26.3.03



...e hoje é um dia importante. Hoje é aniversário de uma pessoa que merece parabéns bem gritados...parabéns nicneven...muitas e muitas felicidades....você merece...
um beijo



Por motivos totalmente alheios, precisei lembrar de uma coisa que escrevi há tempos atrás...muito tempo, aliás, mas que, espero, tenha sido útil hoje, de alguma forma...


FEEDBACK SONG...

Teve uma vez que eu perguntei para minha avó, pouco antes de ela morrer, o que era a morte. Ela me disse, toda sorridente, mesmo com o câncer já avançado, que morrer, mas morrer MESMO, era ter passado por aqui sem ter deixado nada. Sem ter deixado amigos, sem ter deixado alguém que se importasse realmente com você, sem ter deixado palavras doces, sem ter deixado um sorriso, sem ter deixado algum quadro pintado, alguma canção composta, algum conto escrito, sem ter deixado algum coração saudoso, sem ter deixado algum coração partido, sem ter tido uma grande paixão, sem ter sido feliz e, de alguma forma, ter feito os outros felizes também. Morrer era isso. Ir embora sem deixar nada. Nada. Eu retruquei, confuso e com um brilho nos olhos, dizendo que então ela não morreria, pois havia feito, com certeza, todas essas coisas. Ela apenas sorriu e me disse calma como sempre e com um sorriso inesquecível "E com esse brilho nos seus olhos, quem disse que eu vou morrer?"





A DOR DE OS OLHOS NÃO ENXERGAREM (ciúme)

Já passava das duas da manhã quando ele decidiu sucumbir ao barulho daquela porra de telefone. Era a terceira vez que tocava no meio da noite durante aquela semana. E todas as vezes ele acordou e ele atendeu e ele não obteve resposta. Não era ninguém. Aliás, era alguém. Alguém muito próximo e alguém que ele conhecia bem, mas que se limitava a respirar e a não se identificar. Ele já não sabia mais o que fazer. Não sabia mais o que dizer. Ele apenas queria que aquele martírio acabasse e ele pudesse, enfim, dormir em paz e seguir a sua vida. Mas o barulho do telefone durante a madrugada era implacável.

- Alô – ele disse, com a voz afogada em sono.
Apenas silêncio foi a resposta.
- Alô. Porra, porra, porra – ele gritou - Será que dá para você ligar para cá e ao menos dizer alguma coisa Mariana? Caralho. Será que vou ter que passar o resto das minhas madrugadas tendo que atender aos seus telefonemas insanos e insensatos. O que você ainda quer de mim? O que você quer? – ele perguntou, enfurecido.
- Eu quero você – uma voz pálida, fina, sem brilho, respondeu do outro lado da linha. Uma voz que lembrava vagamente aquela que um dia havia sido Mariana. A sua Mariana.
Depois de alguns segundos de silêncio, ele disse, em tom de voz baixo, bem baixo – Porra Mariana. Não faça isso. Por favor. Não faça isso comigo, contigo, com nosso futuro. Pára. Vá viver o que você tem que viver. A nossa história já deu. Já foi. Acabou. Você sabe disso, não? Eu sei que você sabe. Pára de insistir. Por favor.
- Eu apenas quero você de volta para mim – ela repetiu.
- Você já me teve. Inteiro e por completo. E aí, decidiu que eu deveria ter outra pessoa. E aí, pensou que eu deveria ter essa outra pessoa enquanto estava com você. Aí imaginou e delirou e pirou e me acusou e foi além do que qualquer outra pessoa poderia imaginar. Você e esse seu ciúme doentio, essa vontade de achar que o mundo inteiro conspira contra você.
- Eu posso me enganar? – ela perguntou, contendo o choro.
- Não. Eu cansei disso. Simplesmente cansei. E eu posso voltar a dormir? Creio que já conversamos tudo sobre isso não? – ele retrucou, ríspido.
- Tá. Durma bem – ela respondeu, triste.
- Tchau – ele disse, desligando o telefone e desconectando a linha, na seqüência. Voltou para a cama, apagou a luz, acendeu um cigarro e ficou lá sentado, pensando em como as coisas poderiam ser diferentes se ambos tivessem agido de formas diferentes – Eu não entendo isso. Não entendo. Nunca a traí... – ele pensou.
Ela permaneceu com o telefone preso ao ouvido por alguns minutos mesmo depois de ele ter desligado, como se estivesse em uma espécie de transe. Depois, deixou o telefone explodir no chão, sem o menor cuidado, ao mesmo tempo em que começava a chorar copiosamente – Por que isso? Por que isso? Por que ele me deixou...eu não entendo – pensava, entre lágrimas e lágrimas...



25.3.03



TELL ME I AM NOT ALONE...
por favor...



eu estou MORRENDO de saudades de todos vocês...mas será que ainda alguém quer ler o que escrevo? :) Espero que sim e estou aqui só para dizer que estou com problemas demais e idéias demais e tempo de menos...mas eu vou escrever...AMANHÃ...prometo...amanhã...

Me aguardem...

Adoro todos vocês...de verdade...

18.3.03



...e eu prometi escrever sobre coisas que machucam, coisas homicidas, coisas suicidas, coisas chatas como inveja / desprezo / cigarro / bebida / amores perdidos / ciúme / tédio...Já escrevi sobre três delas. E vou incluir traição, atendendo a pedidos...e vou escrever sobre o ciclo sorrisos, também atendendo a pedidos. Alguma sugestão sobre os temas?



VOCÊ NÃO PROMETEU NÃO ME DEIXAR SOZINHA? (DESPREZO)

Ela chorava sem parar. Chorava como uma criança perdida. Uma criança totalmente sem noção de onde estava. Ela chorava de uma forma desesperada. De uma forma dolorida. Como se estivesse andando sobre uma fina camada de gelo, pronta para rachar. Ela não tinha a quem ligar, a quem chamar, a quem pedir, a quem escrever. Ela não tinha ninguém. E ela também não tinha nada. Ela não tinha nada além das suas lágrimas e das suas memórias e das suas fotos antigas e dos seus pensamentos, que, todavia, era o que ela mais procurava evitar naquela tarde chuvosa e nublada e cinza e fria de inverno. Pensamentos. Pensamentos e memórias. Doces e distantes memórias, que a faziam chorar sempre que retornavam à sua mente. E ela chorava sem parar. Com aquele maldito bilhete na mão. Um pedaço de papel amassado dizendo adeus. Um manifesto ao desprezo. A pior sensação que alguém pode sentir...ser desprezado...cruelmente, sem poder se defender...





A ÁGUA TURVA PODE VIRAR GELO? (BEBIDA)

- O que você quer comigo? ela perguntou, ansiosa e com pouca paciência.
- Nada, eu só quero que você me dê um sorriso. É muito? – ele retrucou, com um olhar longo.
- Quer saber a verdade? É pedir muito sim. É pedir algo que está além das minhas forças, da minha vontade, do meu saco. É pedir mais do que eu estou ou jamais estive disposta a te dar. É pedir algo que eu não quero fazer. Principalmente fazer por você. Um idiota, um babaca, que acha que pode envolver as pessoas com essa conversa mole, irritante, recheada de frases feitas e de situações hipotéticas exaustivamente revistas na sua mente doentia, de forma a que nada dê errado para você. Nunca. Estou farta de você. Farta. Já te dei todas as chances e você parece que sempre quer mais. Sempre quer mais, como uma forma de me testar. Uma forma de querer saber até onde eu agüento. Uma forma de me esgotar exaustivamente. Cansei disso. Cansei do seu jogo. Cansei de você, dos seus vícios, de tudo. Você quer que eu canse de viver? Caralho. Não acha que pede demais?

Ele permaneceu em silêncio, calmo, tentando assimilar a porrada que tomou, tentando entender a onda de revolta que o atropelou. A onda de revolta que destruiu qualquer tentativa dele em querer quebrar o gelo. Depois de alguns minutos em silêncio, ele insistiu – Mas eu não tenho mais nenhuma...

-...não. Nenhuma chance, nenhuma esperança, nenhuma oportunidade, nenhum espaço, nada. Porra nenhuma. Você não tem direito a nada da minha vida. Nada! – ela gritou, dando um tapa no seu braço. Forte. Barulhento.

- Mas eu não vou mais... – ele tentou falar

-...beber? – ela interrompeu, com a voz sussurrada e com desespero no olhar – Ou será que não vai mais me bater, me ofender, me envergonhar, me fazer chorar, me machucar? É isso o que você vai dizer? É isso o que você vai me prometer? Quantas vezes você já me prometeu esse tipo de coisa? Quantas vezes seu filho da puta? – ela gritou.

Ele fixou seus olhos no chão e permaneceu em silêncio, apenas torcendo para que ela acabasse logo com tudo aquilo.

- Deus! Eu me odeio com todas as forças, por te amar tanto assim. Você não merece isso. Não mesmo!

Ele levantou e foi saindo do apartamento, deixando ela com a cabeça apoiada sobre a mesa da cozinha, chorando sem parar.

- Posso te ligar? – ele perguntou, não obtendo resposta – Qualquer hora eu te ligo, então. Beijo – finalizou, saindo e fechando a porta devagar.
Assim que ouviu a porta se fechar ela disse em um tom baixo, inaudível, desesperado – Claro que pode me ligar. Você sabe que pode me ligar...você sabe que pode me ligar...idiota...

14.3.03



...e percebam que esse será o último final de semana do verão. Aproveitem, curtam, relaxem, beijem, divirtam-se, enfim, façam valer a pena...é muito bom...e cuidado. Nunca sabemos quem vai nos ligar...



A SEGUIR TEM DESPREZO...



BETTE DAVIS (INVEJA)

Aquele era o último final de semana do verão. E ela estava toda feliz. Finalmente havia encontrado um alguém interessante para ficar, beijar, curtir e namorar durante o verão. E isso era bom. E isso era raro. Ela não era muito boa na arte de se dar bem, sentimentalmente falando. E não era feia ou desagradável. Longe disso. Sabia conversar sobre diversos assuntos, lia, ouvia música, ia ao cinema, pintava, enfim, era uma mulher interessante. Tinha consciência disso. Mas era insegura e talvez esse fosse o seu maior mal. Insegurança não combina com verão – costumava dizer sua amiga Bia – Nem com homens – pensou, enquanto arrumava umas fotos no seu quarto. Por isso estava feliz em ter encontrado Edu. Feliz como há tempos não se sentia. Feliz como poucas vezes se sentiu. E no meio de todos esses pensamentos o telefone tocou e ela voltou ao mundo normal.

- Alô – disse, animada, na esperança de que fosse Edu, mudando de idéia quanto a programação noturna.
- Oi Estela. Aqui é a Luka, tudo bem?
- Tudo e você? Vai à festa na casa do Olavo, hoje?
- Talvez. Olha, você sabe que eu sou sua amiga, não?
- Claro, claro que sei.
- E você sabe que eu não ligaria para te aborrecer se não fosse algo muito sério, não?
- O que aconteceu? – perguntou Estela, agora aflita.
- Eu sei que você está numa boa com o Edu e que ele tem sido super legal com você nesse verão, mas a verdade é que ele é um filho da puta.
- O quê? – disse, assustada Estela, sentindo seu estômago atravessado na garganta.
- Ele te convidou para ir a festa hoje? – perguntou Luka, indignada.
- Não. Ele me disse que tinha um compromisso da família. Sei lá que droga ele tinha para fazer. Por quê?
- Ele acabou de me ligar para perguntar se eu queria ir com ele, disse que já havia te dispensado e estava livre hoje.
- Como assim? perguntou, desesperada, Estela.
- Ele é um filho da puta. Olha Té, desculpa eu estar te falando isso assim, mas preciso que você saiba. Você é minha amiga. Uma das melhores. E você já sofreu uma puta sacanagem com o Paulo e não merece isso. Não mesmo. Não vou deixar que nada de mal te aconteça de novo.
- Podemos nos falar amanhã? – perguntou com a voz trêmula e fina, Estela – Preciso desligar, não estou bem.
- Quer que eu vá para aí? Eu posso ir.
- Não. Não...preciso ficar sozinha. Obrigado. Beijo.
- Beijão querida. Se precisar me liga, tá? Qualquer horário.
- Pode deixar. A gente se fala – finalizou Estela, desligando o telefone, permanecendo estática ao seu lado, sem saber o que fazer, além de gritar.

- Você não presta, Luka. Definitivamente. – disse Bia, ao mesmo tempo em que olhava a amiga desligar o telefone.
- Ora. A Estela tem que deixar de ser imbecil – disse, com um sorriso cínico no canto do rosto – Quem ela pensa que é para competir comigo? Ela sabia que eu estava muito afins de ficar enlouquecidamente com ele. E não foi a primeira vez que ela fez isso. Outras vezes ela se deu bem. Muito bem. Dessa vez as coisas foram diferentes. Ele caiu na minha deliciosa conversa e também se deu mal. Nesse ménage sem nexo, ninguém ficou com ninguém. E você sabe que eu gosto muito dela. Quero sua amizade e preciso ensinar a ela como chorar - completou.
- Eu acho que isso ela já sabe – emendou Bia, sorrindo seu pior sorriso.
- Vamos dançar?
- Vamos – respondeu Bia – Só me avisa antes com quem você quer ficar – disse, gargalhando.
Sorrindo, Luka respondeu – Pode deixar. Pode deixar...



12.3.03



a partir de amanhã vou escrever (diariamente, espero) sobre sete coisas que machucam...uma coisa por dia...para todos os homicidas e suicidas que existem e repousam dentro de nós, no mais absoluto íntimo...

coisas que machucam: inveja / desprezo / cigarro / bebida / amores perdidos / ciúme / tédio

...espero que eu consiga...espero que gostem...



DEPOIS DA TEMPESTADE
(inspirado e semi-escrito por...bem não há necessidade de dizer. Não mesmo)

E ele acordou cedo aquela manhã. Muito cedo. Talvez em razão do barulho da tempestade que estava para começar. O barulho dos raios e trovões estava assustadoramente alto. O vento também parecia querer derrubar e destruir a janela do quarto. Ele não sabia o que estava acontecendo. Tateou na cama e percebeu que ela não estava lá. Percebeu que ela havia deixado a cama há muito tempo, uma vez que o lado em que ela costumava dormir já estava bastante frio. Ele não percebeu que ela havia saído durante a madrugada. Não percebeu nada. Ele nunca percebia, não é mesmo? Chamou por ela enquanto se levantava, mas percebeu, pela ausência da sua bolsa, que ela havia ido embora. Levantou e sentiu uma tontura. Levantou rápido demais. Olhou pela casa toda e não a encontrou. Encontrou apenas um pequeno pedaço de papel deixado sobre o aparelho de som, preso entre um cd dos Smiths e um tape do Placebo. Abriu lentamente o pedaço de papel. Nele podia sentir o seu perfume. Começou a ler e a entender a razão daquelas letras miúdas, rabiscadas de um modo nervoso e aflito durante a madrugada...

Preciso te contar uma história. Caso você tenha saco de ouvir. É a história de uma garota. Uma mulher na verdade. Ela tinha 26, e se sentia exatamente como se um furacão tivesse acabado de passar sobre si. Uma mulher que ainda insistia em achar que era menina.
Em pouco tempo tinha ido ao paraíso, com passagem súbita para o mais profundo e quente dos infernos. Nunca tinha sofrido tanto...experimentado aquela dor que não cabia no peito, nem na alma, e nem no corpo...Era uma dor que parecia engolir sua essência, tudo aquilo que a tornava ela mesma. Perdeu a identidade, perdeu sua marca, que sempre tinha sido seu largo sorriso. Seus gostos, que faziam dela aquela garota , tinham ficado pelo caminho, ou se derretido com suas lágrimas. Nunca tinha sido tão feliz. Nunca tinha sido tão triste. Não suportou estar no olho do furacão, foi demais para seu coração, que estava dilacerado. Não podia mais viver, simplesmente tocar para frente, não tinham sobrado forças não tinha sobrado nada. Tudo que ouvia das bocas alheias era que aquilo passaria, que o tempo tudo curava. Mas não lhe interessava o que saía daqueles lábios estranhos e ordinários. Ninguém jamais entendera sua dor, e nem o que de fato a tinha levado a sentir-se daquele jeito.
Ninguém, precisava saber mesmo, ninguém poderia ajudar. Onde estava tudo aquilo no que ela acreditava? Suas crenças, sua fé? Tinham partido junto com seus sonhos, e com todo o resto de esperança que ela ainda tinha de viver uma linda história, uma cena de filme. O furacão já passou... tinha sido dragada, e depois cuspida de volta para sua pobre e sonsa realidade. Não era triste, e nem feliz. Tinha tornado-se seca, sem nada dentro, oca. Vivia os dias, por viver, um atrás do outro, e as vezes chorava. Chorava escondida, ouvindo Spiritualized, e tendo a sensação de que tantas daquelas letras eram a mais pura tradução do que ela sentia. Não havia razão para tristeza, mas nem para alegria. Parecia ter perdido o brilho, dos olhos, do sorriso e o próprio brilho de sempre querer fazer da vida um lugar legal, e de viver, uma tarefa intensa e divertida. Tinha se apagado. E assim seguiam-se os dias...um e depois outro e outro, sem novidades, sem emoções, sem acreditar que finais felizes existem na vida real, sem um propósito. Agora eram só restos, e restos, e restos...
E eu não quero ser essa menina...nunca mais...não mais


Ele desviou os olhos do pedaço de papel e pôs-se a observar as gotas imensas que começavam a despencar do céu, formando um verdadeiro ballet de dor e desespero...acendeu um cigarro e apenas ficou lá, sentado no chão próximo a janela, pensando no que aconteceria a ele depois da tempestade...depois daquela maldita tempestade...

10.3.03



DANÇANDO RITMOS DESCONHECIDOS E VISITANDO LUGARES INÉDITOS

- Tudo o que eu quero é ficar aqui sentada, pensando em coisa alguma além desse mar, desse sol, dessa brisa, desse calor...
- ... e desses homens bronzeados maravilhosos que circulam para lá a para cá, não Clarisse? – a interrompeu Melissa, já toda alegre pelos “litros” de cerveja que havia tomado desde que estava na praia.
Sorrindo pela piada da amiga, Clarisse emendou – Não. Definitivamente não estou com a menor vontade de pensar em homens. De qualquer espécie ou natureza ou tamanho ou cor ou, seja lá o que for. Não estou afins. Mesmo.
- Quem diria, a maior destruidora de corações do universo envolta em um manto de ódio e revolta, apenas pelo singelo motivo de ter experimentado um dos mais sensacionais “pés na bunda” de todos os tempos – ironizou.
- Eu não tomei um “pé na bunda” querida. Eu DEI um “pé na bunda”. É bastante diferente. E aquele canalha bem que mereceu – disse, firme, Clarisse.
- Sei. Depende do ponto de vista, não é mesmo? Dar e tomar um “pé na bunda” ganha conceitos distintos, dependendo de como se analisa a questão.
- Você está bêbada – Clarisse disse, ignorando a amiga.
- E você está com dor de cotovelo, como eu nunca imaginei que você pudesse ficar, afinal Clarisse é linda, Clarisse é fofa, Clarisse é meiga, Clarisse é divina, Clarisse não fica sozinha. Jamais – emendou Melissa, enquanto se levantava e corria em direção ao mar, parando e girando de repente para gritar à amiga – Mas você sempre vai ter ao seu redor os seus amigos e as pessoas que verdadeiramente te querem bem...como eu, por exemplo – finalizou, mandando um suave beijo com a palma das suas mãos pequenas.
Ao mesmo tempo em que retribuía o doce beijo, Clarisse disse baixinho, talvez somente para seus próprios ouvidos – Então querida, me ajuda a afastar essa inédita dor, por favor, por favor...





THE LONG AND WINDING ROAD

E por quais caminhos é mais fácil andar sem encontrar sofrimento de qualquer espécie? E por quais caminhos é mais fácil andar sem encontrar encruzilhadas erradas de toda a sorte? E por quais caminhos é mais fácil andar sem encontrar pedras que nos façam ter vontade de colocá-las nos bolsos antes de nos atirarmos em um rio? E por quais caminhos é mais fácil andar sem encontrar pessoas más, pessoas egoístas, pessoas egocêntricas, pessoas invejosas, pessoas sem caráter, pessoas que nos queiram fazer sofrer e chorar e desesperar e querer morrer. E por quais caminhos devo andar? Espero que seja pelo meu. Espero que seja pelo caminho que estou trilhando agora. Mas, não sei, de qualquer forma pressinto que vou precisar de muita sorte...muita sorte mesmo.

7.3.03



E, de repente, ele pôs-se a escrever e a escrever e a escrever e a escrever...não queria perder mais tempo. Tinha muitas idéias e tudo lhe parecia valer a pena...tudo...melhor deixar a viagem registrada então...



MARVIN GAYE

Às vezes nada parecia que dava certo para ela. Nada. Todas as coisas com que ela havia sonhado foram perdidas no tempo. Ela já estava com trinta anos e não imaginava que chegaria a essa idade da forma como chegou. Sem nada. Sem sonhos, sem desejos, sem lucidez, sem vontade, sem esperança, sem a porra de um grande amor, sem um cachorro, sem a coleção completa dos álbuns do Marvin Gaye, sem estar feliz. Havia feito outros planos para tudo isso. Outros planos. E onde eles estavam agora? Por onde andavam aqueles sonhos tão doces e delicadamente construídos por aquela garota linda, de olhos pretos e pequenos, no auge de seus onze, treze, dezesseis, dezoito, vinte, vinte e poucos anos? Por onde eles vagavam? Ela queria saber, muito embora já soubesse a resposta. Então ela não queria saber? Queria. Queria muito. Mas a verdade é que ela preferia que alguém lhe cuspisse a resposta no rosto a ter que admitir a verdade. A verdade de que todos aqueles sonhos e desejos foram jogados fora por iniciativa própria, por medo. E não existe algo mais comum do que isso. Jogar fora a própria vida. O problema é que ela estava lá, com seus trinta anos, vivendo sozinha em um apartamento velho e sujo e vazio e sem nada. Sem os seus sonhos, sem os seus desejos, sem a sua lucidez, sem a sua vontade, sem a sua esperança, sem a porra de um grande amor só seu, sem o seu cachorro, sem a sua coleção completa dos álbuns do Marvin Gaye, sem a sua felicidade, sem vida, enfim...e, pelo visto, tudo permaneceria do mesmo jeito pelos próximos onze, treze, dezesseis, dezoito, vinte, vinte e poucos anos... a não ser que ela fizesse algo a mais do que beber e fumar e chorar e contemplar a porra que era a sua vida...





PEQUENAS MÁGICAS

- Vou fazer uma mágica – ele disse, todo feliz.
- Vai me trazer ele de volta? – ela perguntou, triste.
- Infelizmente não. Pensei apenas em provocar alguns sorrisos – ele retrucou, com um brilho no olhar.
- Já é algum começo – ela disse, abraçando-o com ternura.



PESSOAS QUE MATAM BLOGS...

Hey moça, então VOCÊ matou seu blog? Não, não, não...VOCÊ sabe que eu fico muito triste com isso. Havia qualidade nele. Você também sabe disso...nos dois, aliás...pensei que fosse apenas um problema do blogspot...mas não...você qquer fazer o favor de voltar? E rápido hein?

Humpf...

6.3.03


UM DESEJO, APENAS UM...

- Te dou três chances – ela disse, sorrindo muito, um dos seus mais belos sorrisos.
- Deixe-me adivinhar o que pode ser – ele disse. – Um disco, cheio de rock and roll e diversão?
- Não, você sabe que eu detesto música. Segunda chance.
- Um livro. Um belo livro que me prenda como você costuma fazer com o seu olhar.
Ela sorriu, tímida, e respondeu, com os olhos já um tanto tristes – Terceira chance.
- Um cartão postal de Berlin, a cidade que me espera pelos próximos dois anos.
Ela disfarçou o choro com as suas mãos pequenas e emendou – Não. Perdeu a terceira chance.
Ele a observou sério e perguntou – Não vai me dizer o que era?
Ela olhou para as pessoas que dançavam animadas no Clube Varsóvia e disse, seca – Apenas um beijo e esse bilhete pedindo para você ficar – completou, rasgando o papel – Me pede uma cerveja, por favor?
- Claro – ele respondeu. E ficaram lá, apenas sentados, conversando sobre o passado, sem presente ou qualquer chance de futuro...sem qualquer chance...





A CONTRACAPA DO ALMANAQUE DOS SONHOS...

Ele estava sentado no chão frio, ao lado da cama, totalmente no escuro. Ele fumava um cigarro e a brasa rala do mesmo era o único fiapo de luz que podia ser percebido no quarto. Ele sentia um vazio quase indescritível. Nada de sono. Ausência total de vontade de dormir. Ele estava muito desperto. E desesperado. Sabia que havia errado e Puta que pariu, eu sempre erro – pensava. Estava de saco cheio disso. Já fazia três semanas e ele, todos os dias, tinha vontade de ligar e se desculpar e saber como ela estava. Pensava que poderia apagar todos os erros que cometeu, todas as besteiras que disse, todo o medo que sentiu, apenas com um telefonema. Ele queria de volta a vida dela. Para poder dormir em paz ou para faze-la efetivamente feliz? Não sabia a resposta. Ao menos não naquela noite escura. Não naquela noite.

5.3.03



Então ELA, A PERDIDA, resolveu ser má o suficiente para acabar com o seu BLOG . Bem, eu detestei isso...sentimento de perda sabe? Não gosto desse tipo de surpresa. Mas, de qualquer forma, ela vai ficar aqui nos meus favoritos, por muito tempo...porque ela merece...



USE OS HEADPHONES, POR FAVOR - MANHÃ DE CARNAVAL

E ele ainda estava com os ouvidos zunindo em virtude do barulho e da agitação daquela multidão, somado ao fato de que ele consumiu vários litros de álcool e dezenas de cigarros. E tudo numa noite só. E ele estava cansado. Muito cansado, porém feliz. O sol estava quase nascendo e todos da casa já deviam estar dormindo, exaustos. Inclusive ela, desmaiada de sono e bebida. Mas ele não. Ele estava lá, acordado, à beira da piscina, pensando e pensando e pensando e desejando que o sol levasse horas para nascer. Que a bonita pintura do sol nascendo naquele horizonte cinza durasse por horas e horas. Somente para que ele pudesse sorrir. Sorrir ainda mais. Mas ele sabia que isso não ia acontecer. O dia estava nascendo, independente da sua vontade, as pessoas iriam acordar em breve e eles iriam embora daquele sítio para suas vidas ordinárias e rotinas comuns. Mas antes disso, ele sabia que ela iria lembrar do seu beijo roubado e da sua declaração de amor. E ele não sabia se isso era bom ou ruim. Arroubos de carnaval. Desejos bons. Mas, no fundo, ele não estava disposto a pensar o que iria acontecer. Mais importante era o que já aconteceu durante a madrugada – pensou, enquanto tirava toda a sua roupa para jogar-se naquela piscina fria, ainda não aquecida por aquela manhã de quarta feira de cinzas. E o que a madrugada testemunhou, nem o sol vai poder apagar...ainda bem...



Marcha da Quarta Feira de Cinzas
(Vinícius de Moraes)

Acabou nosso carnaval
ninguém ouve cantar canções
ninguém passa mais
brincando feliz
e nos corações
saudades e cinzas
foi o que restou
Pelas ruas o que se vê
é uma gente que nem se vê
que nem se sorri
se beija e se abraça
e sai caminhando
dançando e cantando
cantigas de amor
E no entanto é preciso cantar
mais que nunca é preciso cantar
é preciso cantar e alegrar a cidade
A tristeza que a gente tem
qualquer dia vai se acabar
todos vão sorrir
chegou a esperança
é o povo que dança
feliz a cantar
Porque são tantas coisas azuis
há tão grandes promessas de luz
tanto amor para dar que a gente nem sabe
Quem me dera viver prá ver
e brincar outros carnavais
com a beleza dos velhos carnavais
que marchas tão lindas
e o povo cantando seu canto de paz
seu canto de paz...



ALMANAQUE DOS SONHOS

E ela acordou sorrindo, quase gargalhando. Feliz. Toda feliz. Era a primeira noite em semanas que havia dormido bem. Sem sonhar com ele. Não sabia ao certo se isso era bom ou ruim, mas estava aliviada. De fato ela estava aliviada. Como se estivesse livre de um peso. Um grande incômodo. Como se tivesse cortado um pedaço ruim da sua vida. Um pedaço ruim que ela queria muito esquecer. Tomou banho e depois preparou um café bem forte e amargo, apenas para se certificar que não mais estava sonhando. Que finalmente a sua vida havia voltado para ela. Até que enfim...