4.9.18



GIZ

Madrugada.
Apartamento vazio.
Vazio exceto por ela.
Madrugada alta e tudo o que ela queria era um copo grande de conhaque.
Conhaque ainda que barato.
Era o que podia comprar.
Um copo grande de conhaque e a companhia dele e o seu perfume.
O seu doce perfume.
Delicioso.
Um cigarro também seria bom.
Bem bom.
E o sorriso dele também.
Mas aí seria pedir demais.
Demais.
Chovia na madrugada e ela queria um copo grande e gordo de conhaque
E teve.
E seu cigarro também.
Mas faltava o perfume dele.
O perfume dele.
E o seu sorriso.
O seu sorriso.
Apartamento vazio exceto por ela, seu cigarro e seu conhaque.
E ela escrevia no seu computador de forma insana, sem se importar com os raios que desabavam lá fora.
E desabavam mesmo.
Fortes e claros.
Chuva gigante.
Poltergeist anômalo.
Poltergeist do coração.
Seu próprio poltergeist.
De paixão.
Coração mal cuidado.
Madrugada alta e tempestade forte e tudo o que ela queria era um copo grande de conhaque.
Um copo grande de conhaque e a companhia dele e o seu perfume.
O sorriso?
Um cigarro estava bom.
Bem bom e realista.
O telefone tocou e ela atendeu rápida e aflita.
Engano.
Apenas engano.
Poltergeist anômalo.
Poltergeist do coração.
Seu próprio poltergeist.
Madrugada alta e tempestade forte e tudo o que ela queria era mais um copo grande de conhaque.
Um copo grande de conhaque e a companhia dele e o seu perfume.
Escrever?
Apenas uma carta de amor.
E vários pedidos de desculpas.
Apenas uma carta de amor e palavras erradas.
Mas ela queria escrever em giz.
Em giz.
Branco ou amarelo ou verde ou qualquer cor.
Para poder apagar assim que possível.
E se possível.
Para poder apagar se quisesse.
Poltergeist anômalo.
Poltergeist do coração.
Seu próprio poltergeist.
Apenas uma carta de amor escrita em giz.
Escrita em giz.
Apenas escrita em giz.



23.8.18



TORMENTA

Ele não sabia exatamente o que sentia.
Definitivamente não.
Um vazio imenso.
Intenso.
Um vazio.
“... ela é só uma menina e eu deixando que ela faça o que bem quiser de mim...”.
Paralamas?
Creio que sim.
Mas ele não sabia exatamente o que sentia.
Definitivamente não.
Definitivamente não.
Um vazio imenso.
Intenso.
Um vazio.
Só sabia que tinha sido chutado.
E muito, muito forte.
Muito forte e para muito para longe.
Muito longe.
Um tolo.
Uma garota.
Um amor perdido.
Raiva, frustração, dor, amor, calor, enfim, tudo.
Simplesmente tudo.
Perdido.
Tudo perdido.
Uma tormenta de emoções.
Uma tormenta.
E ele apenas estava lá.
Com seu copo de bebida e seu cigarro vagbaundo.
Ouvindo o barulho da chuva na varanda.
Ouvindo o barulho da chuva na varanda.

“tor·men·ta
sf
1 Tempestade violenta, especialmente no mar; borrasca, temporal: “A lua, nascida durante a tormenta, estava a brilhar sobre o firmamento limpo. Espalmava-se em toda a largura de uma boa gargalhada” (RP).
2 Grande quantidade ou acúmulo de coisas ruins.
3 FIG Grande barulho; agitação, desordem.
4 FIG Discussão acalorada.”

“https://michaelis.uol.com.br/moderno-portugues/busca/portugues-brasileiro/tormenta/”



14.8.18




FOI VOCÊ. DERRUBANDO O CREPÚSCULO


Ele acendeu (mais) um cigarro naquela sala escura e solitária.
Quase fim da madrugada.
Quase fim da madrugada.
Ele deu uma tragada longa e virou (mais) um copo americano de vodka barata naquela sala escura e solitária.
Mais um cigarro.
Mais fumaça.
Mais vodka.
Mais lembranças.
Muito mais lembranças.
Muito mais.
E nenhum incenso aceso.
Nenhum.
Falta dela.
E o batom dela era muito, mas muito vermelho.
Muito mesmo.
Disso ele sempre lembrou.
Sempre.
Batom vermelho daqueles que sequer “desmontam” na piscina de uma apresentação de nado sincronizado.
Sequer “desmontam” em qualquer ocasião.
Jamais.
Água, tempestade ou beijos ardentes.
E a luminosidade era nula ou quase pouca naquela sala vazia, exceto pela chama opaca e amarela do cigarro vagabundo que ele fumava.
Quase fim da madrugada.
Quase fim.
E ele sequer queria levantar do sofá para virar o lado do seu velho disco de vinil cujo lado B já havia acabado há tempos.
Ele acendeu (mais) um cigarro naquela sala escura e solitária.
Quase fim da madrugada.
Quase fim da madrugada.
Ele de uma tragada longa e virou (mais) um copo americano de vodka naquela sala escura e solitária.
Mais um cigarro.
Mais fumaça.
Mais uma vodka vagabunda.
Mais lembranças.
Muito mais lembranças.
Muito mais.
E nenhum incenso.
Nenhum.
E o batom dela era muito, mas muito vermelho.
Muito mesmo.
E, na verdade, era tudo o que ele queria sentir naquele fim de madrugada.
Tudo o que ele queria sentir.
Aquele batom vermelho.
Apenas isso e tudo mais.
Tudo.


“crepúsculo
cre·pús·cu·lo
sm
1 Luminosidade que precede o nascer do Sol ou persiste por algum tempo após o ocaso e que provém da dispersão da luz solar nas camadas superiores da atmosfera.
2 O tempo que dura essa luminosidade.
3 FIG Perda da força ou da importância; decadência, declínio, ruína.
4 P US, FIG O momento inicial de alguma coisa; começo, princípio, prelúdio.”




13.8.18




SALTO ORNAMENTAL


O suor escorria pela sua testa.
Muito.
Gotas grandes e pesadas.
E a plataforma era alta.
Bastante alta.
Bastante o suficiente para dar medo.
Muito.
E o suor?
Bem, ele ainda estava lá.
E ela sabia que deveria ter toda a técnica, plasticidade e flexibilidade que não teve ao longo de todo o tempo de relacionamento com ele.
Ao longo dos últimos meses.
Ao longo dos últimos meses.
O suor escorria pela sua testa.
Muito.
Gotas grandes e pesadas.
E a plataforma era alta.
Bastante alta.
Bastante o suficiente.
Lágrimas?
Bem, elas também estavam lá.
Também estavam lá.
Junto com ela sobre uma plataforma em uma manhã de domingo diante de desconhecidos.
Sem plasticidade.
Sem flexibilidade.
Com dor no coração.
O suor escorria pela sua testa loira.
E ela respirou fundo.
Como em um passe de mágica ela virou o olhar e ele estava lá.
Na platéia.
Apenas na platéia.
Lindo e com um sorriso.
Dedos cruzados.
O suor escorreu ainda mais por sua testa.
Muito.
E a plataforma era alta.
Bastante alta.
Bastante o suficiente.
Ela saltou.
Perfeita.
E a água fria a apanhou de jeito.
Água e lágrimas. A combinação perfeita.
Ninguém percebe nada.
E quando ela acabou e saiu da água ele ainda estava lá.
Lindo e com um sorriso.
Dedos cruzados e flores na mão.
O suor escorreu ainda mais por sua testa.
Ainda mais.
Técnica?
Flexibilidade?
Plasticidade?
Não.
Nada disso.
Apenas um sorriso, amor e a vontade de saltar ainda mais e mais.
Mais e mais...

“Salto ornamental é um esporte que consiste em saltar de uma plataforma elevada em direção à água, realizando movimentos estéticos durante a queda. É um esporte de grande técnica, plasticidade e flexibilidade. 

A plataforma fixa pode ter até 10 metros de altura, em relação à piscina, que deve ter no mínimo quatro metros de profundidade. O saltador é avaliado nos seguintes aspectos: criatividade, destreza, rigor na execução do salto previsto, simetria, cadência dos movimentos, entrada na água.




3.8.18



NADA PODE SER MELHOR QUE ISTO

O sol brilhava.
E eu?
Contente como nunca.
Contente como nunca.
Sem parecer realidade.
Apenas o sorriso dela.
Apenas o sorriso.
Nada mais, além dos beijos de morango.
Morango.
Mas o sol brilhava.
Muito.
Eu?
Contente como nunca.
Sorrisos de baunilha e deliciosos beijos de morango.
Deliciosos.
O sol brilhava.
Eu?
Apenas dormindo e sonhando.
Nada era real.
Nada.
Mas nada pode ser melhor que isso.
Um sonho bom.
Um grande sonho bom.
Um enorme sonho bom.
E quando acordei?
Ah... a realidade.
Apenas isso.
Apenas.
E doces memórias de sonhos bons.
Muito bons...








BLANK GENERATION

E o baterista tocava de forma insana.
Insana.
Raivosa.
Louca, rápida e forte.
Muito forte.
Muito raivosa.
Como se não houvesse amanhã.
E elas?
Bem, elas apenas se olhavam. Apenas se olhavam.
Paixão, carinho e amizade.
E muitas doses de gim.
Muitas doses de gim.
E o baterista?
Bem, ele continuava tocando de forma e raivosa.
Apenas olhando o seu público.
Paixão, carinho e amizade.
E muitas doses de gim.
Muitas doses de gim.
E seus braços?
Doendo.
Assim como seu coração...
Assim como ele.


BLANK GENERATION
Richard Hell and the Voidoids

“ I was sayin' let me out of here before I was
Even born, it's such a gamble when you get a face
It's fascinatin' to observe what the mirror does
But when I dine it's for the wall that I set a place
I belong to the blank generation and
I can take it or leave it each time
I belong to the generation but
I can take it or leave it each time
Triangles were fallin' at the window as the doctor cursed
He was a cartoon long forsaken by the public eye
The nurse adjusted her garters as I breathed my first
The doctor grabbed my throat and yelled, "God's consolation prize!"
I belong to the blank generation and
I can take it or leave it each time
I belong to the generation but
I can take it or leave it each time
To hold the T.V. to my lips, the air so packed with cash
Then…





2.8.18



BATOM DE UVA

Duas garotas lindas e atordoadas.
Atordoadas.
Pela vida, pelos fracassos, pelos amores errados, pelo excesso de álcool nas baladas, enfim, por tudo.
Tudo.
Escolhas erradas.
Erradas?
Escolhas delas.
Apenas delas.
Apenas escolhas erradas ou não, mas apenas delas.
Só.
Apenas delas.
Então, foda-se.
Duas garotas lindas e atordoadas.
Tudo conturbado.
Tudo.
Cortes, sangue, beijos, manchas, delícias, marcas, carinhos.
Odores e aromas.
Duas garotas lindas e atordoadas.
Atordoadas.
Pela vida, pelos fracassos, pelos amores errados, pelo excesso de álcool nas baladas, enfim, por tudo.
Mas, principalmente, uma pela outra.
A delícia de uma completar a outra.
Óculos escuros e persianas fechadas.
E o gosto do batom de uva era o principal.
O principal.
O sorriso do dia.
O sorriso do dia das duas.
Das duas.
Simples assim.
Simples assim.



1.8.18




TALVEZ NÃO. TALVEZ SIM. DEPENDE.

- Você é linda sabia? – ele disse de forma surpresa, rápida, inesperada. Do nada. Nada sutil. Nada sutil, mas ainda assim repetiu – Você é absolutamente linda.
Sentados em um balcão de bar do Clube Varsóvia.
- Linda...
- Talvez não. – Ela respondeu com um sorriso. Um belo sorriso.
Ele riu e emendou - Não. Você é linda. Mesmo. Definitivamente linda – completou com um sorriso.
Ela apenas sorriu ainda mais uma vez. Agora completamente tímida. Vermelha como o Campari vagabundo que bebia. Cheio de gelo e repleto de nada. Repleto de nada.
Ele retribuiu.
E a música era alta no Clube Varsóvia.
Bastante alta.
Muito.
Mas os sorrisos não.
Nada altos.
Apenas silenciosos.
E tímidos.
Fogo amigo.
Tênues, constrangidos ou mesmo devassos.
Devassos.
Eles estavam atraídos um ao outro.
Muito.
Apenas não sabiam expressar.
Definitivamente não.
- Você é linda sabia? – ele repetiu de forma surpresa e não tão rápido, nada inesperado. Nada sutil.
- Talvez não. – Ela respondeu com um sorriso. Um belo sorriso.
Ele riu e emendou - Não. Você é linda. Mesmo. Definitivamente linda – completou com um sorriso.
Ela apenas sorriu ainda mais uma vez. Agora completamente tímida.
- Gosto do seu sorriso – ela disse.
Ele concordou com a cabeça e disse – eu muito mais do seu.
E do nada, uma conversa em um balcão de bar virou uma, duas, três, quatro conversas.
Talvez sim?
Talvez não.
Apenas eles.
E precisa de mais?
Precisa?