15.2.19



PONTEIO

E o gato dormia ao lado dela.
Na cômoda ao lado da cama.
Próximo.
Bem próximo.
Ronronando baixinho com um ronco fofo.
Um ronco fofo.
Um amigo próximo sem se importar com a fumaça do seu cigarro.
Com seu hálito de vodka barata.
Um gato.
Um amigo.
Lindo, peludo e gordo.
Mais gordo do que o necessário.
Mais pílulas do que o necessário.
Mais álcool do que o necessário.
Mais esperança do que o necessário.
Mais gato do que o necessário.
Mais fumaça do que era preciso.
Mais Edu Lobo na vitrola do que o necessário.
Mas nunca é demais.
Nunca.
Mais noite do que o necessário.
Mais noite.
Muito mais.
Menos lágrimas.
Não.
As lágrimas eram as mesmas.
Ela não esquecia.
Não.
Não esquecia e nem dormia.
E chovia.
E fumava.
E chorava.
Muito.
Muito.
Mas o gato não se importava.
Apenas dormia.
E os trovões?
Apenas um ponteio.
Apenas um ponteio.
Um novo começo?
Pode ser.
Pode ser.

“Ponteio
...
Colocar os dedos sobre as cordas de um instrumento musical para produzir o som...”

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28.11.18



FANTASIAS


E lá estava ele em frente ao espelho.
Um rosto pálido em frente ao espelho.
Muito pálido e muito inchado.
Excesso de bebida.
Excesso de excessos.
Uma festa a fantasia.
Mais uma festa a fantasia.
E ele odiava.
Mesmo.
Odiava de verdade.
Mas iria mesmo assim.
Mesmo assim.
Vampiro?
Fantasma?
Monstro?
Duende?
Não.
Ele decidiu ir de si mesmo.
Apenas um terno e uma gravata e um chapéu.
Apenas isso.
E no salão de repente ele a viu. Uma bailarina linda. Toda de rosa e com uma máscara suave cobrindo parte do seu rosto. Seu coração disparou e ele tomou um gole forte do conhaque para ter a certeza de que não desviaria antes de chegar próximo dela.
- Oi Débora, tudo bem? - ele perguntou, tímido.
- Débora? Não, meu nome é Letícia. Muito prazer - a "sua" bailarina respondeu, sorrindo
- Me desculpe - ele disse - Confusão, sabe? A luz, a música, a bebida. Mil desculpas – acrescentou – eu estava a procura de alguém.
- Deixa para lá. Não tem importância. Mas, você não me disse ainda o seu nome - ela perguntou, com um brilho incomum nos olhos
- ... Sinatra - ele disse.
- Como? - ela indagou, não entendendo o que a sua linda boca murmurava
- Adoro essa música do Sinatra. Quer dançar comigo? Meu nome é André - ele sorriu
- Claro. Vamos.
- Será ótimo dançar com uma bailarina - ele brincou
- Será ótimo perverter um mafioso - ela emendou
E foram dançar. Dançando Frank Sinatra e entretidos com I´ve Got You Under My Skin e com a sua bailarina, ele não percebeu, ao fundo do salão, uma moça parada, toda vestida de preto e fumando um Marlboro Light, observando a sua dança. Era uma bailarina vestida de preto, maravilhosa como em Swan Lake, maravilhosa como em o Lago dos Cisnes. Ela apagou seu cigarro no chão, com sua pequena sapatilha. Olhou uma última vez para o casal se divertindo na pista e se dirigiu, silenciosa e cabisbaixa, direto para a porta de saída.
Eles?
Divertiram-se.
Muito.
Ela?
Não.
Definitivamente.



27.11.18



SHOWS


E a cidade estava repleta de shows naquele fim de semana.
Repleta, repleta de shows.
Repleta.
Morrissey, New Order, Soul Asylum e o caralho a quatro.
Muitos shows.
Tudo o que você pode e poderia imaginar.
Tudo.
Mas não havia grana e nem ingressos.
Nem neve.
Muito menos neve.
Nada.
Aqui não é a Islandia.
Ainda...
Ainda não...
Mas havia calor.
Mormaço, desejo e tesão.
Suor, lágrimas e chama.
Chama.
Uma chama crescendo e um fogo.
Um fogo muito grande.
Aquecendo o que era para ser aquecido.
Ser muito aquecido.
Naquele apartamento vagabundo em que eles moravam havia dedos e desejos e lábios e delírios e copos americanos repletos de vodka barata.
A pior das vodkas.
A melhor das vontades.
Muitas vontades.
Muitas vontades.
Vontade de esquecer.
Tudo.
Apenas tudo.
E a cidade estava repleta de shows naquele fim de semana.
Repleta, repleta de shows.
Repleta de desejos.
Mas repleta de shows.
Mas o maior aconteceria naquela cama.
Dois corpos nus e aquecidos.
Cheiros.
Odores.
Suores.
Delírios.
Toques.
Dedos.
Saliva.
Goles.
Beijos.
Calcinhas e cuecas á parte.
Pelos e arrepios.
Cigarros e tudo o mais.
E a cidade estava repleta de shows naquele fim de semana.
Repleta, repleta de shows.
Repleta.
Mas o melhor acontecia entre eles.
Apenas entre eles..
Entre eles...
Saliva, lábios e beijos.
Muitos.
Deliciosos.
Apenas deles.
E disso não dependia grana nenhuma.
Grana nenhuma.



10.11.18




ELA SEMPRE ANDAVA DEVAGAR. SEMPRE DEVAGAR.


Ela andava devagar.
Sempre.
Caminhava lentamente mesmo sob a chuva.
Com seu delicioso guarda chuva amarelo.
Lindo.
Charmoso como ela.
Charmoso como tudo.
E como a chuva.
Apenas charmosa.
Mas ela andava devagar.
Sempre.
Lenta.
Caminhava lentamente mesmo sob a chuva.
Com seu delicioso guarda chuva amarelo.
Lindo.
Charmoso como ela.
Não se importava.
E fumava.
Um atrás do outro.
E parava nos botecos.
Um conhaque sempre é bom.
Dois ainda melhor.
E parar em botecos é bom.
Sempre alguém nota um guarda chuva amarelo em um boteco.
Sempre.
Ainda mais com ela.
Ainda mais com ela.
E ela andava devagar.
Sempre.
E fumava e bebia e caminhava.
Lenta.
Caminhava lentamente mesmo sob a chuva.
Com seu delicioso guarda chuva amarelo.
Lindo.
Charmoso como ela.
Charmoso como tudo.
A razão?
Não querer chegar a seu destino.
Não querer chegar.
Ou querer demorar.
Demorar muito.
Ainda que sob a chuva e sob o efeito de doses de conhaque e de nicotina.
Lindo guarda chuva amarelo.
Lindo.
Linda ela.
Linda.
Passo lento.
Corajoso.
Muito corajoso.
E um lindo guarda chuva amarelo.
Para aqueles dias de tormenta.
Muita tormenta.
Tormenta demais.
Mas ela andava lentamente e ia suportar.
Suportar e ser feliz.
Muito feliz.



9.11.18



PUNK. ELA.


Ela era.
Punk?
Definitivamente.
Muito.
Muito ela.
Cabelos coloridos.
Anéis.
Piercings.
Ela era.
Apenas ela.
Definitivamente ela.
E gostava de confrontar.
Não de ser confrontada.
Não.
Nunca.
Fofa.
Linda.
E punk.
Muito.
Com cabelos ruivos e longos. e gostava de mensagens de manhã.
Louca.
Linda.
Sempre.
E gostava de homens que escreviam com letra bonita.
Mas nem todos sabem isso.
Um horror se pensarmos na tecnologia de hoje.
Um horror.
Mas ela gostava.
Demais.
Punk em todos os sentidos.
Ela era.
Definitivamente.
Muito.
Cabelos coloridos.
Anéis.
Piercings.
Ela era.
Punk?
Definitivamente.
Tatuagem?
Não sei.
Mas creio que sim.
Pele, cheiro e toque.
Apenas ela.
Apenas ela.
Punk?
Claro que sim.
A mais fofa do mundo.
Sempre.




O AMOR CHEGA.

Cinzas.
Muitas cinzas.
E ela era ciumenta.
Muito.
Gostava de dominar e controlar.
Ciumenta.
Ciumenta demais.
E gostava do controle.
Ele não.
Um bobo.
Bobo.
Apenas um.
E as cinzas?
Elas apenas iam embora.
Ela?
Se rendia a ele.
Com todo o respeito.
Com todo o amor.
O amor chega.
Um dia chega.
Cinzas.
Muitas cinzas.
E ela era ciumenta.
Muito.
Gostava de dominar e controlar.
Ciumenta.
Ciumenta demais.
E gostava do controle.
Mas o controle pode mudar.
E quem disse que tem que haver controle.
Quem?



8.11.18




O QUE A FOTO NÃO REGISTRA


Fotos.
Fotos e mais fotos.
Ainda existem fotos?
Não sei.
Mas fotos são o máimo.
O máximo.
Registram sorrisos e tudo mais.
Sorrisos e tudo mais.
Tudo mais.
Mas o aroma do perfume não se registra.
Não.
Vontade e os desejos também não.
Não se registram.
O sabor da saliva também não.
O aroma do amor.
O aroma.
Mas são apenas fotos.
Fotos.
Fotos e mais fotos.
Sorrisos e tudo mais.
Tudo mais.
Apenas faces e faces e faces.
Sem odores e sabores.
Nada de desejos.
Nada de vontades.
Nada de arrependimentos.
Nada.
Fotos.
Fotos e mais fotos.
Sorrisos e tudo mais.
Tudo mais.
Mas o aroma do perfume não se registra.
Ele fica na memória.
Na memória do primeiro beijo deles.
O primeiro.
O primeiro...
Com muito aroma.
Com muita vontade.
Muita...
Muito...
Mas o aroma do perfume... ah, este não se registra...
Não.
Infelizmente.
Fica na memória.
Apenas.
Apenas isto...
O que já é muito...
Muito...
Muito...





OS DEDOS E A NEVE


E ela queria os seus dedos.
Todos.
E a neve.
Os dedos.
Longos.
Lentos.
Úmidos.
Todos os dias.
Todos os dias.
E a neve.
Fofa.
Lenta.
Úmida.
Todos os dias.
Todos os dias.
E a língua, óbvio.
Ele queria muita língua.
Muita língua.
Muitas misturas e dobraduras.
Muitos dedos.
Muitos dedos.
Muita neve.
O motivo?
Apenas paixão, desejo e tesão.
Precisa de mais?
Não...
Apenas um aquecedor e um lençol de seda.
Apena isso.
E dedos.
Muitos dedos...
Mais de vinte...



7.11.18



VENUS AS A BOY (HARDCORE II)


E ela queria bilhetes todos os dias.
Todos os dias.
E ele escrevia.
Todos os dias.
Bilhetes, salivas e desejos.
Todas as salivas.
Todos os desejos.
Todos os seus dedos.
E ela queria os seus dedos.
Todos.
Todos os dias.
Nos melhores lugares.
Em todos os lugares.
Nos lugares mais impróprios.
Nos lugares mais úmidos.
Dentro dela, simples assim.
Ela queria os dedos dele ali.
Todos.
Todos os dedos.
Roçando, provocando... tudo.
Dedos úmidos.
Úmidos pelo tesão de um ao outro.
Desejo e vontade.
E ainda assim, com frio e tudo, ele pensava em escrever.
E ela em foder.
Mas não.
Ele queria tocar.
Queria sentir.
Seios.
Dedos.
Sentidos.
Pernas.
Tudo mais.
Sem fôlego.
Sem fôlego.
Frio, calor e neve.
Dedos úmidos.
Neve.
Muita neve.
Frio.
Muito frio.
Mas com muito calor.
Muito calor.
E vontade.
E desejo.
Mas ele escrevia.
Idéias que surgiam.
Idéias.
Cheiros e vontades.
Cheiros dela.
Cheiros dele.
Bilhetes todos os dias.
Gozo todos os dias.
Todos os dias.
E ele pousava os bilhetes na mesa da cozinha.
Diariamente.
Para quando ela acordar preparar o café e ler.
E se tocar.
E gozar.
Todos os dias.
Todos os dias.
E ela queria bilhetes todos os dias.
Todos os dias.
E ele escrevia.
Ele?
Apenas queria ela.
Nua e linda.
E seu perfume.
Todos os dias.
Sob um lençol qualquer e com a neve lá fora.
Nua e linda.
Como apenas ela...
Apenas ela...
Sem neve e sem roupa.
Apenas seu perfume.
Apenas ela.
Apenas eles...
Nus e amantes.
Desejo.
Muito desejo...




VENUS AS A BOY (HARDCORE)


E ela queria bilhetes todos os dias.
Todos os dias.
E ele escrevia.
Todos os dias.
E ela queria os seus dedos.
Todos os dias.
Nos melhores lugares.
Nos lugares mais impróprios.
Nos lugares mais úmidos.
E ainda assim, com frio e tudo, ele escrevia.
E dedilhava.
Sem fôlego.
Sem fôlego.
Antes de sair.
Neve.
Muita neve.
Com frio.
Muito frio.
Mas com muito calor.
Muito calor.
E vontade.
E desejo.
Mas ele escrevia.
Idéias que surgiam.
Idéias.
Cheiros e vontades.
Cheiros dela.
Cheiros dele.
Bilhetes todos os dias.
Gozo todos os dias.
Todos os dias.
E ele pousava os bilhetes na mesa da cozinha.
Diariamente.
Para quando ela acordar preparar o café e ler.
E se tocar.
E gozar.
Todos os dias.
Todos os dias.
E ela queria bilhetes todos os dias.
Todos os dias.
E ele escrevia.
Ele?
Apenas queria ela.
Nua e linda.
E seu perfume.
Todos os dias.
Sob um lençol qualquer e com a neve lá fora.
Nua e linda.
Como apenas ela...
Apenas ela...
Sem neve e sem roupa.
Apenas seu perfume.
Apenas ela.
Apenas eles...
Nus e amantes.
Desejo.
Muito desejo...