16.7.18



CHRISTINE DISSE. APENAS DISSE

Christine...
E ela lia com encanto aqueles pequenos contos. Aquelas pequenas bobagens.
Por muito tempo.
Muito tempo.
Religiosamente.
Desde quando era solteira e vivia em seu quarto repleto de pelúcias e computadores lentos e velhos.
Velhos mesmo.
Outro mundo.
Outro universo.
Sonhos, namorados, desilusões, ânsia de viver, ou seja, tudo...
Tudo.
Mas a vida muda.
Muito.
E hoje... ela é feliz.
Muito feliz pelas escolhas que fez, pelo filho, casamento o cacete a quatro.
Ele?
Um velho bobo que ainda fumava e bebia no Clube Varsóvia madrugada adentro tentando entender a razão de ter perdido o email de Christine.
Ter perdido o seu email.
E Christine disse, apenas disse, que sonhos não ficam muito velhos, apenas mudam.
Mas... a vida é assim.
Ela?
Adorável.
E muito gentil
Ele?
Um bobo que ainda escrevia em pequenos pedaços de guardanapos no Clube Varsóvia ao som de sabe lá que banda.
Adorável desencontro.
Mas muito triste desencontro.
Muito.
Mas ele traga um cigarro com um sorriso no canto do rosto.
Um grande sorriso.





FRIOS COMO O MAR


Frios.
Apenas frios.
Frios e distantes.
Distantes e azuis.
Muito.
Muito azuis.
Olhos azuis, longos e lindos.
Mas frios.
Frios como o mar.
Lacônicos.
Como o mar.
Como o mar.
E naquela mesa do Clube Varsóvia ele apenas percebia isto.
Entre uma tragada e outra.
Apenas os lindos olhos azuis e frios.
Dando adeus.
Apenas dando adeus.
Apenas adeus.
Frios.
Olhos azuis, longos e lindos.
Frios.
Frios como o mar.
Como o mar.
Olhos azuis, longos e lindos.
Mas frios.
Frios como o mar.
Um adeus.
Apenas isso.
Um adeus.
Deve ser amor.
E dor.
Muita dor.
Muita dor e muito adeus.
Muito adeus...



9.7.18




RETRATOS ANTIGOS ou BRIGADEIROS E BLOGS

Brigadeiro Tradicional
Ingredientes:
1 lata leite condensado
1 colher de margarina
2 colheres de chocolate em pó
Modo
de preparo:
Misturar tudo, levar ao fogo e ir mexendo até aparecer o fundo da panela. Pronto!
Depois de frio, é só enrolar e passar no chocolate granulado.


...

Ela tinha várias paixões na vida. Os brigadeiros, as suas músicas, os seus contos e muito mais.

Muito mais.

Mais do que qualquer outra coisa, comer doces, beber e escrever era o que realmente a fazia feliz, satisfeita, alegre, enfim, viva, numa espécie de delicioso alive and kicking particular.

Os brigadeiros ela amava desde que se entendia por gente. De qualquer tipo ou forma, cor ou recheio. Tais doces serviam como uma espécie de inspiração ao que ela escrevia. Preparava os seus próprios conforme receita de Letícia, amiga do colégio, cuja mãe trabalhava em uma doceira perto de onde estudavam. Era uma fórmula simples. Fabulosa. Até ela, uma completa nula na arte culinária, era capaz de prepará-los, sem maiores dificuldades.

Os contos, bem, os contos eram o seu mundo, a sua real vida, a sua forma mais peculiar de expressão. Não conseguia demonstrar os seus sentimentos de forma tão segura que não escrevendo. Talvez essa fosse a principal razão dos seus incontáveis fracassos amorosos. Um após o outro. Um após o outro. Desencontros de informação.

As canções?

Ela amava. Guitarras altas e acordes desafinados. Baterias tresloucadas.

Ela sempre pensava como é curioso ninguém ter uma fórmula para sexo e relacionamentos, assim como existem fórmulas e mais fórmulas para se fazer brigadeiros e música, por exemplo.

E era sempre assim.

- Porque está me convidando? Eu mal te conheço – ele perguntou surpreso, na sempre lotada cantina da faculdade.
- Ora, vamos. O show será bom. Você não me é tão desconhecido assim. Estudamos na mesma turma. Sei o seu nome, sei que adora café com creme e sei que esta é uma das suas bandas prediletas. É um bom começo, não é? – ela perguntou ainda incrédula com a sua inédita iniciativa.
- Tem razão. É que eu não estou mesmo acostumado com tamanha gentileza – respondeu com um sorriso, tentando não parecer arrogante.
- Na pior das hipóteses – ela completou – se o show não for bom, podemos tomar uma bebida depois. Nem tudo pode ser perdido
- Está bem. Encontramos aonde?
- Tem uma padaria na esquina do lugar e podemos nos encontrar lá meia hora antes do show, que tal? - ela sugeriu, torcendo para que ele não percebesse o nada ligeiro tremor no canto de sua boca.
- Certíssimo - ele concordou.
- Perfeito. A gente se vê, então.
- Até mais.

Despediram-se com um leve beijo no rosto. Quando ele não estava mais ao alcance do seu olhar ela quase chorou. Estava absolutamente feliz por ter, depois de um milhão de planejamentos, tido a coragem de se aproximar e convidá-lo sem parecer muito idiota.

Meia hora antes do show, lá estava ela sentada junto ao balcão daquela apertada padaria, linda, maquiada e com os cabelos levemente desarrumados, fumando um cigarro após o outro e tomando goles descompassados de uma cerveja barata qualquer. Sentia-se como o próprio Lou Reed à espera do seu homem.

Só que ele não veio. Dez, vinte, vinte e cinco, trinta, quarenta, cinquenta, oitenta minutos se passaram e ele, simplesmente, não veio. A padaria já estava completamentre vazia. Todas as poucas pessoas já haviam entrado no show que, a esta altura, já deveria estar na sua metade.

Ela pagou pelas cervejas e entrou direto no primeiro táxi que encontrou. Riu como uma insana, apesar dos olhos profundos, quando percebeu que o taxista estava com o rádio ligado ouvindo Heaven Knows I´m Miserable Now, dos Smiths. Achou a situação tão inimaginável que se pôs a rir e a rir e a rir.

In my life, why do I give valuable time, to people who don´t care if I live or die...

Assim que entrou em casa foi direto em encontro a geladeira. Ela já sabia que iria escrever muito durante a noite. Muito mesmo. Pegou vários doces. Preferia ficar em silêncio, escrevendo e se inspirando, com seus brigadeiros e seus blogs. Somente com seus brigadeiros e seus blogs.

E os retratos?

Apenas guardados.

Apenas guardados e na memória dela.

Bem guardados.

Bem guardados ...



18.6.18




LINDA

- Você é linda sabia? – ele disse de forma surpresa, inesperada. Nada sutil. Nada sutil – Absolutamente linda.
E era ele e ela.
Apenas os dois.
Sem gelo.
Sem ar condicionado.
Sem suor.
Sem nada.
Nada mais.
Nada mais.
Apenas palavras mal faladas.
Descontrolado.
Delicioso.
Eles.
Apenas eles.
Misturados ao barulho da chuva.
Misturados ao som do salto alto da vizinha de cima.
Delícia de saltos e unhas vermelhas pintadas.
Nada mais que isso.
E pode haver mais?
Pode?
E você me diz aonde ir.
Aonde ir...
Linda.
Apenas ela.
Apenas ela.
Ela...


IN YOUR EYES

Love
I get so lost sometimes
Days pass
And this emptiness fills my heart
When I want to run away
I drive off in my car
But whichever way I go
I come back to the place you are
All my instincts
They return
The grand façade
So soon will burn
Without a noise
Without my pride
I reach out from the inside
In your eyes
The light, the heat
I am complete
I see the doorway
To a thousand churches
The resolution
Of all the fruitless searches
Oh, I see the light and the heat
Oh, All I want to be that complete
All I want is touch the light
The heat I see in your eyes
Love
I don't like to see so much pain
So much wasted


And this moment keeps slipping away
I get so tired
Working so hard for our survival
I look to the time with you
To keep me awake and alive
And all my instincts
They return
And the grand façade
So soon will burn
Without a noise
Without my pride
I reach out from the inside
In your eyes, in your eyes
In your eyes, in your eyes
In your eyes
The light the heat
In your eyes
I am complete
In your eyes
I see the doorway
To a thousand churches
In your eyes
The resolution
In your eyes
Of all the fruitless searches
Oh, I see the light and the heat
In your eyes
Oh, I want to be that complete
I want to touch the light
The heat I see in your eyes
In your eyes, in your eyes
In your eyes, in your eyes
In your eyes, in your eyes



11.5.18



ESTOCOLMO


- Estocolmo? – Bia perguntou surpresa - Estocolmo? – repetiu incrédula.
Isa a olhou com ternura e encantamento. Sabia que Bia ainda era a pessoa mais adorável que ela já havia conhecido. A mais adorável. E estava triste por tudo aquilo. Muito triste.
- Você é uma vaca – disse com raiva Bia.
Muita raiva.
Isa apenas sorriu trêmula. Nada disse. Não havia nada a dizer a não ser “sinto muito” e ela, Isa, não queria dizer isso. Definitvamente não queria. Não queria deixar Bia ainda mais triste.
Ainda mais triste.
- Vá se foder você e a sua Suécia. Vá se foder. Você e a porra da rainha brasileira que reina naquela porra.
Isa a olhou com extremo carinho e disse sincera – Eu te amo. Sempre vou te amar. Sempre. Você me espera? – perguntou.
Bia deu de ombros e começou a chorar ainda mais. Ainda mais.
Isa se aproximou e fez um carinho nos cabelos longos de Bia – Adoro seu esmalte. Adoro. Muito. Nunca vi nada igual. E com seus dedos longos fica perfeito.
Bia continuou a chorar – É a cor que você gosta – disse – Por isso uso – completou.
- Eu sei - emendou Isa - Claro que sei. Eu volto logo. Volto mesmo. Mas preciso fazer isso. Preciso mesmo. É a chance de uma vida.
Bia a olhou com fúria e disse desvastada – Você podia ter me dito. Você é porra da chance da minha vida.
Isa fez um carinho no rosto de Bia e disse-, serena – Não. Você sabe que eu não podia. Não podia mesmo.
E se abraçaram com muito amor e carinho. Muito amor e carinho ao som da tempestade que despencava ao longe. Raios e trovões e tudo mais.
Muitos raios e trovões e tudo mais.
Tudo mais.
E se beijaram.
Amaram.
Tocaram.
Tudo o que era possível tocar.
Tudo o que era possível beijar.
Línguas, sabores e odores.
Tudo.
Isa foi.
Sim.
Isa voltou?
Não.
Claro que não.
Bia esperou?
Também não.
Apenas chorou.
E muito.
Mas Bia foi feliz apesar de tudo.
E ainda hoje sorri ao ver aquelas fotos antigas e tudo mais.
E tudo mais...
E tudo mais.
Sob a sombra de línguas, sabores e odores.
E memórias.
Muitas memórias.
Muitas memórias.




4.5.18



QUADRICULADOS


Ela era apenas taquicardia.
Pura taquicardia e suor frio.
Suor frio.
Tremores.
Cigarros.
Um atrás do outro.
Um atrás do outro.
O balcão daquele bar escondido no centro da cidade era pequeno demais para tanta ansiedade.
Pequeno demais.
O azul e branco dos azulejos nas paredes era demais.
Demais.
Assim como o quadriculado do piso.
Como Santos Dumont no centro da cidade.
O tanto que ela amava.
Insano e bizarro, ainda mais que demais.
Sinistro.
O contrário de destro.
E quem não sabe disto?
Apenas os tolos que amam.
Apenas os tolos que amam demais.
Mas quem nunca amou demais?
Quem?
Sinistro.
O contrário de destro.
E quem não sabe disto?
Apenas os tolos que amam.
Apenas os tolos que amam demais.
E ela deu mais um trago e mais uma tragada.
Chorou.
Soluçou.
Quatro e meia da manhã.
Ele?
Ele?
Ele não veio.
Óbvio.
Ainda mais uma vez.
O que restou?
Apenas batimentos cardíacos acelerados, suor frio e tenso, tremores nada leves, cigarros e vodka barata, bem barata.
E a tranquilidade de quem foi esquecida.
Para sempre.
Para sempre...



19.4.18



UNDER THE IRON BRIDGE WE KISSED




Tarde demais.
Muito.
O beijo já havia rolado.
Já havia rolado.
E nenhuma balada indie dos anos oitenta podia evitá-lo.
Nenhuma.
Tarde demais.
Muito.
O beijo já havia rolado.
Já havia rolado.
E no final do dia, ainda naquela tarde de outono, eles só podiam sorrir.
Felizes.
Muito felizes.
E dane-se todo o resto.
Tarde demais.
Cedo demais.
Sorrisos.
O beijo já havia rolado.
Já havia rolado.
E eles estavam felizes.
Precisa mais?
Mais???
Claro que não...
Claro que não...






E POR POUCO NÃO SE AFOGOU...


Ela o culpava.
Muito.
Por todas as coisas erradas que ele fez.
Todas as coisas erradas que ele fez.
Sendo incorretas ou não.
Depende do ponto de vista.
Querendo ou não fazer.
Uma babaca.
Um babaca.
Dois babacas.
Dois.
Palavras rudes não curam ninguém.
Ninguém.
Não mesmo.
E devemos sentir desejo?
Devemos?
Sim.
Sempre.
Sempre. 
Sempre e sempre e sempre.
 E não devemos sentir medo.
 Nem nada muito perto disso.
 Nada perto disso.
 E sorrir.
 Quando a chuva parar de cair.
 E o coração ficar quente e calmo.
 E o corpo dela quente ao seu lado.
 Como tudo deveria ser...
 Tudo deveria ser...
Mas MPB ele não gosta.
Nunca.
Definitivamente.
Definitivamente...
E por pouco não se afogou.
Não se afogou...



19.2.18



ACORDES

E era ele e sua guitarra verde velha.
Apenas os dois: Ele e os seus acordes - além de um sofá horroso, um apartamento velho e um copo de gim.
Sem gelo.
Sem ar condionado.
Sem suor.
Sem nada.
Nada mais.
Nada mais.
Apenas acordes mal tocados.
E eles rolavam noite afora.
Descontrolados.
Deliciosos.
Acordes.
Apenas acordes.
Misturados ao barulho da chuva.
Misturados ao som do salto alto da vizinha de cima.
Delícia de saltos e unhas vermelhas pintadas.
Acordes misturados aos sons da noite.
Ao som das unhas da sua vizinha.
Ao som dos seus dedos.
Acordes.
Apenas acordes.
Dedos delicados e sensíveis.
Acordes misturados aos deliciosos barulhos da madrugada.
Sons deliciosos.
Os barulhos da sua vida.
Medíocre, porém adorável vida.
Nada mais que isso.
E pode haver mais?
Pode?
E você me diz aonde ir.
Aonde ir...

“One sign said north one sign said east so I went south…”