5.12.17



DEZEMBRO

Apenas um violão desafinado e uma voz desastrada.
Lindamente desastrada.
Ruim.
Fraca.
Incontínua.
Desastrada.
Frágil.
Bem frágil.
Frágil.
Frágil, mas bela...
Linda.
Genial.
E naquele “luau” improvisado entre amigos a beira da praia, sob o barulho das ondas e sob a luz do luar, ela estava feliz.
Muito feliz.
Independentemente de quem tocava ou tocava.
Nada demais.
Nada demais para pessoas normais sob todo aquele cenário.
Normais?
Nem sempre.
Lindo.
Nada demais.
Nada demais mesmo.
E nunca normais.
Mas para ela era algo a mais.
Algo a mais.
Feliz ao lado dele.
Feliz ao lado dele.
Como se o Natal já houvesse começado.
Bem antes de começar.
Bem antes.
E ao alvorecer do dia ela ainda ouvia João Gilberto em seu velho pen drive.
Ele?
Ramones...
Feitos um para o outro.
Feitos um para o outro...
Apenas isso.
Nada demais.
Nada demais para quem se ama.

Quem se ama...

24.11.17


AINDA A MESMA GAROTA?

A chuva era implacável.
Implacável.
Noites de verão e solidão.
Mais do mesmo, sempre.
Ao menos a luz não estava caída.
Estava firme, forte e sem piscar.
Sorte dela.
Sorte?
Ela estava sentada em seu sofá de veludo vermelho velho olhando através das janelas. Fumando e trançando os seus longos, finos e lindos dedos no copo americano barato repleto de vodka vagabunda.
Repleto.
Repleto de álcool barato e lágrimas.
Apenas isso.
Sob a chuva implacável.
Implacável.
E um disco de vinil de soul dos anos sessenta ao fundo.
Lágrimas.
Um mar de lágrimas diante de si.
Um mar de lágrimas e arrependimentos.
Arrependimentos?
Talvez não.
Talvez não.
Ela amava aquela garota tão distante dela.
Amava de verdade.
E após todo o furacão, os erros, os desentimentos, as brigas, as acusações, quem ainda era a mesma garota?
Ainda a mesma garota.
Apaixonada, excitada, deliciada, satisfeita e feliz.
Quem?
Quem?
Depois de tudo.
Tudo o que aconteceu.
Depois de todos os erros.
A chuva apertou.
E a chuva forte jamais vai dizer quem errou.
Jamais.
Jamais.
Nem o velho e quase embolorado disco de vinil.
Muito menos ele...






22.11.17



TIME (CLOCK OF THE HEART)

Ele a encarou com amor, ternura, desejo, desespero e medo.
Muito medo.
Muito medo.
Naquele saguão de um aeroporto lotado e mal cuidado.
- Você vai mesmo? – ele perguntou.
Ela tentou evitar as lágrimas e não conseguiu.
Nada disse.
- Você vai mesmo? – ele repetiu.
Ela apenas consentiu com cabeça e disse – Preciso. O meu lugar, por enquanto, não é mais aqui.
- E nós? – ele perguntou de uma forma ridícula, patética, quadrada, tosca, imbecil.
Um tolo. Um verdadeiro tolo.
- Eu preciso ir – ela repetiu – Realmente preciso.
- Mas...
Ela o interromperu – Nada de mas... Nada de mas. Nada de nós. Nada de tempo. O tempo não vai me dar tempo algum.
Nunca.
E ela o beijou.
E virou as costas com os olhos repletos de lágrimas.
Para ele não ver.
Apenas para ele não ver seus olhos molhados e vermelhos.
Repletos de lágrimas.
- E quando você volta? - ele perguntou ainda mais uma vez.
Ela apenas sorriu e respondeu – Tempo. Apenas isto.
E beijos voaram de dentro da sala de embarque com a palma das mãos.
Beijos voando no saguão de um aeroporto lotado e mal cuidado.
Beijos voando.
Sem tempo.
Como uma canção desajeitada.
Como um conto mal escrito.
Apenas assim.
Simples assim.


“And time won't give me time, won't give me time (time, time, time)”

CULTURE CLUB
TIME (CLOCK OF THE HEART)

“Don't put your head on my shoulder
Sink me in a river of tears
This could be the best place yet
But you must overcome your fears
Ooh in time it could have been so much more
The time is precious I know
In time it could have been so much more
The time has nothing to show because
Time won't give me time and
Time makes lovers feel like they've got something real
But you and me we know they've got nothing but time
And time won't give me time, won't give me time (time, time, time)
Don't make me feel any colder
Time is like a clock in my heart
Touch me touch was the key too much
I felt I lost you from the start
Ooh in time it could have been so much more
The time is precious I know
In time it could have been so much more
The time…”




17.11.17



QUANDO O AMOR...

When love breaks down.

Ele rompe.
Ele acaba.
Quebra.
Mesmo.
E muitas coisas acontecem a partir daí.
Lágrimas.
Chuva.
Raios e trovões.
Mentiras?
Algumas.
Ilusões?
Muitas.
E as coisas que fazemos após toda esta tormenta são apenas...
Nada.
Nada além de lamentação.
Nada além.
O amor se quebra.
Ele rompe e acaba.
O amor se rompe.
E ele a olhou com carinho e ternura, mesmo com a chuva desabando lá fora.
Lágrimas das nuvens.
Ele não sabia se desculpar.
De modo algum.
Não sabia dizer nada.
Ela também.
Mesmo com a cabeça cheia de vodka.
Mesmo com a cabeça cheia de nada.
Porra.
When love breaks down.
Ele acaba.
Quebra.
Mesmo.
E muitas coisas acontecem a partir daí.
Principalmente a ausência de palavras dos dois antes e depois dela sair pela porta.
Em definitivo.
Definitivo.






NEON

Neon.
Apenas neon.
Apenas isso.
Neon na madrugada.
Neon, madrugada e fumaça.
Nada mais além de tais coisas.
Neon.
Coisa de velho.
Anos oitenta.
Lembranças ruins.
Neon.
Neon barato na madrugada do centro da cidade, nos letreiros das padarias ainda fechadas, dos puteiros abertos e dos botecos repletos de café ruim e bêbados idiotas.
Apenas neon.
Ruim.
Apenas neon em letreiros vagabundos.
Bem vagabundos.
Corações derretendo.
Apenas isso.
Apenas isso.
E ele querendo a bala dela, o seu doce.
E ele querendo ainda o coração dela.
Higher than the Sun.
Apenas isso.
Neon.
Labareda que queimou.
Labareda que queimou.
E como disse Vinícius, “...mata a gente, mata de paixão...




4.11.17



E ELE?


Ela era apenas batimentos cardíacos, suor frio, tremores e cigarros.
Um atrás do outro.
Um atrás do outro.
O balcão daquele bar escondido no centro da cidade era pequeno demais para tanta ansiedade.
Pequeno demais.
O azul e branco dos azulejos nas paredes prevalecia demais.
Assim como o quadriculado do piso.
Demais.
O tanto que ela amava era insano e bizarro, ainda mais que demais.
Sinistro.
O contrário de destro.
E quem não sabe disto?
Apenas os tolos que amam.
Apenas os tolos que amam demais.
Mas quem nunca amou demais?
Quem?
Quem nunca bebeu demais ou fumou demais?
Ou cometeu erros demais.
Muitos erros.
Demais.
Ela era apenas batimentos cardíacos acelerados, suor frio e tenso, tremores nada leves, cigarros e vodka barata.
Um atrás do outro.
Uma dose atrás da outra.
Em sequência.
O balcão daquele bar escondido no centro da cidade era pequeno demais para tanta ansiedade.
Pequeno demais.
O azul e branco dos azulejos nas paredes prevalecia demais.
Assim como o quadriculado do piso.
Demais.
O tanto que ela amava era insano e bizarro, ainda mais que demais.
Sinistro.
O contrário de destro.
E quem não sabe disto?
Apenas os tolos que amam.
Apenas os tolos que amam demais.
E o brilho das paredes e do piso contrastava com o borrão no seu lindo rosto deixado pelas lágrimas que não paravam de querer escorrer.
Sem parar de escorrer.
Borrões.
Borrões de amor.
- Quer algo mais? - perguntou o balconista do vagabundo bar.
Ele meneou a cabeça em sinal negativo.
- Olha... – o balconista insistiu – ... não precisa chorar. Depois tudo fica bem. Até o nascer do sol tudo fica bem – e foi para o fundo do salão.
Ela deu mais um trago e mais uma tragada.
Chorou.
Soluçou.
Quatro e meia da manhã.
Ele?
E ele?
Ele não veio.
Óbvio.
Ainda mais uma vez.
E ela sabia que jamais ele viria novamente.
Jamais o veria novamente.
Jamais.
O que restou?
Apenas batimentos cardíacos acelerados, suor frio e tenso, tremores nada leves, cigarros e vodka barata, bem barata.
E a tranquilidade de quem foi esquecida.
Para sempre.
Para sempre...


3.11.17



LINDA, RUIVA E APENAS ELA ... APENAS ELA ...

Linda.
Ruiva.
Apenas ela.
Apenas ela.
Com os seus comprimidos e fobias e desejos e medos.
Apenas linda.
Apenas ruiva.
Tatuagens.
Não poucas.
Não muitas.
Uma canção do New Order.
Uma canção dela.
Um salto como vídeo.
Um salto dela.
Apenas dela.
Linda.
Ruiva.
Tatuada.
Corajosa.
Fodida.
Fodona.
Apenas ela.
Apenas ela.
E poucas coisas faziam sentido.
Não os comprimidos cor-de-rosa.
Nem as fobias.
Muito menos os medos.
Muitos medos.
Muitos.
Muito menos os medos.
Nada fazia sentido.
Apenas os cabelos ruivos.
Linda.
Bela.
Ruiva.
Apenas ela.
Apenas ela.
Uma canção do New Order.
Uma canção dela.
Apenas dela.
Apenas dela.








2.11.17



LUA

Atirei para a Lua e acertei um astronauta.
Coitado.
Pobre coitado.
Pobre bailarino sem gravidade.
Coitado.
Atirei para a Lua e o coitado estava lá.
Sozinho.
E ela?
Também.
Com sua bossa nova velha, seus discos antigos e seu cheiro de vinil e vodka e nicotina.
Sozinha.
Apenas sozinha.
Tiros para a Lua não resolvem.
Chorar também não.
Também não.
Atirei para a Lua e errei.
Acertei um astronauta ou um cosmonauta, como queiram.
Mas errei.
Errei.
Acertei aonde não devia.
Pobre homen.
Pobre bailarino da zona sem gravidade.
Coitado.
E o coração dele?
Igual ao meu.
Igual ao seu.
Igual ao de quem espera recados na secretária eletrônica e nada ouve.
Nada.
Nunca.
Nunca mesmo.
Apenas o silêncio.
O vazio que se espera da linda e amarela Lua.
Linda e amarela Lua.
Linda.
Amarela.
A Lua...





SOMENTE GDANSK

- E então? – Luisa perguntou.
Carol nada disse e abaixou a cabeça.
E acendeu um cigarro. Mais um. Apenas mais um naquela noite repleta de chuva e trovões.
Tempestade.
Cores e raios.
Apenas mais um cigarro.
Um cigarro e vários trovões.
- Não abaixa a cabeça, caralho. Não abaixa. Apenas responda – disse com rispidez e com todas as letras. E a rispidez das palavras ditas com todas as letras é bem mais forte do que uma porrada.
Bem mais forte.
Muito mais.
E Carol continuou em silêncio.
- Não vai dizer nada? Nada? Nada mesmo?
- Não quero – Carol respondeu.
Luisa a olhou com surpresa. Disse – Não quer? Não quer me dizer nada? – insistiu.
- Não – Carol respondeu e deu uma tragada forte em seu cigarro vagabundamente light.
- Não posso acreditar – Luisa disse.
Carol a observou com surpresa e emendou – O que quer que eu diga? Não posso dizer nada. Nada.
Luisa a olhou com carinho e supremo amor. Apenas disse – Nada?
E Carol começou a lacrimejar.
E abraçou Luisa com tanta força que quase partiu aquela pequena garota ao meio.
E se beijaram como não houvesse amanhã.
Gdansk? Danzig. Cidade Livre que permitia à Polônia acesso ao mar Báltico.
Acesso ao amor e tudo mais que podemos imaginar.
Tudo mais.