26.12.03

desejo a todos vocês um ÓTIMO 2004.

E não pensem que o conto abaixo é triste. É um recomeço. Um ano novo. Novinho em folha. Para todos nós.

Beijos para quem é de beijos
Abraços para quem é de abraços...
ANO NOVO. NOVO?

E lá estava ele. Testemunhando seu vigésimo segundo reveillon. Vigésimo segundo? – ele pensou – Saco. Sempre a mesma coisa – prosseguiu com sua chatice.

Na verdade, pelo menos para ele, aquele parecia o seu trigésimo ou quadragésimo reveillon ou mesmo muito mais do que isso.

E ele estava sozinho naquela praia cheia de cerveja e de uma multidão suada e molhada e feliz. Cheia de gente cheia de vida. Cheia de sonhos. Decidiu dar meia volta e retornar para casa. Ao menos lá eu posso estourar meus tímpanos com um bom punk rock e não com essa merda toda de fogos e o caralho.

Faltava pouco mais de uma hora para o fim de tudo quando ele deitou-se no sofá rasgado do seu pequeno apartamento. Acendeu um incenso qualquer da sua colega de apartamento e colocou um bom disco de rock. Rock pesado para matar o samba. Todo carnaval tem seu fim, né? – ele riu, divertindo-se sozinho.

E entre um trago e outro daquele Campari forte e amargo, ele gargalhou como se estivesse enlouquecido.

Adeus ano velho – ele pensou – Já vai tarde, otário. E ele ficou lá, deitado no velho sofá rasgado.

E em pouco tempo ele ficou quieto, apenas esperando o ano acabar. Apenas esperando e desejando que todas as coisas ficassem melhores. Melhores nas próximas horas, nos próximos dias, no próximo ano.

E o que ele menos desejava era ficar sozinho. Como estava naquele maldito momento, ao som de distantes e cruéis fogos de artifício.


18.12.03

QUEBRANDO ONDAS

- Eu adoro o Natal – ela disse, entre uma tragada e outra, com um sorriso no canto dos lábios.
- É verdade? – ele perguntou – Eu não ligo muito. Dizem que o Natal só é encantador para quem teve uma infância feliz e é, efetivamente, uma pessoa feliz – emendou.
Ela o olhou com desdém – Da onde você tira essas coisas?
Ele sorriu e respondeu, animado – Leio por aí. Eu sou uma pessoa bem informada.
- Minha infância foi bacana e, apesar de tudo, sou quase toda feliz, mas gosto do Natal por causa do clima, das pessoas, enfim, tudo parece mais... sereno, mais tranqüilo e seguro, mesmo com a correria e a loucura das pessoas e todos os seus preparativos.
- Já escreveu sua carta para o Papai Noel? – ele perguntou, acendendo um Marlboro.
Ela o encarou com uma certa dose de tristeza e respondeu, seca – Não, ainda não a escrevi.
- Ué, e o que está esperando? Já é quase Natal – ele disse.
- Expectativas por expectativas, eu deixo apenas as coisas acontecerem. Esperar a onda perfeita, sabe? Esperar a onda perfeita para enfrentar a maldade do mar.
Ele a olhou com muito carinho e perguntou, lindo – Vamos?
Ela respondeu, surpresa - Para onde?
- Alguma praia distante. Talvez lá você encontre alguma onda perfeita.
E saíram abraçados por aí. Noite afora. Como dois amigos queridos. Como dois amigos perfeitos.


ELA foi adorável. E inspirou-se no esfumaçado e enlouquecido Clube Varsóvia. Fiquei MUITO feliz...

Obrigado!
TEM CERTEZA?

E ela disse, implacável - O amor não existe, seu idiota.
Ele a olhou com os olhos de uma criança. Triste. Melancólico. Desolado - Mentira. Se ele não existisse eu não estaria aqui agora, destroçado.
- Tem certeza? - ela perguntou, cruel e violentamente, virando as costas e deixando apenas lágrimas para trás.

15.12.03

Izis, obrigado pelo template. Eu achei que ficou sensacional. Obrigado.
UM NOVO MUNDO PELAS JANELAS DAS ÁREAS DE SERVIÇO

Ela estava com os olhos cheios. Cheios de fumaça, cheios de vodka barata, de cansaço, de pensamentos antigos, de pensamentos infelizes, de planejamentos destroçados, de sonhos esquecidos, de lágrimas incontidas, de vida desmoronada. A sua vida. A sua própria vida.

Ela, enfim, estava com o saco cheio. Muito cheio. E aquela área de serviço era pequena demais para todos aqueles problemas e aquela fumaça.

Tudo por que mesmo longe, ele estava por perto. Perto demais.

Mas ainda assim – ela pensou - Ainda que enfurnada em uma área de serviço pequena, escura, com um cigarro vagabundo e amassado pelo bolso da calça jeans, ainda assim eu estou melhor do que olhando para ele, olhando para todos aqueles idiotas na sala de estar que o adoram e o acham um amigo. Um grande amigo.

Farta. Ela estava farta.

- Oi – uma voz disse atrás dela.
Ela não respondeu, sequer se virou. Sentiu apenas seu sangue derreter e sua cabeça explodir.
Ele não se aproximou. Sereno, apenas disse – Não quer conversar? Você acredita mesmo que eu seria capaz disso? – ele perguntou, com um olhar ingênuo.
Ela permaneceu quieta, apenas olhando a cidade molhada, através da janela daquela maldita área de serviço.
- Você realmente não quer nem um amigo? – ele insistiu.
Ela se virou abruptamente, com ódio. Ódio e ódio e ódio. Cuspiu as palavras como se as mesmas fossem balas de artilharia, prontas para acertá-lo, prontas para derrubá-lo morto ao chão – Amigo? Amigo? Ora, vá se foder, seu grande babaca. Quem você pensa que é? Quem você pensa que é? – gritou, descontrolada – Você acha que eu quero mais alguma coisa com você? Você acha que isso é possível? Depois de toda a merda que você fez?
Ele encarou-a assustado, sem dizer nada.
- Você acha que eu tenho algum sentimento por você além de raiva e ódio e desprezo? Você acha? Você conseguiu, querido, você conseguiu, depois de muito tentar, foder de vez com a minha, com a sua, com a nossa vida. Você conseguiu foder com tudo. Mas, claro, você deve estar feliz, afinal você é especialista nisso, não? Você é especialista em magoar e foder e destruir. Especialista em egoísmo e dor.

Ele ficou apenas quieto. Sabia que não havia como voltar atrás. Sabia que ela estava certa. Sabia que ela não o perdoaria ainda mais uma vez. Sabia que ele sempre fodia tudo. Sempre.

Fitou-a uma última vez com um carinho incomum e cruel e virou-se de costas, deixando-a sozinha, também por uma última vez.

Ela apenas o viu ir embora para, depois, sentar-se no chão frio daquela área de serviço.

Ficou ouvindo as risadas e as conversas na sala de estar, desejando, como nunca desejou antes, que seus sonhos nunca mais se tornassem pesadelos. Nunca mais.


12.12.03

tou invadindo seu blog. ainda tá com umas palas. =/

fala se gostou... se não, eu faço outro! =D

izis

11.12.03

estou quase de volta...pronto para mais uma.
posso pedir uma canção???

8.12.03

SURFBOARD

Ele olhou ao seu redor e percebeu, enfim, pela primeira vez naquela porra de verão, como o dia estava bonito e colorido. Como os dias ERAM bonitos e coloridos. Como caleidoscópios, como caixas mágicas. Caralho, eu não havia percebido esse sol – ele pensou, surpreso – Até que enfim me dei conta disso...

De fato, tudo agora parecia diferente. O céu estava azul, as pessoas estavam sorrindo, o sol estava quente, as ondas estavam frias, a crianças apenas gritos e os sorvetes, derretendo.

Ele parou de respirar por um minuto para apenas

...

observar aquela movimentação toda. A movimentação da vida, a movimentação das pessoas, a movimentação da areia nos seus dedos sujos de cigarro barato, a movimentação lerda e lesada com a qual não estava mais acostumado.

Ele não estava mais pensando nela.

Deu um sorriso e levantou-se sem pressa. Limpou a areia que estava grudada em sua perna e espreguiçou-se com força, como se seus músculos fossem de brinquedo e seu corpo fosse um fantoche.

Olhou a onda quebrando no mar, colocou seu chapéu e seus óculos escuros e respirou profundamente a brisa do surfboard que vinha do mar.

Acendeu um cigarro para chocar o seu pulmão e foi caminhando, sem saber para onde ir, porém, feliz para caralho com todas as suas incertezas. Apenas muito feliz.


Estou devendo...e-mails e mais e-mails...essa semana...me aguardem

3.12.03

Pensei em desistir de tudo que escrevo por aqui. Desistir mesmo. De vez.

Não para chamar a atenção, mas apenas por reconhecer que me falta o oxigênio para escrever, me falta a vida para escrever.

Mas mudei de idéia. Como bom inconstante que sou.

E fico feliz por ter minha vida de volta.

Ainda hoje um conto sobre dia de sol, areia branca quente e mar frio.

Bem frio.

21.11.03

EM UM DIA COMO ESSE QUEM É (FOI) MAIS COVARDE?

O dia estava cinza. A areia da praia parecia uma película antiga. Uma película antiga e mal cuidada de um filme antigo. Antigo, porém lindo. Um filme de Audrey Hepburn. Um filme de Bette Davis. Um filme de Hayworth. Enfim, um caleidoscópio estrelado por alguma musa hollywoodiana dos anos trinta, quarenta, cinqüenta, no máximo. Foda-se – ela pensou.

O dia estava cinza e a areia, fria. Por um instante, ela percebeu que chumbo seria uma boa cor para preencher o seu coração. Chumbo. Cor forte, porém sem vida. Cor marcante, porém sem cor. Cor cinza, porém chumbo. Pesada. Perfeita para rimar com a palavra amor, em um verso cafona de alguma canção cafona, de péssimo gosto.

O mar estava bravo. A garoa, fina e fria. As gotículas que despencavam do céu pareciam açoitar o seu corpo da cabeça aos pés. Dos seus cabelos levemente vermelhos até as unhas indiscretamente pintadas de preto. Cor da noite. Parente próxima do chumbo.

Ela observava o céu chumbo e o mar bravo. Estava bem pouco se fodendo pela inevitável futura gripe a vir ser causada por aquela maldita garoa fria.

Bem pouco se fodendo.

Ela odiava aquele menino.

Em um dia como esse, ele apenas foi embora daqui. Em um dia como esse, ele apenas decidiu ir embora, sem dizer adeus. Em um dia como esse, ele fugiu. Em um dia como esse, ele apenas a deixou ali. Chorando e chorando e chorando. Apenas pensando como é vulgar ainda acreditar em heróis – como dizia a velha canção.

Em um dia como esse quem é o mais covarde: quem foge, quem chora ou quem não luta por amor?


APENAS O CAOS
Cansado, cansado e cansado...apenas isso.
Não desistam de mim, por favor...
rs
Tenho esperança de que o final de semana será ótimo.

18.11.03

ACREDITANDO / DESACREDITANDO

- Você acredita mesmo nisso? – ele perguntou, incrédulo.
- Claro. Você pensa que sou apenas uma idiota indecisa e que não sabe o que quer e o que precisa da vida? – ela respondeu, chorando.
Ele a olhou como ela fosse, definitivamente, uma idiota, mas disse o contrário – Você não é idiota. É apenas uma garotinha mimada e perdida e assustada e que pensa que a vida de todos gira ao seu redor. Ao redor do seu maldito umbigo
Ela o encarou com muita raiva, quase ódio e cuspiu cerrando os dentes – É curioso isso, não? – emendou.
- O quê? – ele perguntou, ainda mais incrédulo diante de todo aquele diálogo.
- Como eu pude te amar tanto...

Ele riu, interrompendo-a com deboche e irritação.

...e agora nem consigo te odiar. Apenas te desprezo – ela desferiu, de um modo sincero. Cruel.

O sorriso apenas sumiu do seu rosto. Ele a encarou, em silêncio enquanto escutava ela repetir - ...e agora apenas te desprezo.

Ela saiu do quarto.

E ele chorou.

Chorou como um garotinho mimado e perdido e assustado e que até instantes atrás pensava que a vida dela girava ao seu redor.

17.11.03

AFOGADO (...TEIMOU EM NÃO APRENDER A NADAR)

Chega de me açoitar com a sua frieza, com o seu olhar de falso anjo. Chega de me fazer sofrer, de me fazer chorar, de me fazer gritar. Chega de me causar tanta dor. Eu não quero isso. Eu não preciso disso. Por favor, pare. Pare de atormentar com os seus dramas, os seus fantasmas, as suas lamentações, os seus sonhos perdidos e frustrados e mal planejados. Pare com tudo isso. Eu sou apenas uma pessoa comum. Um idiota. Um idiota e um tremendo de um babaca. Idiota? Porque ainda acredito em amores perdidos e lenços sujos de batom e velhas poesias de amor e desespero. Babaca? Porque ainda acredito em lágrimas e boleros e tangos.

E tudo isso mesmo sendo um grande surdo, mesmo sendo um grande cego.

Mesmo sendo apaixonado, talvez a melhor definição de tudo isso.

Mas, como eu ia dizendo, chega de me açoitar com a sua indiferença. Chega de me fazer perder noites de sono e dias de paz. Chega de congestionar minhas veias com esse sangue envenenado. Chega de me fazer olhar para trás. Chega de me fazer ter medo de pontes e nuvens escuras.

Antes eu queria apenas ser feliz.

Hoje? Quero apenas continuar sendo o que sempre fui.

Do jeito que sou, do jeito que cheguei até aqui...


13.11.03

O que andará acontecendo com meu template?
SUAVE É A NOITE

- Sabe o que eu mais queria, nesta noite? – ela perguntou, animada, enquanto observavam o céu cheio de estrelas brilhantes.
- O quê? – ele respondeu.
- O que eu mais queria era ser uma espécie de astronauta lunática, para poder brincar de esconde-esconde nas estrelas.
Ele sorriu e disse, carinhoso – Romântica, hein? Esconde-esconde nas estrelas... nunca pensei nisso.
- Mas seria ótimo não? – ela disse sorrindo.
- Sabe o que eu mais queria, nesta noite? – ele retrucou, com receio.
- Adoraria saber – ela completou.
Ele olhou fixamente para as estrelas e nada disse.
- Então – ela insistiu.
- Nada. Não queria nada além do que já tenho.
- E posso saber o que você tem de tão importante assim?
- Você fala demais, sabia? – ele brincou, para depois beijá-la carinhosa e devastadoramente, dispensando palavras. Apenas dispensando palavras.


12.11.03

soco na cara...apenas um soco na cara. Não é delicioso escrever sobre eles?
PELO RESTO DOS SEUS DIAS

"Pelo resto dos seus dias, você vai ter que conviver com a incerteza de não ter experimentado. Pelo resto dos seus dias, você vai ter que conviver com a lembrança de seus medos, desesperos, inseguranças. Pelo resto dos seus dias, você vai ter o azar de perceber, em algum momento, que eles foram longos, longos demais. Pelo resto dos seus dias, você vai temer a noite apenas por não querer sonhar. Pelo resto dos seus dias, você vai querer fugir. A cada dia, a cada minuto, a cada segundo. Enquanto houver sol e lua, você vai pensar no que não fez, no que deixou para trás por medo, por puro medo e pura besteira. Pelo resto dos seus dias, esse seu medo vai se tornar pavor e o pavor vai ser tornar fobia. Pelo resto dos seus dias, você vai perceber que a fobia da vida não tem cura. Pelo resto dos seus dias, você vai desejar ter começado tudo de novo. Pelo resto dos seus dias, você vai chorar em silêncio.

No último deles, você vai perceber tudo isso. Tenho certeza. Certeza absoluta. Só que aí, querida, já será tarde demais...tarde demais...

Beijos...até nunca
"

E, com os olhos vermelhos e insanos, ela jogou aquela maldita carta no chão, desabando no seu cativo rio de lágrimas e medos...

10.11.03

LUAS VERMELHAS

O quarto estava escuro. Escuro demais. Havia apenas um resto de vela, mas que, de tão pequeno, sequer era capaz de produzir uma centelha de luz decente. O quarto estava escuro. Tanto melhor – ela pensou – Assim, não preciso ver esse rosto triste, borrado, sujo, marcado. Assim não preciso ver minhas próprias lágrimas e minha própria incerteza, cruelmente estampada no meu rosto. Ela estava triste. Triste como nunca havia estado antes. Triste como ninguém jamais poderia imaginar. Triste como o mar sereno. Triste como um palhaço sem graça. O quarto estava escuro. Pelas paredes, as baratas fugiam do cheiro insuportável daquele incenso vagabundo. Tanto melhor – ela pensou – Assim, não preciso ver a que ponto cheguei, de que altura despenquei. Não preciso pensar no rascunho que me tornei. Não, caralho, não um rascunho, mas a própria fotografia de uma pessoa triste, sem vida. Uma pessoa só, sem objetivos, sem vontade, sem esperança, sem porra nenhuma. Uma pessoa com dor. Apenas com muita dor e pouca vontade de suportá-la. E ela chorava ainda mais quando pensava sobre isso. Poucas pessoas suportam a tristeza. Quase nenhuma suporta a dos outros.

A não ser em dias especiais. Em dias de eclipse. Em dias de luas vermelhas...de sangue, lágrimas, dor e fotos rasgadas...
AQUELE FOI O FIM

- Não há nada que eu possa fazer? – ele perguntou, ansioso.
Ela o encarou de uma forma desafiadora e respondeu, seca – Sim. Há algo que você pode fazer.
Ele apenas fez um gesto com a cabeça, esperando o que ela tinha a dizer.
- Sumir da minha vida. Pelo resto dos seus dias.
E aquele foi o fim.

6.11.03

APENAS UM DIÁLOGO

- É tudo tão triste e sórdido - ela disse.
- O mundo é assim. As coisas são assim. As pessoas, caralho, são assim - ele respondeu, lacônico e um tanto amedrontado.
Ela o encarou de um modo desafiador, sutil, irônico, nervoso, irado - Mas você não deveria ser. Você não deveria ser assim.
Ele abaixou a cabeça, fugindo do seu olhar devastador e sussurou - Mas sou. Sou exatamente assim. Triste e sórdido.
- E idiota - ela acrescentou - E um tremendo idiota.

E ele apenas chorou...como se isso pudesse mudar algo na sua vida...como se isso pudesse mudar algo

31.10.03

ESTRELAS ROUBADAS

Roubar estrelas não é crime e nunca foi. Assim como roubar o brilho da lua. Esse tipo de ação decorrente da própria falta de bom senso de quem ama. Rouba-se o céu, o sol, o sal, o mar, enfim, o próprio coração e a alma das pessoas. Então, roubar estrelas não é crime e nunca foi.

Crime é destruir uma paixão. Apenas para não querer sofrer, apenas para fazer sofrer.


30.10.03

LO(VE)NDON CALLING

O corpo dos dois parecia derreter, tamanha a excitação, tesão, volúpia, desejo e vontade que impregnava o ambiente naquele quarto. O suor transbordava por cada poro de cada corpo. Por cada poro. Por cada corpo. Ele estava absolutamente enlouquecido, extasiado. Ela, por sua vez, estava em uma espécie de transe, de delírio. Mãos e bocas e seios e pernas e coxas e dedos e lábios e línguas e beijos e saliva se encontravam. Sem parar. Sem parar. Contínua e sofregamente. O bouquet que pairava no ar era o de uma espécie de vinho raro. Beleza rara. Ela sentia o seu gosto na sua boca. Na dele e na sua própria. Ele sentia seu corpo no dela. Sutil, intenso, integrado. Suor e paixão e delírio e toques e gemidos. Sexo ou amor, ou seja lá o que isso quer dizer...

...

E eles deitaram e ficaram quietos, respirando o silêncio.

Por pouco tempo. Por pouco tempo.

Ela, agitada como sempre, gargalhou brava e abruptamente e ligou o velho aparelho de som nos últimos decibéis.

- Que música improvável para o momento, não? – ele falou, sorrindo e acariciando os seus cabelos.
- The Clash? – ela respondeu, elétrica – London Calling? ´magina, música calma para pessoas felizes – ironizou.
Ele sorriu ainda mais e emendou – É, mas, provavelmente os meus pais ou os meus avós costumavam ouvir alguma big band embriagada neste pós-gozo, se é que escutavam alguma coisa, claro, além de fumar e fumar e fumar, naquele chavão tão adorável da vida comum.
Ela o olhou feliz e respondeu, linda - Olha, pode parecer a coisa mais ridícula que você já ouviu nessa vidinha besta. A coisa mais cafona e sem noção, porém, querido, pode apostar que nada é improvável num momento desses. Nada. Improváveis? Somente nós podemos ser.
LUGAR COMUM

Ele tirou repentinamente a mão da sua coxa... “ela não gostou...”.

Ele tirou repentinamente a mão da sua coxa... “ele não gostou...”

E, no fundo, ambos gostaram. Sobrou apenas o medo. E não é sempre assim?

24.10.03

Prometo que me recupero, escrevendo um conto bonito, bem bonito...
vocês me perdoam quando eu não respondo aos comments ou quando demoro para responder e-mails?

Por favor? (fazendo cara de manha) hehehe

21.10.03

ESSES SÓRDIDOS SALÕES DE FESTAS

Ele podia sentir a fumaça penetrando lentamente os poros das suas narinas. Amarga. Azeda. Crua. Como a vida. Ele podia sentir a densidade do momento, apenas pela maldita fumaça entorpecendo as suas narinas. Decidiu acender mais um cigarro. Preferia o próprio odor por ele produzido a aquele cheiro de hipocrisia, bourbon barato e esperma contido, sufocado, preparado. A noite era escura; as luzes, negras; e, as flores, coloridas. O salão, esfumaçado. Havia freiras e padres por todos os lados, dançando animadamente ao som de uma big band qualquer. Freiras putas, padres imaginários, pessoas comuns, pessoas vãs preocupadas com perfumes que, de santas, ah, que de santas nada têm. Nada. Porra nenhuma. E ele estava cansado de tudo aquilo. Cansado como o sol deve ficar por todo dia ter que nascer para fazer a vida feliz. Para fazer a vida girar. Ele queria ser a corrente marítima que dilacera, quebra e mata os incautos e conforta os divinos. Ele queria ser a morte que surpreende e entristece os tolos, porém eterniza os escolhidos. Ele queria ser qualquer coisa naquele momento, que não apenas um mero idiota com um cigarro mentolado no canto da boca, celebrando o nada, celebrando a alegria que lhe foi roubada. Ele podia, enfim, sentir a fumaça penetrando lentamente os poros das suas narinas. Naquele salão de festas de merda, ele podia perceber as imagens da linda moça vestida de noiva, rasgando a sua retina. As imagens da linda moça ruiva vestida de noiva, que um dia foi toda sua... somente sua... não fosse a estupidez e insensatez que exalava de seu suor, de seu cheiro, de suas lágrimas... que não eram poucas. Não nesta noite.


17.10.03

O CLUBE DAS GAROTAS PERDIDAS

- Sabe o que eu acho Teka? – perguntou Lena, enquanto acendia mais um cigarro naquela mesa do Clube Varsóvia.
Teka, já esperando os costumeiros sermões da amiga, a olhou com apreensão, enquanto virava um gole da cerveja que restava naquele copo americano – Lá vem porrada. Diz.
- Você se preocupa demais. Demais. Muito mesmo. Caralho! – gritou - Por que você, uma vez na sua vida, não deixa as coisas acontecerem? Por que você precisa sempre estar na frente quando o assunto é dor, tristeza, ansiedade ou insegurança? Pode me dizer? Isso não faz sentido, não tem razão de ser.
- Lena querida, você não entende, não? Você simplesmente não entende. Isso porque a sua vidinha é perfeita, seus amigos são perfeitos, seus sonhos são perfeitos. Você é linda, interessante, inteligente, enfim, uma mulher admirável.
- E? – perguntou Lena, mostrando puro descaso com tais elogios.
- Conhece aquela canção que diz mais ou menos assim “... você está perdida garotinha / eu sei que você sabe o que fazer / impossível? / sim, mas verdadeiro ...”? – cantarolou, absolutamente desafinada e numa tradução livre, a canção “You´re Lost Little Girl” de The Doors.
Lena, rindo da amiga, disse – Nossa, como você canta mal. Conheço sim. E...?
- E então que isso não é verdade. Eu simplesmente não sei o que fazer. Simplesmente não sei.
- Conta comigo Teka –disse a amiga - Bem vinda ao clube das garotinhas perdidas. Quem sabe, juntas, seja mais fácil achar qualquer caminho.
- Quem sabe - emendou Teka, sorrindo com a amiga.


...contos fantásticos...vou pensar nisso...

16.10.03

SADOMASOQUISMO

Ela adorava seduzir e destruir. Adorava. A idéia de ter um poder quase sobrenatural sobre todos os homens a enlouquecia, a envaidecia, a excitava, a deixava má, cruel, sarcástica, fria, insensível. Ela adorava seduzir e destruir. Adorava. A volúpia de seus desejos era quase inacreditável. Quase inacreditável. E por isso mesmo ela sempre pensou que conseguiria alcançar todos os seus objetivos e ser poupada de todo o tipo de dor, apenas seduzindo e destruindo. Apenas com os seus lindos cabelos amarelados, suas unhas vermelhas, seus olhos azuis, sua tatuagem discreta, suas botas de couro, seus decotes generosos, seus cigarros sujos de batom, seus copos de vodka e seus delírios insanos. Mas, é óbvio que todos podemos cometer erros. E, infelizmente, para ela, cometeu o pior de todos os erros. E esse tipo de coisa jamais poderia ocorrer. Jamais. Um erro crítico. Um erro patético. Um erro fatal. Um erro miserável. Um erro vagabundo. Um erro lamentável. Um erro. Apenas um erro e foi o que bastou para ela perceber que não adianta charme, glamour, classe, autoconfiança, segurança, lindos cabelos amarelados, unhas vermelhas, olhos azuis, tatuagens discretas, botas de couro, decotes generosos, cigarros sujos de batom, copos de vodka e delírios insanos para protegê-la eternamente da dor. Não, isso simplesmente de nada adianta.

O erro que ela cometeu? Apaixonou-se louca e grandiosamente. Simplesmente isso.


E se eu escrever sobre ardentes casos de amor?
OLHOS FRIOS

- Tudo bem? – ele perguntou, assustado com os olhos vermelhos e inchados da namorada.
- Não sei – ela respondeu, inquieta.
- Como assim, não sei? – ele disse, confuso – Ninguém chora à toa.
- Não? – ela disse, sem alterar seu sereno tom de voz – Tem certeza?
E ele a olhou com os seus lindos olhos verdes frios ... assustado por perceber que já a havia perdido.

13.10.03

O QUE VOCÊ FAZ QUANDO SE SENTE ASSIM?

Ele estava sozinho. Bem, na verdade ele sempre esteve sozinho. Sempre. E hoje não era diferente, óbvio. Ele estava, mais uma vez, apenas sozinho. Nesta noite de sábado. Nesta noite fria. Nesta noite chuvosa. Ele estava sozinho, tendo como companhia apenas os seus amigos abstratos e inanimados. Tendo como companhia apenas os seus medos, os seus livros, os seus discos, suas fotos, seus desejos, suas vontades, suas idéias, suas intenções, seus cigarros, suas drogas, suas tatuagens, seus remédios, seus poemas, suas lágrimas. Bem, talvez ele não estivesse tão sozinho assim, mas, no fundo, não era nada disso o que ele queria. Ele queria, na verdade, estar em algum lugar vivo. Rodeado de amigos e conversas e goles de bar. Ele queria, na verdade, estar com o coração lotado de sangue. Lotado de amor ou paz ou gozo ou seja lá o que lhe desse vontade de continuar alive and kicking. Alive and kicking and loving. E ele não estava assim naquela noite. Ele estava apenas triste. E olhando através da janela do seu quarto, molhada pelas gotas gordas de chuva que caíam sem parar, ele pensou por que raios não tinha com o que se ocupar e por que raios ficava sempre esperando... sempre esperando alguém lhe chamar... mesmo um alguém desconhecido que jamais faria isso. E ele não sabia o que fazer quando se sentia assim. E as malditas lágrimas, essas filhas de uma puta, não o deixavam esquecer por um minuto sequer, que ele simplesmente não sabia o que fazer quando se sentia assim...


Posso dizer uma coisa? Adoro isso aqui. Adoro estar aqui. Vocês são ótimos amigos. Obrigado...
QUE DIFERENÇA FAZ?

- Você sabe a diferença entre a dor de perder alguém e a dor de nunca ter conhecido alguém? – ela disse, desesperada.
Ele permaneceu em silêncio, triste, apenas encarando o chão.
- Quando você nunca conhece alguém, o ódio não passa a ser o seu melhor amigo quando esse alguém vai embora.

9.10.03

QUANDO AS GARRAFAS NÃO PRODUZEM ESTILHAÇOS

- Olha só, está vendo? Na ponta dos pés – ela disse, quase gargalhando e com a voz mais turva possível.
Ele sorriu vendo aquela garota linda, de cabelos escuros como a noite, tentando se equilibrar sobre uma garrafa de champanhe das mais vagabundas em uma praça deserta de algum bairro residencial e chato da cidade - Você está bêbada, querida. Pode se machucar. Melhor parar.
- Feliz ano novo! Feliz ano novo. Feliz ano novo para todos os imbecis do mundo – ela gritava - Eu falei que devíamos viajar. Quem mandou ficarmos nessa porra de cidade nessa data tão fucking special? Agora é isso. Você vai ter que aturar a sua melhor amiga aqui, completamente bêbada e transtornando a sua vida – ela emendou, irônica.
- Bem, ao menos você está tornando um pouco mais divertido esse pé no saco de reveillon – ele concordou.
- Obrigado. Obrigado. Uma salva de palmas para mim. Eu mereço.
- E cá estamos nós. Na primeira madrugada do ano. Ouvindo fogos e gritos idiotas e buzinas descompensadas e sirenes de emergência e sambas enredo insuportáveis. Mais uma vez, sozinhos. Mais uma vez, bêbados. Mais uma vez, contando só um com o outro – ele disse, enquanto acendia o décimo cigarro da noite.
Ela desistiu da garrafa de champanhe, ajoelhou na grama úmida pela noite e o encarou de um modo fixo, curioso, tentando não parecer muito bêbada.
- O que está olhando? – ele perguntou.
- Posso te falar uma coisa? Você jura que morre aqui. Entre nós? – ela pediu, séria.
- Claro. Óbvio. Primeira promessa de ano novo – ele brincou.
- Não. É sério – ela disse.
- Claro. Pode dizer. Morre aqui. Entre nós.
- Em determinado momento desse ano, eu pensei, quero dizer, eu tive a certeza de que jamais veria um outro ano novo, um outro reveillon. Eu tive a certeza de que não teria mais essas pequenas sensações. Esses pequenos prazeres. Não havia nada disso em minha mente, só a certeza de que eu não teria mais nada. Entende?
Ele consentiu com a cabeça, triste.
- Então, eu preciso te dizer – ela continuou – Que eu só estou aqui agora por sua causa. E as marcas de barro e grama no meu corpo são bem mais felizes do que qualquer outra marca que eu poderia fazer. Devo isso a você. A alegria de estar bêbada num reveillon nesta cidade insuportável. Obrigado. Mesmo.
Ele não disse nada. Com lágrimas nos olhos apenas jogou um beijo no ar, prontamente “agarrado” por ela.
Ela se levantou imediatamente, tentou esconder as lágrimas e disse, rápida - Ei, veja. Na ponta dos pés novamente – gritou, voltando mais uma vez a sua atenção para a garrafa de champanhe.
- Que tal abrirmos uma nova? – ele sugeriu – Celebramos e aposto que nessa, depois de vazia, você consegue subir.
Ela apenas sorriu e disse - Com certeza... com certeza... basta você estar por perto...

3.10.03

O QUE FAZEMOS COM VELHAS FOTOS?

- Então estamos finalmente reunidas nessa mesa de bar aqui no Clube Varsóvia? A gangue das três – disse Clara, com um sorriso genuinamente feliz.
- Como a vida muda, não? Costumávamos fazer isso sempre. Agora, nunca nos vemos e tampouco nos falamos. É quase um milagre esse nosso encontro – retrucou Leca – Ainda mais depois de tudo o que aconteceu. Depois de tudo o que dissemos.
- É mesmo. Como a vida muda – concordou Ana.
- Tem razão. E o pior de tudo é que eu não sei qual foi o atalho viciado que tomamos. O que deu errado, o que aconteceu? Eu não tenho essa noção. Alguma de vocês tem? – perguntou Clara.
- Melhor deixar isso para lá. Nossos erros, medos, verdades e defeitos. Erramos? Foda-se. O que importa é que estamos juntas essa noite. Isso é o mais legal – disse Ana, tentando desviar o assunto.
- Você está certa – concordaram as outras.
- Vamos brindar então. Vodka e mais vodka – gritou Leca.

E as três amigas ficaram sentadas naquela mesa do Varsóvia durante horas a fio. Conversaram e sorriram e colocaram os assuntos em dia. Mataram uma saudade intensa. Uma saudade dolorida. Uma saudade inevitável.

- Então vamos? – disse Ana, enquanto acendia um último Marlboro.
- Nossa. Já é quase quatro da manhã. O tempo voa, caralho – concordou Leca – Mas foi ótimo.
- Esperem. Eu tenho um presente para vocês.
- Hehe. Essa é a nossa Clara. A sempre amorosa Clara – brincou Leca.
- Tomem – disse, enquanto entregava para as duas uma foto Polaroid antiga, em que as três apareciam juntas, abraçadas, felizes, sorrindo. Como irmãs. Como verdadeiras amigas – Pelo menos na foto estamos bem. Eternamente bem.

E as três ainda ficaram ali no Clube Varsóvia por mais algum tempo, apenas observando aquela pequena foto antiga. Sem prometer nada uma para a outra. Sem esperar nada uma da outra. Apenas observando o seu adorável passado, sem saber o que esperar do seu nublado futuro. Apenas sem saber.


QUEM ATENDE OS SEUS DESEJOS?

- Corre Estela – ele disse – Vem ver.
- O quê? – ela retrucou – Que afobação é essa?
- Olha ali. Lá no alto. Uma estrela cadente – ele disse, animado – Faça um pedido.
Ela ficou quieta por alguns instantes e respondeu – Já fiz.
- Espero que se realize – ele desejou, antes de beijá-la.

- Corre Estela – um outro “ele” disse, anos depois.
- O quê? – ela retrucou – Que afobação é essa?
- Olha ali. Lá no alto. Uma estrela cadente – o outro “ele” disse, animado – Faça um pedido.
Ela respondeu de pronto – De forma alguma. Detesto pedidos e desejos e estrelas cadentes. Tudo bobagem.
- Tudo bem – o outro “ele” concordou – Eu já fiz o pedido por nós – finalizou, antes de beijá-la.
Alguém já quis simplesmente se esconder?

1.10.03

QUANDO SEMPRE FALTA ALGO...

Era quatro e meia da manhã. O bar estava quase vazio. Quase. Havia uns poucos clientes espalhados aqui e acolá, todos sendo servidos por garçons cansados e exaustos que mal podiam esperar para vê-los pelas costas.

Diferentemente dos demais, ela estava sozinha. Como sempre. Lá estava ela, ainda mais uma vez, sentada e acompanhada apenas por seus cigarros, seus pensamentos, sua tequila e seus papéis.

Estava escrevendo sem parar desde que chegou. Escrevendo e escrevendo e escrevendo. Palavras desconexas, palavras coloridas, palavras doces, palavras confessionais. Ela estava escrevendo uma carta para alguém. Uma pessoa querida, bastante querida. Ela sabia que naquele texto estava toda a sua declaração de amor por aquela pessoa. Toda. Não havia sequer uma palavra a mais do que o necessário. Tudo o que ela sempre quis dizer a ele estava lá, naqueles pequenos guardanapos amassados de papel vagabundo. Entre tragadas de cigarro sem filtro e goles de tequila barata, ela dissecou toda a sua vida, todo o seu amor, toda a sua dor. Aproveitou que estava quase embriagada. Aproveitou para afastar o medo e escrever tudo aquilo que sempre sonhou. Aproveitou o bom senso turvo e decidiu se abrir. Como nunca. Como sempre quis.

Ao final do décimo guardanapo, ela decidiu ir embora. Com os olhos vermelhos e cansados e cheios de lágrimas ela decidiu ir embora.

- Ei moça... – disse o garçom, enquanto ela saía do bar.
Ela se virou e perguntou – Eu?
- Isso mesmo. Você esqueceu isso – ele disse, apontando para os guardanapos escritos.
- Pode deixar aí mesmo – ela respondeu, disfarçando as lágrimas.
- Ué. Não entendi. Você passou a madrugada toda escrevendo nesses papéis e agora vai embora, deixando-os aqui. Jogados no lixo. Isso não está certo.
Ela o olhou com um sorriso terno e disse – Então não jogue fora. Isso é mais ou menos como uma declaração de amor. Dê para alguém que você ame.
Ele olhou-a desconcertado e perguntou, confuso – Mas, porque você não a entrega para quem você escreveu?
Ela apenas sorriu e disse tranqüila antes de sair em definitivo do bar – Entregue para alguém que você ame. Apenas entregue para alguém que você ame. E tenha uma boa sorte com isso. E tenha uma boa sorte no amor...
DOCES ASAS OBSCURAS

Tudo o que ela queria era que um anjo aparecesse e lhe acolhesse em suas asas. Asas doces, delicadas, gentis e seguras. Asas eternas, perfeitas, poéticas e fortes. Isso era tudo o que ela queria. Do fundo do seu coração. Do fundo da sua alma. Mas, infelizmente, ela acreditava que esse anjo jamais apareceria. Não, definitivamente ele não apareceria - ela costumava pensar. Nunca em minha vida. Nunca em minha própria vida. Não tenho tanta sorte.

A verdade é que por ela ser apenas pessimista e descrente da sua própria vida, sempre desejando a dor, ela jamais percebeu as pequenas plumas caídas no chão, sempre ao seu lado. Sempre por perto.

Pobre dela...


29.9.03

teste

25.9.03

Meus dedos doem. De tanto teclar. E no monitor não aparece nada. Apenas palavras desconexas e sentimentos doloridos. Sentimentos extremamente doloridos. Não me deixem esquecer como é bom escrever...como é bom escrever...
OUVINDO O SOM DO MAR (AMORES POSSÍVEIS OU NÃO)

- Ouve – ela disse, tranqüila.
- O quê? - ela perguntou.
- O som, o barulho, essa sinfonia, essa música deliciosa – ela respondeu, sorrindo.
- Mas não há música alguma por aqui, querida. Estamos sozinhas nesta praia. Eu, você, o céu cinza, nossos medos e esse mar bravo.
- Então... o mar bravio. O som do mar. Apenas isso – ela retrucou, sem tirar os olhos do oceano – 7:15 da manhã. Você não acha essa a música mais deliciosa que poderíamos ouvir? A música mais romântica? – sorriu.
Ela olhou para ela com carinho e disse, calma e sorrindo – Você não desiste, não?
Ela retribuiu o olhar delicioso e respondeu – Não. Não desisto mesmo. Vou te amar para sempre. Quer você queira ou não. Quer você tenha medo ou não. Quer você rejeite isso ou não. Pode ter certeza.
E ficaram por lá, como duas estranhas, como duas amigas, apaixonadas, ouvindo o barulho do mar. Apenas ouvindo o barulho do mar.
SOCOS E CINZEIROS SUJOS

A crueldade nunca lhe caiu bem. Quero dizer, a crueldade nunca lhe caiu bem, porque, na verdade, a crueldade não fazia parte dela. De modo algum. Porra, ela sempre foi uma pessoa incrível, uma ótima amiga, uma filha gentil, uma ouvinte atenciosa, uma namorada carinhosa, enfim, uma pessoa adorável. Sem vícios, sem defeitos, sem maldade. A crueldade nunca lhe caiu bem, com certeza, mas ela estava de saco cheio disso.

No fundo - ela me disse aquela noite – estou de saco cheio de ser vista como uma pessoa educada, sensível, gentil, o caralho. Quero que me vejam como sou, com meus defeitos, com meus erros, com meus problemas. Quero que saibam que eu fumo, que eu já tomei drogas, que eu bebo tequila de uma forma descompensada, que eu quero fazer uma tatuagem, que eu gosto de rock barulhento, cheio de guitarras e ruídos, que eu faço sexo constantemente, enfim, que eu sou apenas uma pessoa. Quero ser eu mesma. Apenas isso. Estou de saco cheio de ser boa e de as pessoas terem uma expectativa, sempre vulgar e tola e fútil, a meu respeito. Estou de saco cheio disso. E você, querido – disse irônica – definitivamente não faz parte disso. Do que eu quero. De tudo o que eu quero para mim.

A crueldade nunca lhe caiu bem. E, ao contrário, tomar socos na cara sempre foi a minha especialidade. Entre lágrimas, vodka e cinzeiros sujos.


...então, LET´S ROCK...demorei, mas voltei...

19.9.03

Pessoas podem QUERER ser tristes? Isso não machuca demais?
... e então o tempo voou e eu mal consegui fazer qualquer coisa essa semana. E meus textos e minhas idéias ficaram suspensas. Esperando. Esperando o momento de eu transformá-las em palavras...e vou fazer isso. Se quiserem esperar...

16.9.03

O texto abaixo é sobre um segundo beijo perdido. Isso em razão de eu já ter escrito, certa vez, sobre um beijo perdido (quem não leu precisa vasculhar esses arquivos, mas no blog antigo, aliás). Falta de criatividade é isso...repetição de temas...mas o que eu posso fazer se eles são tão "reais" e "vivos", não é?
O SEGUNDO BEIJO PERDIDO

Eles estavam bêbados. Bem, na verdade eles estavam “quase” bêbados. A quantidade de vodka e de cerveja que eles haviam consumido e ingerido naquela noite chuvosa e fria dava para afogar até mesmo o herói aquático dos desenhos infantis dos anos setenta, Namor, “O Príncipe Submarino”. Mas isso não importava ou importava muito pouco naquela noite. O que fazia a diferença é que ambos estavam alegres e sorrindo e felizes. Como há tempos não ficavam. E, porra, não podia ser diferente. Eles eram amigos há “séculos”. Desde a época em que ela era a garota prodígio e ele o vilão da escola. E agora ela morava sozinha e eles, como não podia deixar de ser, continuavam amigos. Sempre juntos, sempre ajudando um ao outro, sempre por perto. Que mal há nisso? Nenhum, desde que eles mantivessem sempre bem guardados os seus segredos, os seus medos, os seus sonhos perdidos, os seus desejos recolhidos e as suas vontades sufocadas. Desde que eles tomassem os cuidados devidos...

- Não agüento mais a ausência de nicotina no meu corpo, me dá um Marlboro? – ela pediu, manhosa.
- Você está bêbada – ele gargalhou – Para quem parou de fumar, esse sétimo cigarro da noite é um péssimo sinal, não?
- Foda-se. Foda-se tudo. Foda-se o mundo, o sistema de saúde, os grupos antitabagistas, seja mais o que for – ela sorriu, acendendo o cigarro – A partir de hoje, só vou fazer o que EU quiser, pode ser? Se, por acaso, eu quiser fumar um pacote inteiro de cigarros, que assim seja. Cansei de fazer o que me mandam, o que me pedem, o que me induzem. Simplesmente cansei. Fácil assim.
Ele a observou com um carinho todo peculiar. Sabia o que ela queria dizer. Sabia das suas necessidades. Sabia que ela PRECISAVA viver – Vá em frente. Viva. Você sabe que eu quero que você seja feliz. Muito feliz. Você sabe disso.
Ela o encarou atentamente, após perceber toda a delicadeza e o carinho contido nas suas palavras e a beleza estampada no seu olhar. Ele realmente se importava com ela. E isso era muito especial – Você me ama? – ela perguntou, abrupta, rápida, direta, sem perceber.
Ele continuou com os olhos fixos na fumaça do seu cigarro. Sentiu seu sangue congelar por inteiro. Sentiu seu coração simplesmente bater numa velocidade alucinada. Sentiu sua voz fraquejar – Amo. Claro que amo.

Ambos se olharam fixamente, expressando um amor pouco visto. Um carinho raro e especial. Ambos se olharam fixamente e pareceram congelar no tempo, congelar no espaço. Tudo aquilo durou segundos, instantes talvez, mas rápido demais até ele dizer, confuso – Preciso ir para casa.

Ela o olhou com desespero e consentiu com a cabeça. Permaneceu deitada no sofá, apenas o observando, enquanto ele pegava o seu casaco e sumia pela porta.

O beijo perdido mais uma vez se fez. Um beijo que nunca foi dado. Um beijo que nunca foi dado...para tristeza de quem ama...


TRUE STORIES

- Alô? Pedro? – ela disse, com fina ironia na voz.
- Alô. Isso. Quem fala? – ele respondeu, sem conseguir disfarçar a surpresa e a decepção.
- Ora, já me esqueceu? Assim, tão fácil? Não esperava por isso – ela continuou, com a voz ainda mais mordaz – Depois de tantos bons momentos. Sei que foram curtos, mas você disse que foram ótimos.
Ele ficou em silêncio por poucos instantes e disparou – Claro que sei quem está falando, Carla. Claro que sei. Como está? – ele disse, nervoso, bastante nervoso.
- Eu vou bem. E você? Melhor?
- Indo. Como eu te disse, todos aqueles problemas andaram me tirando o sono. Mal saio de casa – ele afirmou, com muita convicção.
- Coitado. Mal sai de casa? Que tristeza. Logo você, um baladeiro de primeira – ela retrucou, direta.
- Espero que você não tenha ficado chateada comigo. Não deu mesmo para te ligar esses dias. Eu estou aqui em casa, atolado em serviço. Não bastasse tudo, ainda mais esse tipo de problema. Excesso de trabalho.
- Fico chateada por você. Quem sabe não nos vemos qualquer dia desse, não é? – ela provocou.
- Espero que sim. Não vejo a hora.
- Me diz uma coisa, você está em algum bar? – ela perguntou, arisca.
- Não. Claro que não. Não te disse que estou em casa, atolado em serviço – ele reagiu, indignado e nervoso. Bastante nervoso.
- Curioso. Bem curioso. Eu poderia jurar que você está em algum bar nesse exato momento.
Ele riu atônito e disse – Você está louca ou bebeu demais. Não sei qual das duas hipóteses, mas com certeza uma delas.
- Tem certeza? – ela insistiu.
- Claro que tenho pó – ele respondeu irritado.
- Então tudo bem. Mas posso te pedir dois favores?
- Claro.
- Então tá. Da próxima vez não vá a um boteco com essa ridícula camisa amarela e, por favor, não me ligue nunca mais. Otário.
E ele se virou, com cara de idiota, percebendo a presença dela no bar. Com absoluta cara de idiota...

12.9.03

Esse blog ficou meio movimentado nos últimos dias. Mais do que o normal. Bem mais do que o normal. Quem frequenta esse espaço sabe que sempre houve uma cumplicidade, uma unidade, uma espécie de troca (deliciosa troca) entre as minhas palavras e a atenção de vocês.

E no meio dessas semanas, eu lamento não ter tido o tempo e nem a oportunidade de agradecer como se deve a todas as pessoas que entram aqui e as palavras bacanas que eu recebo, seja através de comments, seja através de e-mails.

Então, eu aproveito a agora (sem querer ser cafona), para agradecer a todas as pessoas legais que entram aqui e perdem um minutinho do seu dia, lendo as palavras que eu jogo por aqui, tentando acertar o alvo...seja ele qual for...

Valeu...vocês não sabem como isso é bom e me faz bem...mesmo!!!

Beijos para quem é de beijos...
Abraços para quem é de abraços...


Bom final de semana...
BEIJANDO O CÉU

- Certa vez, quando eu era muito pequena, minha mãe me disse que bastava ter pensamentos bons para eu poder flutuar e beijar o céu – ela disse, chorando.
- E você conseguiu, não conseguiu? Bem ou mal... – sua melhor amiga perguntou, fazendo um carinho nos seus cabelos.
- Consegui. E perdi tudo. De uma só vez, como seu fosse uma imbecil.
- Mas você está aqui. Viva e sendo você.
- E fodida também. E a partir de hoje eu vou sufocar todos os meus bons pensamentos.

E sua amiga chorou junto. Querendo acreditar que ela ainda iria ficar bem novamente. Apenas querendo acreditar...

11.9.03

TUDO O QUE ELA QUERIA...

Tudo o que ela queria era ser importante para ela...

Os seus pensamentos flutuavam naquela noite. Ela estava absolutamente obcecada por Lúcia. Apaixonada. Mas não de uma forma sexual, romântica ou o que quer que fosse. Ela estava, na verdade sempre foi, fraternalmente apaixonada pela amiga. Ela realmente amava a sua amiga Lúcia. Queria ser como ela. Independente, decidida, objetiva, direta, moderna, fumante ativa, mochileira, enfim, Lúcia. Uma garota com a idade dela, com muito menos dinheiro que ela, porém com muito mais vontade de viver. Muito mais vontade de ser feliz. Lúcia era a antítese dela. Lúcia gostava de “tentar”, pouco importando se iria dar certo ou não. Lúcia gostava de viajar, pouco importando como chegaria ou voltaria do seu destino. Lúcia não tinha medo ou, se o tinha, disfarçava como poucos. Os seus pensamentos flutuavam naquela noite. Ela estava aflita e desesperada. Sabia que Lúcia não voltaria a ligar para ela. Não depois de tudo o que ela lhe disse, não depois de todas as acusações e mentiras e devaneios que ela havia cuspido na sua cara. Todos os seus acúmulos foram jogados na cara de Lúcia. E Lúcia não merecia isso. Por tudo o que já haviam vivido juntas, por tudo o que já haviam dividido. Lúcia foi a sua melhor amiga por muito tempo. Por muitas noites chuvosas, quentes, noites regadas a tequila, vodka, pinga, regadas a psicotrópicos, regadas a desejos, loucuras, sonhos e paixões. Lúcia foi a sua metade que deu certo. A sua metade que soube viver. Era por isso que ela se espelhava e desejava tão ardentemente ser Lúcia. Estava arrependida de ter falado tanta besteira naquela porra de noite. Arrependida, mas também magoada. Magoada porque, apesar de tudo, ela estava ferida. Amava Lúcia, mas não iria ligar. Não iria pedir desculpas. Não iria voltar atrás. Seu estômago apertou com tanto orgulho e desespero. Tudo o que ela queria, era ser novamente importante para ela...para aliviar toda aquela dor...toda aquela dor...


EMBRULHANDO A LUA PARA PRESENTE

- Então vamos combinar uma coisa? – ele perguntou, animado.
- O quê? – ela disse, curiosa.
- Quando eu conseguir alcançar a lua, voando, eu vou roubá-la e te dar de presente.
Ela sorriu com a idéia tola e infantil dele e disse, tranqüila – Mas se você roubá-la só para mim, o que os outros casais vão fazer? Ficar sem o luar? Não precisa.
Ele a olhou e a olhou e a olhou e a olhou e perguntou – Ué, não quer a lua? Não entendo. Não consigo imaginar um outro presente tão cool e descolado e romântico e apaixonado como esse.
- Eu sei de um – ela afirmou, categórica – Tá certo que pode te dar ainda mais trabalho do que o presente lunar.
Ele a olhou intrigado e disse – Posso saber qual?
- Você. Basta você se entregar e me amar. Completa, total e absolutamente.
Ele sorriu e disse, carinhoso – Maldita vodka. Você está bêbada.
- Apaixonada – disse, encerrando o assunto e o beijando, a forma perfeita de dizer “eu te amo”...

10.9.03

SAUDADES ADORAVELMENTE DESCONHECIDAS

- E então Grasi? Nunca mais teve notícias da Isa? – Gustavo perguntou, enquanto acendia um cigarro e pedia mais um capuccino ao garçom do Clube Varsóvia.
- Não Gus, não. Já faz alguns meses. Ela deu uma desencanada. Sabe como são essas coisas né? - Grasi respondeu, também acendendo um Marlboro.
- Entendo assim, mais ou menos. É muita maldade sumir assim – disse Gus, com um sorriso.
- Ah, você não deve ficar chateado. Ela teve mil problemas. Eu nunca soube ao certo o que rolou, mas ela deu uma desencanada total. Uma sumida para recarregar as energias, para recarregar a vida. Ela deve estar flutuando por aí, no espaço, apenas para aliviar a dor, apenas para afastar os maus pensamentos.
- Eu sei, claro. Não fico chateado não. De forma alguma. Apenas gostaria de tê-la por aí, alive and kicking. Ela faz falta, não?
- Nem me fale Gus, nem me fale. Adoro aquela garota. Ela é divertidíssima. Nunca vi ninguém tão fascinada por tintura para cabelo de farmácia como ela. Muito embora morássemos em cidades diferentes, ela sempre foi muito importante para mim. Esperta, inteligente, carinhosa, interessante, enfim, uma pessoa adorável. Ela sempre me deu a maior força, sabia? Quando eu estive mal, com todos aqueles problemas e aquelas pílulas coloridas malditas, foi ela que estava lá, me escrevendo, me dando ajuda, me ligando, enfim, sendo uma puta amiga. Adoro essa garota.
- Tem razão. Ela é fucking, fucking great – disse Gus, gargalhando.
- Haha, ela iria adorar esse termo. Essa definição dela própria.
- Espero que sim.
- O curioso... – disse Grasi – ...é que vocês nunca se encontraram pessoalmente, né?
- É mesmo – consentiu Gus – Nunca tivemos oportunidade. Você sabe como foi, começou com aquele papo de ela ser sua amiga do interior e você falar de mim para ela e vice versa, daí conversamos por telefone quando você estava internada, daí falamos de uma amiga dela, a Clara, mochileira, daí passamos a trocar cartas e ficamos amigos virtuais, amigos de cartas escritas em papel e em nanquim. Como antigamente. Como nos tempos nada modernos. Nada dessas bobagens tecnológicas. Algo adoravelmente démodé. Foi ótimo. Trocamos grandes idéias naqueles papéis de carta.
- Engraçado – disse Grasi.
- O quê? – perguntou Gus.
- Não é estranho sentirmos saudades de quem sequer conhecemos?
- Mas quem disse que não a conhecemos? – ironizou Gus, com um sorriso – Quem disse?


ALGUÉM NOVO PARA SER VOCÊ

É bom inventar alguém novo para ser você

E ela disse isso, assim, na sua face. Sem o menor pudor, sem o menor constrangimento, sem a menor piedade. Não se importou se ele ia chorar, beber, se drogar, se matar, enfim, se desesperar por não mais tê-la. Por ter, finalmente, percebido que jamais voltaria a tê-la. E ele ouviu aquelas palavras duras soar como trovões dentro dos seus ouvidos. Como uma explosão de uma bomba muito barulhenta. Uma bomba cruel. Uma bomba mortal. O efeito conseguiu ser ainda pior do que aquele ruído infernal. O efeito foi devastador. Foi devastador. Ele se sentiu derrotado. Como há tempos não se sentia. Ele se sentiu acabado, aniquilado, destroçado. Não encontrava palavras em seu escasso vocabulário para fazer frente ao que ouviu. Não conseguiu dar o troco. Dar o tapa na cara que gostaria. Engoliu seco e sentiu seu coração batendo desesperadamente acelerado. Desesperadamente descompassado. Desesperadamente triste. Não chorou. Não, ela não o veria chorar. Lágrima alguma. Lágrima alguma. Ela não merecia isso. Mas, quando a porta do carro se fechou e ele ficou lá, sozinho, enquanto ela entrava na sua casa, ele percebeu que nem isso ela queria. Nem mesmo vê-lo chorar. Talvez fosse bom inventar alguém novo para ser ele próprio. Para ser ele próprio...

5.9.03

MELODIAS SURPREENDENTES

- Que barulho lindo é esse, mãe? – perguntou Lia, atenta a uma suave melodia que ecoava para dentro daquele idiota quarto de hospital.
- Deixe-me ver – disse a sua mãe, aproximando-se da janela – Olha só que maravilha. É um garoto tocando piano em um dos apartamentos residenciais aí da frente. Bem, com esse sossego que é essa rua, nem parece rua de hospital, só assim para ouvir essa belezinha. Você teve sorte.
- Sorte? É, tive muita sorte mesmo. Uma cirurgia de emergência, um corte gigantesco no corpo, uma recuperação horrível, uma beleza mesmo. Como sou sortuda.
- Bem, ao menos você está num hospital que tem trilha sonora. Uma agradável trilha sonora. Um garoto, que toca muito bem por sinal, ensaiando na janela em frente ao seu quarto. Eu acho melhor do que outras opções possíveis. Bem querida, eu já vou indo, você fica um pouco sozinha que eu já volto. Só vou pegar umas coisinhas em casa e já, já, estou de volta. Fique bem.
- Obrigado mãe. Até mais.

Assim que a porta se fechou, Lia pôs-se a escutar mais detidamente a doce melodia que maravilhosamente explodia em seus ouvidos, naquela altura, já bem cansados de todos aqueles barulhos metálicos e frios, típicos de um hospital. É, realmente ele toca muito bem – pensou, enquanto se ajeitava para dormir.

E após aquele dia, Lia adorava ficar sozinha no seu quarto, apenas para ouvir, em silêncio, o garoto tocar. Ela adorava aquele fio de música. Adorava e ficava sempre ansiosa, à espera da próxima canção. Ela tinha muita curiosidade em vê-lo, porém em todos os momentos que teve alguma oportunidade, ou ele não estava tocando ou não estava ao alcance dos seus olhos. De qualquer forma, seu passatempo predileto naquele quarto de hospital era imaginar como era o seu rosto, o seu corpo e as suas mãos suaves, dedilhando tecla a tecla aquele piano.

Depois de duas semanas, ela finalmente teve alta. Antes de ir embora, tentou uma última vez visualizar o seu desconhecido amigo. Não conseguiu, mas não ficou triste. Deixou ao acaso os desencontros.

Antes de deixar o hospital, ela pediu a sua mãe para comprar uma rosa e um pequeno cartão. Sem entender nada, a mãe fez a sua vontade. Ela escreveu um pequeno bilhete e pediu a mãe para deixar na portaria do prédio em frente. A mãe sorriu, já entendendo tudo. Porém, nada falou e fez o pedido.

- Vamos, Lia? – perguntou a mãe.
- Claro. Obrigado – disse a garota, não sem antes dar uma última olhada para trás para ver aquele pequeno prédio verde do menino pianista.

O bilhete? Era apenas um agradecimento pela força e poesia que um desconhecido deu, sem saber, para outro desconhecido. Coisa rara hoje em dia. Coisa rara de se ver. Coisas da vida.
Definição de saudade? Definição de saudade? Lembranças de momentos bons. É simples assim?

4.9.03



...me diverti muito hoje, com mudanças e estórias...gostei. Preciso ser menos impessoal, falar mais e escrever menos... os resultados são bons.



REGANDO GIRASSÓIS COM AMOR E SAUDADES

- Então é isso? – ela perguntou, quase aflita, com a voz distante.
- Creio que sim – ele respondeu, disfarçando a tristeza – Fique tranqüila, a viagem vai ser do caralho. Você vai amar. Você vai, estuda e, logo, logo, vai estar de volta e nós continuaremos juntos. Sempre juntos. E, afinal, nem é tanto tempo assim.
- Pô, seis meses é quase uma vida – ela disse.
- Não, relaxa, vai passar voando. E você tem razão, vai ser uma vida. A sua vida. A nossa vida.
Ela permaneceu em silêncio e ele emendou – Vá tranqüila querida, por favor. Você sabe que eu te amo e tudo o mais e pode apostar que quando você voltar eu vou estar te esperando. Pode estar certa.
- Você tem certeza que não quer ir ao aeroporto? – ela perguntou – Já estou quase saindo.
- Nós já conversamos sobre isso, não? – ele retrucou, firme.
- Tá bem, tá bem, não vou mais discutir isso. Bom, preciso ir. Nossas despedidas já fizemos. O resto vem depois – ela disse, já chorando.
- Fique bem querida. Você sabe que eu te amo e que vai dar tudo certo – Cuide-se e até a volta. E vai ser logo.
- Tchau. Te amo. Vou te ligar muito.
- Também. Te amo. Boa viagem.

E desligaram o telefone e caíram nas lágrimas. Os dois. Cada um no seu canto. Cada um no seu momento de vida. Simultâneos.

No dia seguinte, ele já estava de pé bem cedo. Resolveu dar uma volta pela rua antes de ir para o trabalho. Dar uma caminhada, um cigarro, um café na esquina. Assim que passou pela portaria do prédio foi abordado pelo porteiro, que segurava um dos mais lindos buquês de flores que ele já havia visto. Girassóis gigantes e lindos. Amarelos como a cor do seu cabelo. Amarelos como a cor do casaco cashmere preferido dela. Amarelo como o sol.

- Deixaram para você hoje bem cedinho. Tem um cartão aí – o porteiro disse, com um sorriso discreto nos lábios.
Ele segurou o buquê e respirou aliviado, esquecendo a vodka e a ressaca e a péssima noite que teve. O cartão dizia simplesmente “O vendedor me disse que esse buquê, se bem cuidado, dura uns seis ou sete meses. Simbólico, né? Cuide bem dele. Por favor. Eu estou levando um para cuidar também. Basta regar com saudade e não com lágrimas. Até a volta. E eu vou voltar. Com muito amor. Por toda a vida. Te amo... muito. Muito mesmo”.
Ele foi interrompido do seu gozo pelo porteiro - Nunca vi um troço desses. Mulher dando flores para homem. Esse mundo está perdido mesmo. Onde vai parar essa bagunça?
Ele olhou para o porteiro, feliz como nunca e disse, bem humorado – Ainda bem que o mundo mudou Seu João. Ainda bem. E o senhor não sabe o que está perdendo...




Estou contente. Olha o novo template que ELA fez para mim. Ficou bom? Eu gostei...qualquer reclamação não é comigo (rs).

Ficou cinza e bonito, como o dia de hoje...

Obrigado...

3.9.03



qual o livro mais triste do mundo? (apenas curiosidade...)


ei, eu vou escrever amanhã um conto sobre flores e pessoas com saudades...e isso porque estou morrendo de saudades de vocês...

29.8.03



DIAS ASSIM...CINZAS OU COLORIDOS

- Vamos desistir dessa porra de aula e rodar por aí? – sugeriu Caco, assim que Laura entrou no carro.
- Quê? – ela disse, ainda tonta pelo sono.
- Ah, confessa, essa uma idéia genial para essa hora da manhã – ajudou Nando, sentado com um cigarro no banco de trás do veículo – Pensa bem. Hoje é quinta feira, não estamos com a menor vontade de ficar trancados em uma estafante sala de aula, estamos com o tanque desse carro velho totalmente cheio, estamos com vários cd´s legais aqui e, melhor, temos que celebrar a sua viagem insana e inconseqüente que, lembre-se, será daqui pouco mais de um mês. Vamos embora. Hey Ho, babe, que pensa? – completou com um sorriso.
Laura olhou para os dois lunáticos, seus amigos de muito tempo e, com um sorriso bem menos amanhecido, sentenciou – Não precisa nem repetir. Vamos embora.

Caco ligou o carro e eles saíram acelerados, sem rumo certo, sob sorrisos e palavras. Rodaram e rodaram e rodaram e acabaram no litoral, numa praia deliciosamente vazia pelo dia totalmente nublado e chuvoso.

Ficaram por lá o dia todo. Beberam, fumaram, andaram, correram na areia, ouviram música, sorriram, sonharam, enfim, viveram, como todo dia deveriam viver, como todo dia poderia ser.

- Adoro dias cinzas de verão. Especialmente finais de tarde como esse. Adoro assistir a noite surgindo em dias cinzas – Caco disse, assim que os três amigos sentaram num tronco caído na areia – Acho tragicamente poético, deliciosamente vivo.
- Eu também – concordou Laura – Dias cinzas são confortáveis e, por mais estranho que possa parecer, transformam em coloridos todos os meus doloridos pensamentos cinzas. Minha vida nublada e aborrecida.
- O que é isso, Lalau? Enlouqueceu? – emendou Nando, contrariado - O que tinha que acontecer de ruim contigo já aconteceu, relaxa. Emprego perdido, vaga no ballet do Muncipal rejeitada, namorado roubado, família pirada, idéias perdidas, enfim, tudo o que se poderia imaginar e, pior, de uma vez só. Tudo ao mesmo tempo. Porra, nada mais pode te atingir querida – finalizou, sorrindo.
Laura fez um gesto gentil com a cabeça e, mexendo em seus longos e tumultuados cabelos vermelhos, retribuiu o sorriso, porém sem qualquer convicção.
- Ele tem razão Lalau, toda a razão. Detesto concordar com o Nando, mas, desta vez, ele tem toda a razão dessa droga de mundo. Você precisa acostumar-se. Essa É a sua vida - enfatizou. E se eles não entendem, que se fodam todos. Simplesmente que se fodam. O máximo que você pode fazer é divertir-se, e muito, com essa sua vidinha besta, porém adorável. Divirta-se. Sempre. De preferência, conosco – disse, quase gargalhando.

Ela abraçou os dois, com força e, segurando as lágrimas disse, contida – Vou sentir falta de dias cinzas em Londres. Com toda a certeza.
- Ei? – disse Nando, indignado e buscando esconder o desespero da despedida – Isso é impossível, impossível. O que mais tem em Londres são dias cinzas, querida.
Ela o olhou com carinho e disse, animada - Mas não dias como esse... definitivamente ... não dias como esse.





...sumi, mas já voltei...



GRAVANDO E APAGANDO MENSAGENS

Cansado, ele entrou em casa percebeu que havia mais de cinco mensagens telefônicas gravadas na sua velha secretária eletrônica. Ouviu parcialmente todas, na seqüência. Todas da mesma pessoa. Todas as malditas mensagens eram dela. Todas. Não chegou a ouvir nenhuma inteira. Apagava-as, tão logo ouvia aquela voz irritante no aparelho. Aquela voz irritante que tão bem ele conhecia. Desistiu do telefone, acendeu um cigarro e encheu um copo gigante de vodka. Sentado no escuro da sala descobriu, triste, que não sabia o que era perdão. Sorriu sozinho e respirou aliviado. Descobriu que melhor e mais cruel do que não saber perdoar, é não se importar com isso. Simplesmente não se importar.

22.8.03



QUANDO AS CARTAS SÃO DEVOLVIDAS POR AUSÊNCIA DE ENDEREÇO

Ela abriu sua pequena caixa de papéis antigos, textos mal escritos e fotos amarelas e feias, e mal acreditou na carta que encontrou...

“Então você se acha assim mesmo? Um misto de erros e trapaças e enganos e fracassos. Uma piada. Uma piada sem graça. Uma pessoa a quem ninguém leva a sério, nem mesmo você. Uma pessoa desprovida de qualquer capacidade de as pessoas gostarem de você. Uma pessoa que pensa que a solidão pode aliviar sua dor, sua dor em existir, sua dor por não amar, sua dor por não compreender que você não é o centro do universo e que as pessoas não querem ser sua amiga. Não, querida, você está errada. Você não é nada disso. Você apenas precisa aprender que a vida não é feita de inverno e dias cinzas. A vida é feita de sonhos, de sol, de noite, de fúria, de desejos, de energia, de sorrisos e, claro, também de coisas ruins, desagradáveis e incômodas. Mas, ora, você está viva ou o quê? Você precisa aprender a ser você. Apenas ser você. Ninguém pede mais do que isso. E se todos te tratam como uma piada e não percebem que você quer chorar e quer gritar, mande todos para o inferno. É lá o lugar das pessoas tolas. O que nunca foi o seu caso, muito embora você ainda acredite nisso.
Te amo


E ela sorriu. Não acreditou que havia escrito aquela carta e nem lembrava que ela ainda existia. A carta que ela escreveu para ela mesma, ainda adolescente, numa solitária tentativa de aquecer seu coração numa solitária noite chuvosa de inverno. E por mais que ela ainda gostasse da noite e dos tons cinzas, sorriu com carinho ao perceber que aquelas palavras somente fariam sentido agora, anos depois, numa quente manhã de verão...



...nunca fiz isso...uma continuação. Estranho...


A CONTINUAÇÃO DO CONTO ANTERIOR...

Após o silêncio, ele decidiu ir embora. Tão logo ele fechou a porta para sair da sua vida, ela permitiu a primeira lágrima escorrer inteira pelo seu rosto. E ela sufocou o grito, muito mais por ele ainda estar por perto e poder ouvi-lo do que pela ausência de vontade em pronunciá-lo. E ela entrou em desespero e pensou que estava tudo errado na sua vida. Na sua ridícula vida. Que, no fundo, porra, não era nada ridícula, era apenas como a de todos nós. E enquanto chorava, ela sentia como se tivesse tomado um dos maiores golpes da sua vida. Um golpe forte, um soco pesado e violento. Uma porrada daquelas que machucam, que deixam marcas, que causam danos, mágoas. Daquelas que ferem. Que faz sangrar. Ela sentia como seu supercílio estivesse aberto. Como se o sangue jorrasse pela sua tez. Como se o sangue jorrasse e a sua mistura com o rio de lágrimas que ela produzia, criasse uma espécie de tinta psicodélica, uma espécie de tinta triste, uma espécie de tinta escura, vermelho sangue, utilizada para criar quadros sombrios, rejeitados, infelizes. Ela jamais pôde imaginar que a verdade contida nas palavras dele seria capaz de combater o seu amor. Jamais. E ela ficou andando de um lado para outro na sala, chorando e fumando e chorando e fumando e bebendo e andando e pensando e chorando e sem saber para onde ir ou mesmo sem saber o que fazer. Até que a noite morreu, o dia nasceu e ela desistiu. Jogou-se no chão como nocauteada. Como uma lutadora derrotada, sufocada em ferimentos, cuspindo sangue e sujando o chão com o que sobrou dos seus dentes. E ela ficou deitada por horas até o sol bater em sua cara como se fosse uma caixa de primeiros socorros caindo do décimo andar. Mesmo ferida, talvez eu ainda possa lutar – ela pensou, esboçando um sorriso – Caralho, é lógico que eu vou lutar. Pelo resto da minha vida...


18.8.03



QUANDO O SOL DEMORA DEMAIS PARA NASCER E A LUA, CRUEL, NADA FAZ...NADA FAZ...

- Vamos dançar Nando? – Ciça disse, com um dos seus maiores sorrisos.
- Agora? Já é quase meia noite. Você quer sair? – perguntou.
- Não. Subimos no telhado do prédio. Situação não usual. Diversão garantida. Aproveitamos e dançamos admirando a cidade, as luzes, a noite, os prédios.
- Claro – disse Nando, levantando e pegando seu casaco.

E o edifício era daqueles antigos, típica construção dos anos sessenta, com um terraço gigante, enorme, cheio de pastilhas coloridas e com um amplo espaço vazio, perfeito para se admirar a noite, perfeito para danças noturnas, perfeito para sonhos românticos.

- Não acredito! – Nando disse, assim que chegou ao topo do prédio – Você colocou essas velas? E essas flores? E esse rádio? Ficou lindo Ciça...absolutamente lindo.
- Fico feliz que tenha gostado. É para você. Para nós dois.
- Ciça, eu preciso falar com você – disse Nando, sério.
- Depois querido, agora eu quero dançar.

E dançaram e dançaram e dançaram... por momentos que mais pareceram horas, eles dançaram felizes, quase como crianças.

- Nando? – Ciça disse, quase tímida, enquanto observavam o barulho da noite
- Sim?
- Nunca te disse antes, mas eu te amo...desculpe. Eu precisava dizer isso.

Depois de breves segundos de silêncio, ele respondeu – Ciça, Ciça... eu não sei o que te dizer. E eu não quero te machucar e eu não quero te ferir. E eu precisava ter tido coragem para ter te falado antes. Eu não queria ser canalha. Ao menos hoje não. Não podemos mais ficar juntos.
- Eu sei. Eu sei. Não precisa dizer nada.
- Ciça...eu não te amo. Ao menos não da forma como você gostaria.
- Eu já havia percebido – ela disse, tentando conter as lágrimas – Eu já havia percebido. Inútil tentativa de recuperar o que se perdeu. Desculpe-me.
- Nunca é inútil – Nando tentou animá-la – Nunca. Você fez o certo. Espero que não me odeie.

Ela o abraçou com força e disse, chorando baixinho – Sabe o que é mais irônico? No dia em que fui mais feliz, por ter tido a coragem de dizer tudo aquilo que sempre evitei, fui, também, a pessoa mais triste desse mundo. Por exclusiva culpa minha...por exclusiva culpa minha...
- Irônico... – ele afirmou, abraçando-a com força.

E ficaram ali, por horas, tristes e calados, esperando a noite sair de cena. Tristes e calados, tristes e calados...



13.8.03



Acrescentei alguns links de blogs bacanas que ando lendo...visitem...vale a pena

12.8.03



PALAVRAS E MANHÃS DE SOL

Ele abriu os olhos, devagar, e percebeu que provavelmente estava um puta sol naquela manhã de sábado. A claridade estava muito intensa dentro do quarto e, mesmo com a persiana fechada, dava para sentir o sol. Ele girou os olhos e deu um sorriso. Ela estava ao seu lado. Dormindo. Ele movimentou seu corpo devagar e saiu da cama sem fazer qualquer ruído. Foi ao banheiro, não sem antes admirar por alguns instantes o corpo dela, lindo, nu em sua cama. Ele estava feliz. Muito feliz.

Assim que saiu do banheiro, sua voz suave e doce e adoravelmente rouca preencheu o pequeno quarto.

- Já acordado? – ela perguntou, preguiçosa.
- Bom dia.
- Bom dia – ela respondeu, tentando cobrir parcialmente o seu corpo com o pequeno lençol de solteiro.
- É cedo ainda – ele disse – Não quer dormir mais um pouco?
- Não. Cansei.
- De dormir? – ele perguntou, com um sorriso.
- Não. Cansei de sonhar dormindo. Quero acordar. Quero viver. Quero gritar. Quero dar as boas vindas ao nosso amigo sol – ela respondeu, feliz.
- Então faça isso, querida. Então faça isso. Dá para começar hoje. Está um lindo dia de sol – ele disse, enquanto acariciava os seus cabelos – Vou preparar o café.

E enquanto vestia uma camiseta antiga qualquer, ele escutou, atrás dele, aquela voz suave e doce e adoravelmente rouca dizer baixinho, num tom quase inaudível – Te amo.
Ele virou-se surpreso e, com os olhos brilhando de luz e quase lágrimas, disse – Como?
- Eu te amo senhor Carlos Eduardo, vulgo Cadu. Eu descobri que simplesmente te amo. Preciso dizer mais? – emendou, alegre.
Ele caiu sobre a cama e disse, feliz – Parece um sonho, sabe? Eu preciso te dizer que eu também te amo? Depois de todo esse tempo?
Ela sorriu e respondeu, tranqüila, abraçando-o com muito amor – Claro que não. Seus olhos já me disseram tudo. Já me disseram tudo.



BOA VIAGEM

POR FAVOR, USE OS HEADPHONES
(DEUS - SERPENTINE)


- Então é isso Bia? – Gloria perguntou, com uma certa tristeza no olhar.
- Receio que sim. Receio que esse é o momento de dizermos “até a volta”. E pode apostar que eu vou voltar. Quando? Não sei, mas vou voltar.
- Vai me escrever, pelo menos?
- Claro que sim Glorinha. Claro que vou. Uma carta por cada sentimento que eu tiver que dividir com você. Uma carta por cada novidade, enfim, milhares de cartas.
- Espero que você não esqueça disso – pediu, enquanto abraçava com força a amiga.
- Claro que não vou esquecer. Claro que não.
- Você não precisava ir, precisava? – perguntou Gloria, fazendo força para não chorar.
- Querida, você sabe que sim – respondeu Bia, com um sorriso terno – Você sabe que eu preciso fazer isso. Que eu preciso encontrar e colar bem colado todos os estilhaços em que me transformei. Você, mais do que ninguém, sabe como eu estou feliz com tudo isso. Como estou feliz em poder ir.
- Tem razão Bia. Desculpe-me. Você tem toda a razão. Você merece ser feliz e eu estou muito feliz por você. De verdade. Espero que entenda esse rio de lágrimas. Você vai fazer muita falta.
- Eu entendo querida, eu entendo. Mas vou estar por perto. Pode apostar.
- Então vá. É seu avião que estão chamando agora, não? Vá antes que você o perca – disse, quase gaguejando.
Bia a olhou com muito amor e lhe deu um forte abraço e um beijo. Gloria disse – Vá, vá, e cuidado com o dinheiro e com seus documentos e não beba e não fume demais. Sei como você é. Seja cuidadosa.
- Pode deixar querida, pode deixar – disse Bia, mergulhando entre a multidão, não sem antes virar e mandar um beijo carinhoso com a mão para a amiga que a observava naquele frio e triste saguão de aeroporto – Eu vou estar por perto – gritou Bia, para surpresa dos guardas do aeroporto – Eu vou estar por perto. Até a volta.
- Boa sorte querida, boa sorte. Seja feliz... – disse Gloria baixinho, entre lágrimas e sorrisos e saudades.



Serpentine
(Deus)


"I'm caught in the flow of things
My memory's a broken machine
This is how my day begins
This is just one day unseen

Lets do it serpentine any time
Lets do it right here
Lets do it serpentine, i don't mind
Lets do it right here

It is bad that you're good for me
Did I love you just randomly?
I'm caught in the flow of sound
And you're just some melody

Let's do it serpentine, any time
Let's do it right here
Lets do it serpentine, i don't mind
Lets do it right here

There's a cute little litany
Put it on my shoulder
Eight o'clock and we agree
It makes me look much older

Got my clockwork company
Got my dark green trenchcoat on
I'm sure it will always be
Someone staying and someone gone

Let's do it serpentine, any time
Let's do it right here
Lets do it serpentine, i don't mind
Lets do it right here
"

7.8.03



FELIZ DEZ ANOS (PASSADOS)

POR FAVOR, USE OS HEADPHONES
(REBEKAH DEL RIO – LLORANDO (CRYING))


– Feliz ano novo! - ela gritou, feliz e com um dos sorrisos mais lindos que ele jamais havia visto.
- Feliz 1993 – ele respondeu, dando-lhe um abraço apertado.
- Não acredito que estamos mais uma vez celebrando toda essa loucura, juntos – ela disse.
- Nem eu querida. Nem eu.
- E cada vez mais amigos. Cada vez mais próximos. Cada vez mais irmãos.
Ele sorriu e disse, vibrando – Toma mais um gole. Esse espumante de quinta categoria vai renovar seu espírito para o ano que começa agora.
Ela virou um gole direto no gargalo e retrucou – Bem, se vai renovar alguma coisa, isso eu não sei, mas que vou ficar completamente chapada, isso eu tenho certeza.
- E isso é só o começo da nossa amizade – ele advertiu.
- Porra, e como – ela respondeu – Você vai ter que agüentar a velhinha bêbada aqui durante vários e vários anos.

- Olha a pose do casal –gritou de surpresa Paulo, amigo dos dois e o único munido de uma câmera fotográfica para registrar o “lunático reveillon” daquele jovem grupo de amigos naquela praia cheia de areia, garrafas, velas, desejos e esperanças. Os dois se abraçaram e o momento se registrou.

- Feliz 1993! – disseram, em coro.
- Para vocês também – respondeu Paulo – Pode deixar que eu dou a foto depois. Ficou linda. O lindo retrato de uma amizade.
- Por toda a eternidade – ela gritou.
- Por toda a eternidade – gritaram, juntos
”.

Sua cabeça não parava de reproduzir, de maneira exaustiva e claustrofóbica, todo esse diálogo. Lá estava ele sozinho naquela noite cheia de ruídos e estrelas, com uma foto amarelada e amassada nas mãos e uma vida inteira na lembrança.

Sozinho até o telefone tocar.

- Alô – disse, distraído.
- Oi. Te acordei?
- Não, mãe. Estava arrumando a mala – respondeu.
- Liguei para desejar uma boa viagem e uma ótima passagem de ano querido. Te amo.
- Também te amo, mãe. Obrigado. Feliz ano novo para você amanhã. Se der eu te ligo.
- Pode deixar. Nos falamos quando você voltar – ela disse.
- Tá. Tchau.
- Tchau querido. Feliz 2003!
- Feliz 2003 – ele respondeu.

Assim que desligou o telefone ele olhou novamente para a amarelada fotografia em suas mãos – Amigos por toda a eternidade. Tá bom! - pensou, com ironia e crueldade – Sete anos...sete anos sem nos falar...por onde será que ela anda? – prosseguiu – Foda-se! Pouco importa. Feliz 2003 e chega dessa porra de música espanhola – sentenciou, socando o cd player, para depois jogar a fotografia dentro de um velho baú e preparar, em paz, sua mala de viagem, sua vida de ano novo...



Llorando (Crying)
(Rebekah Del Rio – Trilha Mullholand Drive)


"Yo estaba bien
Por un tiempo
Volviendo a sonreir
Luego anoche te vi
Tu mano me tocó
Y el saludo de tu voz
Te hablé muy bien
Tú sin saber
Que he estado llorando
Por tu amor
Llorando por tu amor
Luego de tu adiós
Sentí todo mi dolor
Sola y llorando
Llorando
No es fácil de entender
Que al verte otra vez
Yo esté llorando
Yo que pense que te olvide
Pero es verdad es la verdad
Que te quiero aun mas
Mucho mas que ayer
Dime tu que puedo hacer
No me quieres ya
Y siempre estare
Llorando por tu amor
Llorando por tu amor
Tu amor se llevo
Todo mi corazon
Y quedo llorando
llorando, llorando por tu amor."

4.8.03



DETESTANDO SÁBADOS, DOMINGOS, SEGUNDAS, TERÇAS...

POR FAVOR, USE OS HEADPHONES
(TORI AMOS – I DON´T LIKE MONDAYS)


Ele estava sem muito saco naquela noite de sábado, mas, ainda assim, graças à insistência deles, resolveu sair com os seus amigos para beber, dançar, conversar, fumar, enfim, viver uma típica noite de sábado como faz todo ser humano que está...vivo. E, ainda que não fosse esse exatamente o seu caso, lá foi ele, mais uma vez, ao Clube Varsóvia, para sentar e fumar um Marlboro atrás do outro, enquanto os seus amigos dançavam e se embriagavam.

E enquanto a música preenchia o ambiente de modo devastador e o álcool começava a cumprir o seu papel de desinibidor supremo, ele fez exatamente como a sua mente solitária havia, cruel e repetidamente, planejado antes da chegada dos seus amigos. Ficou prostrado em uma cadeira nada confortável do Varsóvia, ouvindo o som e apenas olhando a diversão, como se ela não lhe fosse jamais permitida.

Mas o acaso conspira.

Entre um cigarro e outro, ele percebeu uma garota dançando numa mesa próxima à qual ele estava sentado. Uma garota linda. Linda de verdade. Com longos cabelos castanhos e, Deus, como ele adorava longos cabelos castanhos. De imediato ficou encantado com a garota. Ela dançava freneticamente com movimentos adoravelmente desajeitados e doces. Não dançava muito bem, mas isso pouco importava, já que certamente dançava com vontade, com um estranho e suave sorriso estampado no rosto, que a deixava absolutamente sedutora e o deixava absolutamente hipnotizado. Curvado. Apaixonado.

Não demorou, a linda garota de longos cabelos castanhos percebeu aquele olhar intruso e repetido. E assim que o fez, sorriu para ele, desajeitada.

Mas sempre o medo se repete.

Ele retribuiu o sorriso, tímido, e ficou pensando se deveria ou não conversar com aquela linda garota. Quando finalmente se decidiu ele percebeu que ela estava acompanhada. Ficou feliz por ter decidido ir embora, sem trocar uma só palavra com a linda garota de cabelos castanhos.

Assim que se levantou olhou ainda mais uma vez para ela que, doce, devolveu o olhar carinhoso, como se retribuísse todo o desejo exibido em seu olhar.

E as noites acabam sempre iguais.

Ele partiu do Varsóvia sem se despedir de ninguém. Assim que entrou no táxi, pediu ao motorista que ligasse o rádio e tentou, de toda a forma, esconder a vontade que tinha de rir de sua própria idiotice, de rir da sua própria estupidez, de rir do seu próprio medo, enfim, de chorar, da sua própria realidade.

Era uma noite de sábado...mas para ele, era sempre segunda de manhã...uma fria e solitária manhã de segunda...



I Don´t Like Mondays
(Boomtown Rats, versão Tori Amos)


The silicon chip inside her head
gets switched to overload
and nobody's gonna go to school today
she's gonna make them stay at home
And Daddy doesn't understand it
He always said she was good as gold
And he can see no reason
Cos there are no reasons
What reasons do you need to be shown

Tell me why
I don't like Mondays
I want to shoot
The whole day down

The telex machine is kept so clean
and it types to waiting world.
And Mother feels so shocked
Father's world is rocked
And their thoughts turn to
Their own little girl
Sweet 16 ain't that peachy keen
No it ain't so neat to admit defeat,
They can see no reasons
Cos there are no reasons
What reasons do you need to be shown

All the playing's stopped in the playground now
She wants to play with her toys awhile
And school's out early and soon we'll be learning
That the lesson today is how to die
And then the bullhorn crackles
And the captain tackles
With the problems and the how's and why's
And he can see no reasons
Cos there are no reasons
What reasons do you need to die



eu quero escrever sobre sombras e sorrisos, sobre sol e lágrimas, sobre contrastes, sobre vida, sobre o que realmente importa. Nunca pensei que fosse tão difícil...



Alguém conhece alguma editora de livros? Perguntar não ofende, né?
Obrigado...

29.7.03



LÁGRIMAS DE NEVE

POR FAVOR, USE OS HEADPHONES
(GENESIS – MORE FOOL ME)


E lá estava ele naquele país estranho, com pessoas diferentes do seu mundo, que não falavam a sua língua e não entendiam o que ele sentia. E lá estava ele sozinho, como de hábito. Sozinho e em Varsóvia. Polônia. Em pleno começo de inverno e sentindo um frio quase igual ao da sua alma. Glacial. E ele mal lembrava como havia ido parar naquela gelada e distante cidade. O que começou como uma fuga, acabou virando a sua vida. Uma vida de estações de trem, cozinhas de restaurantes baratos, cigarros grosseiros, roupas sujas e desgastadas e pouco, bem pouco dinheiro. O destino final? A fria Varsóvia. Foda-se – ele pensou – Ao menos faço o que quero da vida.

Só que sozinho. Sem ela. E em pleno inverno glacial.

E naquela manhã, ao sair da cama, ele nem percebeu que a noite mal dormida foi apenas um prenúncio de que, após seis meses de fuga, o passado estava de volta para lhe encarar, lhe ferir, lhe machucar. Ele saiu da cama e, enquanto acendia o primeiro cigarro do dia, resolveu abrir a velha e suja cortina bordô do seu quarto. Entrou em uma espécie de transe ao olhar através da janela. A rua estava coberta de neve. Branca como nuvem, cruel como “ela”, fatal como o seu passado e doce como um beijo. E ele lembrou do último dia em que ela quebrou o seu coração. Não, ela não disse “adeus”, tampouco “até mais”, apenas virou-se e foi embora, em silêncio. Num agonizante e desesperador silêncio fúnebre.

E ele chorou e chorou e chorou desesperado. Chorou como uma criança, vendo os brancos flocos cobrindo a calçada.

Era a primeira vez que via neve na vida. E não queria que fosse assim. Dolorido como perder o primeiro grande amor. Dolorido como perder a própria vida.



More Fool Me
(Gênesis)


Here am i
Who while away the mornings
Since you’ve gone
Too long have I lay alone
Not knowing which way to turn.

And there you are
Quite sure that you were right
Knowing full well
That I’d be the first one
To go down.

And you’d be the one who was laughing
Except when things weren’t going your way
And then the lady would say that she’d had enough
Wandering around on her own.

The day you left
Well I think you knew you’d not be back
Well at least it would seem that way
Because you never said goodbye.
But when it comes round to you and me
I’m sure it will work out alright.

And you’d be the one who was laughing
And giving me something I don’t need
And you know, I’d always hold you and keep you warm
Oh! more fool me.

Ah, but when it comes
Round to you and me
I ask myself
Do I really believe
In your love.

Yes, I’m sure it will work out alright.



parece que voltei a escrever...que bom


QUANDO O SILÊNCIO É MAIS DEVASTADOR DO QUE UMA PORRADA

- Pára de me magoar, porra! - ela pediu, aflita e chorando.
- Você sabe que isso é impossível - ele respondeu, com desprezo e continuou - A não ser que eu faça uma coisa.
- O quê? - ela insistiu, com os olhos borrados de tantas lágrimas.
- Saia daqui em silêncio. Sem te dizer porra nenhuma.

Ela nada disse...socou a parede e desejou que o tempo voltasse. Apenas para tentar aprender a não errar.

25.7.03



COMEÇO, MEIO E SORRISOS

POR FAVOR, USE OS HEADPHONES
(FIRE INC. – TONIGHT IS WHAT IT MEANS TO BE YOUNG)


Ela estava cansada. Cansada demais de tanto quebrar a cara. Cansada demais de tanto chorar. Cansada demais de tanta indiferença. Cansada demais. Apenas cansada demais. Mas, no fundo, bem lá no fundo, ela estava orgulhosa por, ao menos, estar tentando ser feliz. Estar tentando ter alguém, estar tentando encontrar o caminho, estar tentando sorrir, estar... tentando. É difícil isso – ela pensou – Difícil e sofrido, mas tem valido a pena – continuou.

E no seu quarto, naquela noite de verão insuportável, entre as gotas de suor, as fotos jogadas na cama, os bilhetes mal escritos pelos idiotas, as declarações de amor nada sinceras lançadas na sua face de uma forma absolutamente leviana, as suas memórias, as xícaras sujas de capuccino, os seus livros e os seus discos, ela decidiu que mesmo com o passar de todos esses anos, ela ainda iria continuar tentando. Ainda que morresse por isso. É isso o que significa ser jovem – pensou com um sorriso – E é exatamente isso o que quero para a minha velhice: ser jovem e ser feliz...




Tonight is what it means to be young
(Fire Inc.)

I've got a dream 'bout an angel on the beach
And the perfect waves are starting to come
His hair is flying out in ribbons of gold
And his touch has got the power to stone
I've got a dream 'bout an angel in the forest
Enchanted by the edge of a lake
His body's flowing in the jewels of light
And the earth below him's starting to shake

But I don't see any angels in the city
I don't hear any holy choirs sing
And if I can't get an angel
I can still get a boy
And a boy'd be the next best thing
The next best thing to an angel
A boy'd be the next best thing

I've got a dream 'bout a boy in a castle
And he's dancing like a cat on the stairs
He's got the fire of a prince in his eyes
And the thunder of a drum in his ears
I've got a dream 'bout a boy on a star
Looking down upon the realm of the world
He's there all alone and dreaming of someone like me
I'm not an angel but at least I'm a girl

I've got a dream when the darkness is over
We'll be lying in the rays of the sun
But it's only a dream and tonight is for real
You'll never know what it means
But you'll know how it feels
It's gonna be over (over)
Before you know it's begun
(Before you know it's begun)

It's all we really got tonight
Stop your crying hold on (tonight)
Before you know it it's gone (tonight)
Tonight is what it means to be young
Tonight is what it means to be young

Let the rebels begin
Let the fire be started
We're dancing for the restless and the broken-hearted
Let the rebels begin
Let the fire be started
We're dancing for the desperate and the broken-hearted
Let the rebels begin...(Tonight is what it means to be young...)
Let the fire be started...(Before you know it it's gone...)
We're dancing for the restless and the broken-hearted
Let the rebels begin
Let the fire be started
We're dancing for the desperate and the broken-hearted

Say a prayer in the darkness for the magic to come
No matter what it seams
Tonight is what it means to be young
Before you know it it's gone
Tonight is what it means to be young
Before you know it it's gone

I've got a dream when the darkness is over
We'll be lying in the rays of the sun
But it's only a dream and tonight is for real
You'll never know what it means
But you'll know how it feels
It's gonna be over (over)
Before you know it's begun

It's all we really got tonight
Stop your cryin' hold on (tonight)
Before you know it it's gone (tonight)
Tonight is what it means to be young
Tonight is what it means to be young...

The things they say
And then the things they do
Nothin's gonna stop us if our dream is true...



DERRETENDO EM LÁGRIMAS E CHOCOLATES

POR FAVOR, USE OS HEADPHONES
(SEMISONIC - SUNSHINE AND CHOCOLATE)


- Não entendo você – ela disse, atordoada com a porrada que havia acabado de levar.
- Não entende o quê? Que eu não te quero mais? Cansei porra, qual o problema com isso?
- Qual o problema? Qual o problema? – gritou – O problema, seu filho da puta, é que você não pode e não tem o direito de entrar na porra da minha vida da forma como entrou, mergulhando de cabeça nela, me fazendo acreditar numa série de coisas e agora, sem mais nem menos, você acorda e diz “tchau”, “valeu”, “é isso aí”, “nos encontramos na vida”. Vá se foder otário. Você pensa que pode fazer o que bem entender? – berrou, tentando com todas as suas forças não chorar. Ao menos na frente dele.
- Dan, eu posso ter feito uma porrada de bobagens e ter agido como um tremendo um filho da puta. Mas eu quero que você entenda que eu não fiz nada disso para magoar você. Eu realmente acreditei que poderíamos dar certo. Muito certo.
- É? Verdade? – ela disse com sarcasmo – Vai me dizer que tudo mudou do nada, que eu sou legal, mas não sou a pessoa certa, que eu não sou a mulher que você sonhou? Vai dizer isso?
- Não – ele respondeu, seco e triste – Vou apenas dizer que não te amo mais. Apenas isso – disse, abrindo a porta e saindo da casa.

Ela olhou com tristeza a maldita porta amarela. Seus olhos encheram-se de lágrimas e ela começou a gritar de dor. Passou o resto da noite acordada e comendo chocolates e chorando e desejando que o dia nascesse logo. Mas, no fundo, tudo o que ela queria era saber porque na sua vida tudo acontecia sempre tão tarde. Tarde demais...



Sunshine and Chocolate
(Semisonic)

All my life I've been looking for
The perfect mate
And when I finally found the one
It was almost too late
Underneath the auditorium
She showed me why
I would have waited all of my life
For somebody like

Sunshine and chocolate all over me
In my mouth and on my tree
Round my body under my hat
Sunshine and chocolate just... like... that

I was alone when I woke up
And found the note
It said you surely know how to fuck
But I gotta go
I hope you find someone to take care of
And give yourself to
And until I get to kiss you again I wish you

Sunshine and chocolate every day
In your work and in your play
In your mouth and down your back
I wish you, I wish you, I wish you that
Sunshine and chocolate all over you
Over everything you do
On your body and in your mind
Sunshine, chocolate, everything fine

Now my eyes are open wide
As I travel around
Maybe some summer day I'll find
Her face in the crowd singing...

Sunshine and chocolate everyday
In your work and in your play
In your mouth and down your back
I wish you, I wish you, I wish you that
Sunshine and chocolate all over you
Over everything you do
On your body and in your mind
Sunshine, chocolate, everything fine



não esqueci das canções, apenas ando com saudades da minha vida. Agora tudo volta ao normal. As canções? Elas estão aí em cima. E eu não escrevo só sobre canções desconhecidas. Eu escrevo sobre canções bonitas. Para mim ou para vocês ou para todos nós...conversados?

17.7.03



DANÇANDO EM PISTAS SUPOSTAMENTE VAZIAS

POR FAVOR, USE OS HEADPHONES
(BEN HARPER – WALK AWAY)


O Clube Varsóvia estava quase vazio naquela noite. Era feriado na cidade e, portanto, as poucas almas que habitavam o Clube haviam partido para outros endereços, outros lugares, outras vidas. Mas, apesar disso, dessa tranqüilidade inesperada, a noite estava agradável no Varsóvia. Uma noite realmente agradável. E surpreendente.

No centro da pista estava ela. Dançando e cantando e vivendo e sendo feliz, na medida do possível, na medida do que lhe era permitido ser. E enquanto dançava e pulava, acompanhada apenas de um copo de vodka, ela foi interrompida por um adorável moço estranho, um adorável moço desconhecido.

- Oi – ele disse, tímido e desconfiado, como não querendo, mas, no fundo, desejando ardentemente interrompê-la.
- Oi – ela respondeu
- Você dança muito bem – ele disse, sorrindo.

Ela o olhou com atenção e respondeu direta – Nem tanto, nem tanto. Apenas danço com vontade. Veja bem – disse enquanto saltitava - Eu apenas pulo de um lado para o outro, sem o menor critério, e chuto o ar, também sem o menor ensaio, e fico aqui, quieta no meu canto, orando fervorosamente para não acertar ninguém que queira me bater depois, caso isso aconteça – riu da própria piada.
Ele devolveu o sorriso e disse – Que viagem. Ninguém seria capaz de se incomodar com você. Essa pista fica tão mais linda com você deslizando sobre ela.

Ela sorriu da cantada rasteira e nada disse. Apenas observou melhor aquele lindo garoto plantado à sua frente. Afastou seus tolos pensamentos de que não era capaz de interessar a alguém tão bonito e perguntou – Vamos tomar alguma coisa?
- Não. Mais tarde. Ensina-me a dançar? – ele pediu
Ela olhou surpresa para aquele menino lindo e consentiu com a cabeça, meio sem jeito, meio sem graça.
- O que você quer aprender a dançar? – ela perguntou
- Espera aí – ele disse, indo em direção ao DJ para falar baixinho ao seu ouvido.
Ela o aguardou curiosa e tão logo ele se aproximou ela disse – O que você pediu ao DJ?
Ele a olhou com segurança e disse – Apenas uma música – e sorriu
- Posso saber que tipo – ela insistiu.
Assim que começaram os primeiros acordes, ela ficou surpresa. Feliz e surpresa. Como por encanto, ele havia escolhido uma de suas músicas prediletas. Uma de suas músicas favoritas. - - O tipo de música? – ele disse - Música para ser feliz. Apenas música para beijar a moça mais bonita do baile e dizer que o sol pode significar muito mais do que um outro dia. Só isso.

E enquanto beijavam-se, os seus pensamentos afogaram-se em sorrisos e ela decidiu, naquela pista, jamais deixar de confiar na única pessoa em que poderia confiar para ser feliz. Ela própria...



WALK AWAY
(Ben Harper)


Oh no
Here comes that sun again
That means another day
Without you my friend
And it hurts me
To look into the mirror at myself
And it hurts even more
To have to be with somebody else
And it's so hard to do
And so easy to say
But sometimes
Sometimes you just have to walk away
Walk away
With so many people
To love in my life
Why do I worry
About one
But you put the happy
In my ness
You put the good times
Into my fun
And it's so hard to do
And so easy to say
But sometimes
Sometimes you just have to walk away
Walk away
And head for the door
We've tried the goodbye
So many days
We walk in the same direction
So that we could never stray
They say if you love somebody
Than you have got to set them free
But I would rather be locked to you
Than live in this pain and misery
They say time will
Make all this go away
But it's time that has taken my tomorrows
And turned them into yesterdays
And once again that rising sun
Is droppin' on down
And once again you my friend
Are nowhere to be found
And it's so hard to do
And so easy to say
But sometimes
Sometimes you just have to walk away
Walk away
And head for the door
You just walk away
Walk away