19.2.18



ACORDES

E era ele e sua guitarra verde velha.
Apenas os dois: Ele e os seus acordes - além de um sofá horroso, um apartamento velho e um copo de gim.
Sem gelo.
Sem ar condionado.
Sem suor.
Sem nada.
Nada mais.
Nada mais.
Apenas acordes mal tocados.
E eles rolavam noite afora.
Descontrolados.
Deliciosos.
Acordes.
Apenas acordes.
Misturados ao barulho da chuva.
Misturados ao som do salto alto da vizinha de cima.
Delícia de saltos e unhas vermelhas pintadas.
Acordes misturados aos sons da noite.
Ao som das unhas da sua vizinha.
Ao som dos seus dedos.
Acordes.
Apenas acordes.
Dedos delicados e sensíveis.
Acordes misturados aos deliciosos barulhos da madrugada.
Sons deliciosos.
Os barulhos da sua vida.
Medíocre, porém adorável vida.
Nada mais que isso.
E pode haver mais?
Pode?
E você me diz aonde ir.
Aonde ir...

“One sign said north one sign said east so I went south…”





16.2.18



A NOITE É (OU FOI) UMA PRINCESA


- Você não entendeu porra nenhuma do que eu disse, não é?– ele perguntou e gritou descontrolado.
Ela sorriu de forma irônica e respondeu – Não? Vá se foder seu otário. Você é um imbecil. Um imbecil completo.  Eu entendi bem a porra toda. Eu entendi tudo. Vai com ela, filho da puta. Vai com ela para a porra da festa.
Ele olhou para o alto e nada disse.
Apenas suspirou.
Suspirou forte.
- O que foi? – ela perguntou - Deixou de ser o bonzão, o cara legal, o super amigo daquela vaca? – disse de forma amarga.
- Você não entendeu merda nenhuma do que eu disse – ele repetiu menos descontrolado – Ela apenas quer minha companhia. Apenas minha companhia. Nada a ver, além disso.
Ela chorou.
Ele não.
- Olha, faça o que você quiser – ela disse - O que quiser. Mas me deixe em paz. Pode ser? – perguntou com os olhos vermelhos, aflitos, desesperados.
Ele quase chorou.
Quase.
- Eu recordo uma canção antiga – ela disse. Dizia assim: “A noite é princesa, caída por mim, no lado do peito secreta solidão... Eu lembro lugares...
- Lugares? - ela completou – quero que você suma. Suma. De verdade. Some da minha vida. Some...
Ele abaixou a cabeça.
Ela nada disse.
- Posso...? – ele tentou.
- Vá se foder e cai fora – ela respondeu. Mais rápida que ele. Muito mais ligeira.
E do nada se fez o mesmo.
Erros de um. Erros do outro.
Erros.
E um frágil amor.
Um frágil amor...
Muito...






COSMONAUTA DJ


Três da manhã.
A noite daquela sexta estava apenas começando.
Apenas começando.
O Clube Varsóvia estava cheio, como sempre.
Como sempre.
Mesmo com a chuva despencando lá fora.
Despencando em baldes, não em gotas. Não em gotas.
Ao menos a luz não caiu.
Ao menos nenhum imbecil pediu música.
Ao menos até aquele momento.
Mas, ok.
Ele estava em casa, cercado de seus vinis, de seus pendrives, de seu notebook, enfim, de tudo o que precisava para tentar fazer as pessoas dançarem.
Estava dentro do seu aquário minúsculo com todos estes aparelhos, apenas escolhendo as músicas e observando as pessoas dançando, beijando, cheirando, fumando, curtindo, rindo, olhando umas as outras. Uma deliciosa caça de gatos e ratos sob aquelas luzes incansáveis que não paravam de brilhar e girar sua mente como um disco de vinil.
E, mesmo querendo estar sozinho, ele estava dentro do seu aquário.
Dentro do seu minúsculo, porém adorável e seguro aquário.
No Clube Varsóvia.
Um cosmonauta ilhado dentro da sua nave.
Apenas com a sua música, com os seus problemas, as suas doenças, as suas dores, as suas necessidades, a sua saudade. Muita saudade. Muita saudade.
Mas ninguém precisava saber disso.
Ninguém.
Ninguém precisava saber disso.
O que precisavam era de músicas felizes.
Muito felizes.
Ele tinha que tocar músicas compostas de pílulas rosa e balas em forma de acordes mal performados ou batidas eletrônicas.
Conforme o momento.
Conforme a nicotina.
Conforme a taxa etílica.
Conforme o nível de endorfina da pista.
E já eram quatro horas da manhã.
A noite já havia começado.
Começado há tempos.
O Clube Varsóvia ainda mais cheio, como sempre naquele horário.
Como sempre.
E ele, o “responsável” pela dança precisava tocar as canções felizes, embora, definitivamente, ele não quisesse.
Não mesmo.
Ao menos não naquela noite.
Não naquela noite.
Mas ninguém precisava saber disso.
Ninguém.
Pílulas rosa e balas em forma de acordes mal performados ou batidas eletrônicas fazem todos dançarem. Todos dançarem.
Tônica da noite.
Isto é o que importa.
Mais uma noite em Varsóvia.
No Clube Varsóvia.
E, do nada, uma garota bem bonita deixou um bilhete mal feito em um guardanapo vagabundo e o escorregou para os seus dedos entre as frestas do seu aquário.
Sorriu, piscou o seu olho direito e partiu.
Ele ficou surpreso.
Bastante surpreso.
Bastante.
E leu o que estava escrito.
Sorriu como um tolo.
Um tolo.
Esqueceu as músicas, esqueceu a pista, esqueceu o aquário e sorriu.
Apenas sorriu.
Muito feliz.
Muito feliz mesmo.
Decidiu tocar apenas o que queria dali para frente.
Apenas o que queria.
Canções sobre pílulas rosa e balas em forma de acordes mal performados ou batidas eletrônicas para fazer todos dançarem. Todos dançarem.
Inclusive ele.
Um Cosmonauta fora de órbita.
Na Ionosfera, apenas lembrando e desejando aquelas pernas tatuadas.
Dela.
E ela?
Estava lá.
Era o que o bilhete dizia.
Bebendo e o observando dentro do aquário.
Depois de tanto tempo.
Tanto tempo.
O que dizia o bilhete?
Nada além de uma deliciosa caça de gata e rato sob aquelas luzes incansáveis que não paravam de brilhar e girar a mente do DJ como se fora um velho disco de vinil.
Ele sorriu ainda mais percebendo ela sentada no bar o fixando, com suas lindas pernas tatuadas ao lado da sua linda amiga delivery de bilhetes.
Ele estava na Ionosfera.
Ionosfera.
E a observando.
Cruzamento delicioso de olhares.
Ela, do balcão do bar.
Ele, da sua isolada nave cosmonauta.
Ela apenas esperando ele parar.
Ele desejando muito isso.
Apenas parar e ir até ela.
Eles?
Apenas esperaram a noite acabar para, assim, a noite realmente começar...
Começar...
E ele era o DJ.
Ele decidia tocar.
Definitivamente.
Simples assim.

E quem sabe o que é a Ionosfera?
Quem sabe naquela hora da madrugada...
Naquela hora da madrugada.

Apenas eles.
Apenas eles.

“IONOSFERA
substantivo feminino
Camada da atmosfera terrestre que contém cargas elétricas (íons e elétrons  livres), situada entre a estratosfera e a exosfera, a aprox. 50 km –80 km de altitude”
(Dicionário Houaiss)

Simples assim.

“D.J.

I'm home, lost my job, and incurably I'll
You think this is easy, realism
I've got a girl out there, I suppose
I think she's dancing
Feel like Dan Dare lies down
I think she's dancing, what do I know?
I am a D.J., I am what I play
Can't turn around no, can't turn around, no, oh, ooh
I am a D.J., I am what I play
Can't turn around no, can't turn around, no, oh no
I am a D.J., I am what I play
I got believers
Believing me, oh
One more, weekend, of lights and evening faces
Fast food, living nostalgia
Humble pie or bitter fruit
I am a D.J., I am what I play
Can't turn around no, can't turn around no, ooh
I am a D.J., I am what I say
Can't turn around no, can't turn around, ooh
I am a D.J., I am what I play
I've got believers
Believing me
I am…”








15.2.18



GOTAS DE SUOR QUE NÃO MOLHARAM NADA E NEM MOLHARÃO MAIS NINGUÉM


O relógio avançava e avançava e avançava.
Ponteiros a mil.
Mil.
Velocidade máxima.
Total Sandra Bullock para quem tem mais de duzentos anos.
Velocidade máxima.
Ponteiros voando.
Alta madrugada.
Muito alta madrugada.
Mas ela não dormia.
Definitivamente Estela não dormia.
A insônia reinava.
A insônia reinava, porém não sozinha.
Não sozinha.
A fumaça era a rainha.
A real rainha.
A fumaça predominava em todo o ar que se poderia, eventualmente, respirar naquele apartamento de merda em que ela morava no centro antigo da cidade.
Aquele minúsculo apartamento de único cômodo (cômodo?).
A fumaça fazia o ar fugir pelas mínimas frestas do apartamento, de tão densa que aquela fumaça era.
Fumaça de ódio, fumaça de dúvida, fumaça de ressaca, fumaça de amor mal resolvido, fumaça imaginária, fumaça de cigarro barato comprado no centro da cidade junto a um camelô qualquer.
E Estela estava nervosa.
Muito nervosa.
Ansiosa.
Muito ansiosa.
Muito nervosa e ainda mais ansiosa.
Ansiolítico nenhum resolveria.
Nenhum.
Não àquela altura.
Não.
Mesmo.
Apenas a voz de Lígia, que ela tanto queria ouvir.
Que ela tanto queria ouvir.
Coisa sem sentido.
Coisa de amor.
Sem sentido.
Sem razão.
Razão que Estela, definitivamente, não tinha e nem nunca teve.
Nunca.
Mas ela esperava a porra do telefone tocar.
Ainda esperava tocar.
Ainda...
E quem tem telefone fixo hoje em dia? – ela pensou, tendo a real noção da sua situação tão ridícula.
E ela fumava e fumava e fumava e bebia e bebia e bebia e o relógio avançava e avançava e avançava.
Ponteiros a mil.
Mil.
Sandra Bullock para quem tem mais de duzentos anos.
Alta madrugada.
Mas ela não dormia.
Definitivamente não dormia.
Apenas suava.
Suava e suava e suava.
Gotas de suor ácidas e frustradas.
Gotas de suor.
Gotas de suor que não molharam e nunca mais molharão ninguém.
Definitivamernte.
E o sol, finalmente, nasceu.
O telefone, com certeza, não tocou.
Lígia não ligou.
Estela não dormiu.
E as gotas de suor?
Secaram.
E nunca molharam e nem molharão mais ninguém.
Mais ninguém...

Nunca mais...

9.2.18


Nunca republiquei

mas hj não deu.

Republico.

Muito oportuno.

Muito...


CARNAVAL, REVEILLON E MPB

Ela gostava de MPB.
Ele não.
Ela acreditava no além.
Ele não acreditava em nada além dele.
Ela gostava de tudo, menos de Elis Regina.
Ele gostava de tudo, mais de Ramones.
Ele a amava.
Ela também.
Ele não sabia nada.
Ela o ensinou.
Ele aprendeu.
Eram duas figuras totalmente diferentes uma da outra, porém muito iguais.
Esquisito não?
O destino existe? Será?
- Você me ama? – ele perguntou inseguro demais apesar da sua idade, segurando-a pelos seus ombros largos e deliciosos com paixão e muito tesão. Com muita paixão e muito tesão. Amava (ela e os seus ombros desnudos).
Ela sorriu. Muito mais nova que ele, muito mais nova que ele, porém muito mais madura, com certeza – Claro. Claro que amo, seu bobo.
Ele chorou.
Ela sorriu. Sorriu e secou as suas lágrimas.
- Não chora – ela pediu – Por favor.
- Não consigo – ele respondeu.
- Não? – ela insistiu dando-lhe um beijo carinhoso e delicado em seu rosto – O amor existe, seu bobo. Basta acreditar.
Ele secou as suas lágrimas e com a voz tonta e embargada apenas respondeu - Eu sei. Eu sei que existe. Demorei, para perceber isto não?
Ela sorriu seu sorriso mais lindo – Nunca é tarde. Bobo. Ao menos você percebeu. Antes tarde do que nunca. É bom aprender a ser feliz.
- Te amo – ele disse.
- Eu também – ela respondeu com um sorriso.
Ela gostava de MPB.
Ele não.
Ela acreditava no além.
Ele não acreditava em nada além dele.
Ela gostava de tudo, menos de Elis Regina.
Ele gostava de tudo, mais de Ramones.
Ele a amava.
Ela também.
Ele não sabia nada.
Ela o ensinou.
Ele aprendeu.
Esquisito não? Como destino pode ser tão brincalhão assim? Como?


8.2.18



UMA NOITE DE CHUVA NO HOTEL VARSÓVIA


Ela estava sentada com as pernas bem dobradas, encostada junto à parede daquele quarto vagabundo do Hotel Varsóvia.
Debaixo da esquadria da janela da sala daquele apartamento vagabundo em que estava hospedada.
Uma droga.
Uma porra de apartamento.
Ao menos sozinha.
Ao menos.
No escuro, sentada com as pernas bem dobradas, quase com câimbras que sequer sentia, ela apenas via a sombra noir dos relâmpagos que davam as caras lá fora, intermitentemente.
Uma droga.
Uma porra de apartamento.
Uma porra de Hotel Varsóvia.
Ao menos sozinha.
Acuada e assustada.
Acuada e assustada.
Bem, nada estranho.
Nada estranho.
Nada estranho vindo do seu cotidiano.
Acuada e assustada era apenas ela na sua melhor forma.
Na sua pior forma.
Na forma de sempre.
Tola as usual.
E a chuva parecia ser despejada do céu pelos anjos – Anjos? Que porra é essa? - através de enormes baldes. Enormes baldes, repletos de água doce e ao mesmo tempo amarga.
Água das nuvens, dos rios, dos Alpes, de lágrimas e de tudo o mais o que parecesse líquido.
Mas, ainda assim, o seu baseado insistia em permanecer aceso preso entre os seus lábios.
Insistia amigavelmente em permanecer aceso.
Bom amigo.
Bom amigo.
Seu único e confidente amigo naquele momento.
E não havia luz no apartamento daquele hotel vagabundo.
Nada.
Porra nenhuma.
Nem uma faísca de nada.
Mas... Ela não tinha medo do escuro.
Não.
Ela tinha medo dela mesmo.
Apenas isso.
Simples assim.
Não havia luz no apartamento.
Nada.
Porra nenhuma.
Nem uma faísca de nada.
Nada.
Mas... Ela não tinha medo do escuro.
Não.
Definitivamente não.
Ela tinha medo dela mesmo.
Escuro?
Corte de energia pelo não pagamento ou simples queda em razão da chuva? Ela nem tinha idéia e isso pouco importava aquela altura do campeonato, aquela altura dos acontecimentos.
Naquele momento pouco importava a porra da ausência de luz. Pouco importava.
Mesmo.
Ela já não tinha dinheiro, telefone, carro, água e a luz, diante de tal cenário de caos a falta de tudo era o menor dos seus problemas. O menor dos seus problemas.
O que restava era proteger seu baseado, o pouco da vodka barata que restava na cozinha e suas pílulas rosa.
Apenas isso.
Nada mais.
E a chuva parecia ser despejada do céu através de enormes baldes. Enormes baldes, repletos de água doce e amarga. Água das nuvens, dos rios, de lágrimas e de tudo o mais que fosse líquido.
E ela permanecia sentada com as pernas bem dobradas, ainda encostada junto à esquadria da parede da sala.
Debaixo da esquadria da janela.
Debaixo da porra da esquadria com a foto dela entre seus dedos e o baseado entre os seus lábios.
Queimando seus lábios.
Queimando seus lábios.
E seus dedos?
Dedos longos, finos e bem cuidados. Dedos de pianista como dizia sua falecida avó.
Os seus dedos segurando a foto.
A foto delas.
No escuro, ela ainda continuava apenas a ver a sombra noir dos relâmpagos nas paredes e que davam as caras lá fora.
Acuada e assustada.
Acuada e assustada.
Mas ela não tinha medo do escuro.
Não.
Mas se deu conta da sua situação e chorou.
Chorou.
Como uma criança.
Totalmente infantil.
Totalmente Ela.
E debaixo da janela com todo aquele céu líquido derretendo as estrelas e com a foto dela entre seus dedos e o baseado entre seus lábios ela apenas desejou uma coisa...
Uma pequena coisa que faria toda a diferença...
... que ela estivesse por perto.
Que ela ainda estivesse por perto.
E que o céu não tivesse a afogado.
Não muito longe...
Não muito longe...




1.2.18




VALSAS NADA AMARGAS NA MADRUGADA


E lá estava ela.
Uma tola sentada no balcão de um bar medonho localizado bem em frente ao Clube Varsóvia, lá pelas três da madrugada de uma sexta feira qualquer.
Uma úmida sexta feira qualquer em um bar medonho repleto de ninguém.
Sem clientes.
Sem clientes e apenas com uma trilha sonora vagabunda ecoando sem folga de um radinho de pilha postado em cima do enferrujado freezer das cervejas.
Sem clientes e apenas ela e o pobre do balconista.
E ela tomava goles e mais goles de seu conhaque de péssima qualidade e fumava um cigarro ainda mais barato, também de péssima qualidade, como se isso fosse possível. Como se fosse possível algo pior do que aquele conhaque.
Nicotina pura.
Mas era o que o pouco dinheiro que ela tinha entocado nos bolsos apertados da sua surrada calça jeans podia comprar.
E ela fumava os malditos cigarros baratos.
Um atrás do outro.
Um atrás do outro.
E o conhaque já estava sendo dado como “brinde” pelo balconista.
Um cavalheiro, enfim, no meio do caos.
Um cavalheiro que ela conhecia há tempos.
Tempos e tempos.
E chovia.
Chovia para caralho.
Gotas muito gordas caindo sem parar.
E a música barata não parava de sair do radinho de pilhas para explodir em seus ouvidos.
Derretendo o cérebro.
E chovia para caralho.
Muito mesmo.
E ela deciciu que talvez não fosse entrar no Varsóvia.
Talvez não.
Muito provavelmente não.
Na verdade iria depender muito da quantidade do conhaque vagabundo gentilmente oferecido pelo seu amigo balconista.
Mas o problema maior era outro.
Não o conhaque barato e nem os cigarros ruins e nem o balconista e nem o radinho de pilha que tocava canções péssimas.
O problema estava do outro lado da rua.
Do outro lado da rua.
O problema era ele.
Apenas ele.
 E ele estava lá dentro.
Dentro do Clube Varsóvia.
E, com certeza, ele estava lá dançando com aquela ruiva toda tatuada e linda que era cruel e adoravelmente perfeita.
Perfeita.
O oposto dela.
Uma afronta de beleza.
Ruiva e linda.
Muito ruiva.
Muito linda.
E, na verdade, ele sabia disto, não à toa que estava lá, dançando com a ruiva e sendo feliz.
Ela?
Do outro lado da rua, sentada no miserável boteco vendo a chuva despencar. Literalmente despencar.
Sem saber exatamente o que fazer.
- Olha – disse o balconista do boteco de forma até gentil – Não quero me intrometer, mas você vai ficar muito tempo por aí?
- Como? – ela perguntou distraída.
O moço a olhou com compreensão e respondeu – Veja, você está aqui há um tempinho considerável, olhando esta porra desta chuva e encarando sem parar a porta do Clube Varsóvia ali em frente. Não entra a porcaria de um cliente nesta espelunca há um tempão. Você vai atravessar a rua e entrar no Varsóvia? – perguntou novamente e de forma direta.
Ela o olhou com surpresa. Nada respondeu.
Sabia que ele estava certo.
Ela não teria coragem.
- Então... – prosseguiu o balconista – já é tarde. Eu até adoraria ir para minha casa. Dormir sabe? Faz bem às vezes.
Ela concordou com a cabeça e disse sincera – Me dá mais uns vinte minutos? Mais uma dose de conhaque e um par de cigarros vagabundos. Pode ser? – pediu – Quem sabe aí me decido e te deixo em paz – completou.
Ele concordou com a cabeça enquanto se virava para pegar a garrafa de conhaque ainda mais uma vez.
E ela voltou seu olhar para a chuva.
Do nada, sentiu um toque leve em seu ombro. Perfume absolutamente familiar. Suavemente familiar. Virou e não acreditou que era ele. Definitivamente não acreditou.
Mas era.
Era ele mesmo.
Ele.
Apenas ele.
- Oi – ele disse ensopado pela chuva e totalmente sem jeito – Tudo bem? – perguntou.
Ela apenas sorriu e se sentiu uma idiota. Apenas sorriu. Nada disse.
 - Cansei do barulho do Varsóvia sabe? – disse com um sorriso.
Ela encarou-o desconfiada e disse – Cansou?
Ele assentiu com a cabeça, balançando seus longos e molhados cabelos pretos.
- E dela? – ela provocou – Cansou de dançar com ela? - perguntou.
Ele deu um sorriso amarelo e respondeu – Ela está lá. Dançando. Nem sabe onde estou. Mas eu tinha certeza que você estaria por aqui. Lembra do Reveillon do ano passado? Passamos aqui. Lembrei disso. Aliás, nunca esqueci.
- Eu lembro – intrometeu-se o balconista – Eu lembro. Vocês encheram o meu saco sob o barulho de tantos fogos. Podiam ter ido ao Varsóvia naquela noite. Podiam mesmo.
Todos riram da sinceridade explícita.
- Então – ele disse. Eu estava lá, mas na verdade estava com a cabeça aqui. Na verdade, com a cabeça em você. Pode apostar.
Ela o olhou com carinho e afeto. Nada disse. Apenas seu olhar transmitiu o sinal.
- Você podia me perdoar, não? – ele perguntou em voz suave e baixa – Já não está na hora?
- Quer dançar? – ela perguntou, desviando a resposta.
- Dançar? – ele respondeu surpreso.
- Sim, dançar. Não está ouvindo esta adorável balada vulgar dos anos setenta tocando neste maldito radinho de pilha? Esta canção é boa
- Hey – disse o atendente – Maldito o caralho. Este rádio fez muita companhia a você durante a noite toda – emendou com um sorriso enquanto terminava de lavar os últimos copos americanos deixados junto a pia.
Ele sorriu e a segurou pelos ombros finos e pequenos e delicados – Claro. Eu adoraria.
Ela sorriu e se deixou levar.
E dançaram e dançaram e dançaram no apertado salão daquele boteco vagabundo no centro da cidade.
O Clube Varsóvia não era mais o protagonista.
Eles sim.
E a chuva, os sorrisos, os movimentos, a madrugada, o radinho de pilha e os beijos. Muitos beijos de um final – ainda não, mas – quase feliz...
Quase inteiramente feliz.
Quase inteiramente feliz.
Valsas nada amargas na cidade.
Inesperadas e adoravelmente surpreendentes.
Adoravelmente surpreendentes.