu ligue o rádio? – o taxista perguntou, em voz baixa, sem querer incomodá-la – Às vezes distrai.
- Como quiser. Posso fumar? – ela retrucou.
- Claro. Fique à vontade.

Enquanto observava pelo retrovisor aquela moça de unhas pintadas com esmalte preto acender o seu cigarro, o homem ligou o velho rádio do seu carro e sintonizou a primeira emissora que encontrou. Era uma daquelas emissoras culturais, que tocavam música clássica durante toda a programação. Assim que percebeu isso ele tentou mudar rapidamente a estação, para não deixa-la ainda mais triste, mas foi interrompido por ela – Não, não mude. É ópera. E eu adoro essa ópera.
O taxista a olhou pelo espelho com um breve sorriso no rosto e tirou sua mão do dial do rádio enquanto dizia – Eu logo vi que a moça tinha bom gosto. Logo vi. Olha, vou ser franco, não entendo nada desse tipo de música, mas que é bonito, ah, isso é.
- É lindo – ela retrucou – É como se fosse um sonho bom. É algo como se um anjo descesse à terra somente para nos entreter, nos divertir, nos fazer sorrir, nos fazer bem, somente nos fazer bem. É música para a alma.
- Entendo o que a moça quer dizer. Entendo mesmo. Olha, eu posso ter pouco estudo, ter pouca cultura, mas sei perceber quando uma coisa é verdadeiramente bonita.

Ela começou a chorar ainda mais, sendo interrompida, mais uma vez, pelo motorista.

- A senhora quer que eu mude a música?
- Não. Por favor – ela disse, com dificuldade.
- A senhora quer que eu pare em alguma padaria para tomar um copo de água com açúcar? Olha, é tiro e queda, na hora essa tristeza vai passar – ele disse, tentando confortá-la.
- Não, essa tristeza não vai passar. Nunca vai passar. Nem com água com açúcar, nem com palavras gentis, nem com carinho exacerbado, com nada. Nem com essas malditas pílulas rosas que eu carrego na porra da minha bolsa, que sequer fazem mais efeito.
- A moça toma pílulas rosa? São remédios para sorrir? – ele perguntou, receando estar sendo extremamente atrevido.
Ela sorriu com o comentário e disse, tranqüila – Tomo. Tomo sim, mas acontece que elas já não fazem mais esse efeito. Elas não me fazem sorrir, não me fazem bem, não fazem porra nenhuma. E eu já sabia disso, mas o imbecil do meu médico acabou de confirmar isso. Idiota.
- Eu não entendo – o taxista disse, longe.
- O quê? – ela perguntou, curiosa.
- As pessoas. Até pílulas para fazer os outros sorrirem são feitas e mesmo assim não se vê as lágrimas deixarem de correr pelo rosto de alguns. Se eu fosse a senhora, fazia uma coisa. Jogava fora todo esse lixo e começava a tomar outros tipos de pílulas. Pílulas de sol, pílulas de chuva, pílulas de crianças, pílulas de gente, pílulas de alegria, pílulas de vida, pílulas de ópera, sei lá, qualquer tipo de pílula que não seja rosa. Aposto que a moça vai se sentir bem melhor. Mas, como dizia minha avó, se conselho fosse bom...pronto. Chegamos.

Ela demorou uns instantes até perceber que havia chegado ao destino. Abriu sua bolsa, pegou o dinheiro, pagou o taxista e fez com que ele ficasse com o troco. Abriu a porta e, antes de sair do táxi, olhou para o motorista, ainda com os olhos vermelhos e borrados, e disse, suave – Sabe, o senhor tem vocação para anjo. Obrigado – e desceu de veículo, com um sorriso alegre e confortável.

Ele ficou intrigado e permaneceu ali, com seu carro parado, olhando para aquela moça alta, de cabelos vermelhos, sumindo na multidão sem olhar para trás. Antes de ligar o seu táxi, olhou para o banco de trás e percebeu um pote pequeno, branco, típico daqueles que se usam em drogarias de manipulação. Tirou a tampa meio frouxa e caiu numa gostosa gargalhada de alívio. Era um pote cheio de pílulas rosadas e pequenas. Jogou o mesmo na lixeira do carro, aumentou o volume do rádio que ainda tocava uma ópera e deu a partida, sorrindo muito e cantarolando alto, muito alto, para que todos pudessem ouvir o que uma ópera é capaz de fazer.





MENTIR É FÁCIL DEMAIS

- Você sabia que o Jim Morrison, vocal do The Doors, cantava de costas para a platéia no início da carreira? – ele perguntou a ela, com um olhar divertido.
- Não creio. Qual o motivo? – ela disse, interessada.
- Timidez. Você acredita? Um sujeito daquele, vocalista de uma banda bacana, cantando de costas para a platéia por causa de timidez...inacreditável.
- Oras, timidez independe de beleza, de sexo, de qualquer coisa – ela questionou.
- Eu sei.
- Veja você, por exemplo – ela disse, acendendo um cigarro – Você É tímido. Desde os tempos mais remotos da primeira série, quando eu te conheci, até hoje, você sempre foi tímido.
Ele ficou desconfortável – Mas isso nunca me impediu de conseguir as coisas que eu quero.
- Nunca? – ela perguntou, desafiadora.
- Nunca – ele retrucou, enfático.
- Tá. E a Marcinha, aquela do inglês, ela era completamente louca por você e você por ela, mas você nunca foi lá e disse que queria ficar com ela.
- Você está completamente louca. Eu jamais estive a fim da Marcinha – ele disse, já um tanto irritado.
- Tem certeza disso? Porra cara, eu já te falei um zilhão de vezes que você tem que ser mais você. Tem que deixar essa merda de timidez, de inibição, de vergonha, de insegurança ou seja lá o que for de lado e confiar sempre em você. No seu poder de persuasão e conquista. Você é uma graça. Quantas vezes eu tenho que te dizer isso? – ela perguntou.

Ele ficou encarando-a por alguns instantes, como se quisesse dizer algo que estivesse preso com ele há muito tempo.

- Me dá um cigarro? – ele pediu – Vamos depois ao Clube Varsóvia? – perguntou – Estou louco para dançar e dançar e dançar até meus pés derreterem.
Ela se aproximou, o fitou direto nos olhos e atirou a inevitável pergunta – Me diz uma coisa? Do fundo do coração? – ela pediu.
Ele a observou sentindo o sangue ferver em seu rosto – Claro. Pode dizer.
- Se você me amasse. Não como essa super amiga de vários anos que eu sou. Eu digo, se você me amasse verdadeiramente como uma mulher, como a sua mulher, você me diria isso, não? Não guardaria somente para você, guardaria?

Ele a olhou e sentiu seu rosto transbordando sangue pelos poros, quente, e respondeu tranqüilo – Claro que eu diria. Mas você não tem essa chance. Você é minha melhor amiga. E isso é o que importa – finalizou.

Ela o abraçou com a maior de todas as ternuras, enquanto ele segurava o seu grito surdo e pensava por quanto tempo mais aquela tortura ainda iria durar e como era mais fácil mentir, muito mais fácil mentir...



1.4.03



PALAVRAS ALHEIAS (...OU QUEM NÃO VIVEU ISSO?)

Existe algo de errado em ser solitário, em sentir solidão. Mas nem sempre é assim, pode ser sustentável e coerente sentir-se só as vezes. Ela sempre tinha sido uma garota muito popular, cheia de amigos legais que iam a lugares legais. Vivia rodeada de pessoas, todos sempre queriam sua companhia, afinal, ela era divertida, e era mestre em arrancar risadas e sorrisos de quem estivesse ao seu lado. O tempo foi passando, e ela ficando menos feliz, e menos sorridente. Tinha razões para isso. Mas não queria falar. Dividiu sua aflição com um amigo, o mais querido de todos, que apesar de ter entendido seu problema não tinha como solucioná-lo. Mas poderia ajudá-la, sem dúvida. Não se esforçou muito para amenizar as dores da amiga. Mal sabia, que um simples convite para um cinema, uma volta no shopping qualquer banalidade, a faria sentir mais viva, e importante. Engraçado, qdo ela não estava em condições de divertir as pessoas, elas se foram. Uma a uma. E do dia para noite não recebia nenhum convite, nem telefonema. Nada. Cada um parecia estar mais preocupado com sua própria vida, e com medo que a garota repentinamente precisasse de um ombro, colo ou simplesmente ser ouvida. Foram dias e noites de solidão. Sua mesa de cabeceira estava devidamente equipada com anti depressivos e tranqüilizantes, que se espalhavam entre os livros e pedaços de papel onde ela escrevia, escrevia e escrevia...Talvez nunca tivesse precisado de tais drogas, se aqueles os amigos, estivessem dispostos a lhe atribuir só um pouquinho de atenção, e pelo menos naquele instante não receber nada em troca. Era ela por si mesma. Nunca tinha sentido tão só, nunca tinha sido tão só. Tinha sido apresentada a tal da solidão, e já não sabia ao certo se ainda tinha tanto medo dela. Conviviam como duas amigas, depois de um certo tempo. Pensava que era bom não ter que esconder o que sentia, e nem manter um sorriso plástico nos lábios. Era só ela mesmo..já não precisava esconder nada de si. E lá se ia mais um dia, entre palavras perdidas, músicas , lembranças nubladas e algumas pílulas. Já não se sentia mais triste, mas apenas só, muito só.



QUANDO CAMINHAR SOB A CHUVA MOLHA ALGO MAIS DO QUE OS PÉS

Você é uma inútil. Você não sabe nada da vida. Pensa que tudo vai acontecer do jeito que você imagina? Do jeito que você quer? Da maneira que você pensa que pode suportar? A vida, mocinha, é muito diferente do que você imagina. Você nunca viveu. Você não sabe o que é isso. Você acha que sabe tudo, mas não passa de uma criancinha mimada, sem a menor noção do mundo ao seu redor. Idiotinha presunçosa.

Caminhando sob a chuva as palavras não saíam da sua mente. Ela ficava repetindo-as, repetindo-as, repetindo-as, como um efeito fade away em alguma guitarra distorcida. Aliás, sua vida tinha virado uma guitarra distorcida. Um som nada uniforme, nada melódico, nada bom. Sua vida tinha desabado. E lá estava ela, caminhando sob a chuva e carregando aquela maldita mala pesada, com parte dos seus dezoito anos de vida dentro dela. E as palavras iam e vinham, porém não abandonavam a sua mente.

Não me diga que sabe o que quer, não me diga isso. Você acha que é capaz de decidir o melhor rumo para a sua vida, mas não é. Quantas vezes eu tenho que lhe dizer isso? Quantas vezes? Parece que você não escuta, parece que você é surda. Não quer ouvir e eu já estou de saco cheio de ficar repetindo isso, como um disco riscado. Você não entende ou não quer entender?

E as suas lágrimas confundiam-se com a chuva pesada que molhava o seu corpo e tornava aquela maldita mala ainda mais pesada do que o costume. Ela não sabia para onde ir, o que fazer, o que esperar. Tudo o que sonhava era com um gole de café bem quente, um cigarro seco e um lugar para sentar e pensar no que fazer da sua vida. E as palavras continuavam lá, gritando na sua cabeça.

Então faça o que você quiser. Faça o que deseja, mas não me peça ajuda entendeu? Não me peça ajuda nunca mais porque eu simplesmente cansei. Ofereci a você tudo o que era possível e estava ao meu alcance. Tudo o que eu podia e tinha condições de fazer. Você, estúpida, não aceitou, aliás, jamais aceitou. Então, tome o seu caminho.

E naquele momento, andando sem uma porra de um guarda chuva e segurando aquela mala extremamente pesada, debaixo da tempestade, ela procurava achar o caminho. Mas não sabia por onde começar. E as palavras...

Saia já da nossa casa. Minha e da sua mãe. Saia já. Vá embora agora para onde você quiser. Você e essa desgraça sem pai na sua barriga não têm espaço por aqui. Você se drogou, você bebeu, você viveu a vida da forma mais inconseqüente possível e jamais aceitou as minhas ordens e fez sua mãe sofre e me fez sofrer. Vá embora. Você tem vinte minutos para pegar os seus trapos. Cai fora. E jamais, entendeu? Jamais volte a nos procurar.

E de repente ela, desesperada, caiu no chão percebendo que aquela maldita mala de roupas agora estava rasgada e aberta no meio da rua, deixando molhar pela tempestade parte dos seus dezoito anos de vida. E ela começou a chorar e a chorar. Tentando não pensar em qual caminho precisava escolher.





MEDO DO ESCURO

Ela só vestia roupas pretas e coturnos encardidos e maquiagem escura. Adorava ser soturna. Adorava ficar por horas e horas cultuando o amor, a morte, as suas tatuagens de caveira, a sua música de sonhos, a chuva, o cair da noite. Adorava todas as coisas não convencionais. Rimbaud, Baudelaire, Masoch. Poemas sobre inquietação, amor, suicídio, sangue e morte. Adorava tudo isso até o dia de hoje. Hoje ela foi surpreendida. Ele disse que não queria mais vê-la, não queria mais saber de tudo aquilo, que precisava ficar sozinho. Ela não dormiu bem. Foi a primeira vez que teve medo do escuro.



PRIMEIRO DE ABRIL

- Hey? – ela chamou a sua atenção.
- Fale – ele respondeu, sem tirar os olhos da capa do cd que estava em suas mãos.
- Você me ama? – ela perguntou.
- Não – ele respondeu, tranqüilo, acendendo um cigarro e sem olhar em seus olhos.
- Não? – ela disse, surpresa.
- Não – ele confirmou – Pelo menos não hoje que é o dia primeiro de abril.
- Idiota – ela disse, abraçando-o e desejando que o tempo congelasse, apenas para que ela pudesse ter, para sempre, aquele momento de felicidade.