11.5.18



ESTOCOLMO


- Estocolmo? – Bia perguntou surpresa - Estocolmo? – repetiu incrédula.
Isa a olhou com ternura e encantamento. Sabia que Bia ainda era a pessoa mais adorável que ela já havia conhecido. A mais adorável. E estava triste por tudo aquilo. Muito triste.
- Você é uma vaca – disse com raiva Bia.
Muita raiva.
Isa apenas sorriu trêmula. Nada disse. Não havia nada a dizer a não ser “sinto muito” e ela, Isa, não queria dizer isso. Definitvamente não queria. Não queria deixar Bia ainda mais triste.
Ainda mais triste.
- Vá se foder você e a sua Suécia. Vá se foder. Você e a porra da rainha brasileira que reina naquela porra.
Isa a olhou com extremo carinho e disse sincera – Eu te amo. Sempre vou te amar. Sempre. Você me espera? – perguntou.
Bia deu de ombros e começou a chorar ainda mais. Ainda mais.
Isa se aproximou e fez um carinho nos cabelos longos de Bia – Adoro seu esmalte. Adoro. Muito. Nunca vi nada igual. E com seus dedos longos fica perfeito.
Bia continuou a chorar – É a cor que você gosta – disse – Por isso uso – completou.
- Eu sei - emendou Isa - Claro que sei. Eu volto logo. Volto mesmo. Mas preciso fazer isso. Preciso mesmo. É a chance de uma vida.
Bia a olhou com fúria e disse desvastada – Você podia ter me dito. Você é porra da chance da minha vida.
Isa fez um carinho no rosto de Bia e disse-, serena – Não. Você sabe que eu não podia. Não podia mesmo.
E se abraçaram com muito amor e carinho. Muito amor e carinho ao som da tempestade que despencava ao longe. Raios e trovões e tudo mais.
Muitos raios e trovões e tudo mais.
Tudo mais.
E se beijaram.
Amaram.
Tocaram.
Tudo o que era possível tocar.
Tudo o que era possível beijar.
Línguas, sabores e odores.
Tudo.
Isa foi.
Sim.
Isa voltou?
Não.
Claro que não.
Bia esperou?
Também não.
Apenas chorou.
E muito.
Mas Bia foi feliz apesar de tudo.
E ainda hoje sorri ao ver aquelas fotos antigas e tudo mais.
E tudo mais...
E tudo mais.
Sob a sombra de línguas, sabores e odores.
E memórias.
Muitas memórias.
Muitas memórias.




4.5.18



QUADRICULADOS


Ela era apenas taquicardia.
Pura taquicardia e suor frio.
Suor frio.
Tremores.
Cigarros.
Um atrás do outro.
Um atrás do outro.
O balcão daquele bar escondido no centro da cidade era pequeno demais para tanta ansiedade.
Pequeno demais.
O azul e branco dos azulejos nas paredes era demais.
Demais.
Assim como o quadriculado do piso.
Como Santos Dumont no centro da cidade.
O tanto que ela amava.
Insano e bizarro, ainda mais que demais.
Sinistro.
O contrário de destro.
E quem não sabe disto?
Apenas os tolos que amam.
Apenas os tolos que amam demais.
Mas quem nunca amou demais?
Quem?
Sinistro.
O contrário de destro.
E quem não sabe disto?
Apenas os tolos que amam.
Apenas os tolos que amam demais.
E ela deu mais um trago e mais uma tragada.
Chorou.
Soluçou.
Quatro e meia da manhã.
Ele?
Ele?
Ele não veio.
Óbvio.
Ainda mais uma vez.
O que restou?
Apenas batimentos cardíacos acelerados, suor frio e tenso, tremores nada leves, cigarros e vodka barata, bem barata.
E a tranquilidade de quem foi esquecida.
Para sempre.
Para sempre...



19.4.18



UNDER THE IRON BRIDGE WE KISSED




Tarde demais.
Muito.
O beijo já havia rolado.
Já havia rolado.
E nenhuma balada indie dos anos oitenta podia evitá-lo.
Nenhuma.
Tarde demais.
Muito.
O beijo já havia rolado.
Já havia rolado.
E no final do dia, ainda naquela tarde de outono, eles só podiam sorrir.
Felizes.
Muito felizes.
E dane-se todo o resto.
Tarde demais.
Cedo demais.
Sorrisos.
O beijo já havia rolado.
Já havia rolado.
E eles estavam felizes.
Precisa mais?
Mais???
Claro que não...
Claro que não...






E POR POUCO NÃO SE AFOGOU...


Ela o culpava.
Muito.
Por todas as coisas erradas que ele fez.
Todas as coisas erradas que ele fez.
Sendo incorretas ou não.
Depende do ponto de vista.
Querendo ou não fazer.
Uma babaca.
Um babaca.
Dois babacas.
Dois.
Palavras rudes não curam ninguém.
Ninguém.
Não mesmo.
E devemos sentir desejo?
Devemos?
Sim.
Sempre.
Sempre. 
Sempre e sempre e sempre.
 E não devemos sentir medo.
 Nem nada muito perto disso.
 Nada perto disso.
 E sorrir.
 Quando a chuva parar de cair.
 E o coração ficar quente e calmo.
 E o corpo dela quente ao seu lado.
 Como tudo deveria ser...
 Tudo deveria ser...
Mas MPB ele não gosta.
Nunca.
Definitivamente.
Definitivamente...
E por pouco não se afogou.
Não se afogou...



19.2.18



ACORDES

E era ele e sua guitarra verde velha.
Apenas os dois: Ele e os seus acordes - além de um sofá horroso, um apartamento velho e um copo de gim.
Sem gelo.
Sem ar condionado.
Sem suor.
Sem nada.
Nada mais.
Nada mais.
Apenas acordes mal tocados.
E eles rolavam noite afora.
Descontrolados.
Deliciosos.
Acordes.
Apenas acordes.
Misturados ao barulho da chuva.
Misturados ao som do salto alto da vizinha de cima.
Delícia de saltos e unhas vermelhas pintadas.
Acordes misturados aos sons da noite.
Ao som das unhas da sua vizinha.
Ao som dos seus dedos.
Acordes.
Apenas acordes.
Dedos delicados e sensíveis.
Acordes misturados aos deliciosos barulhos da madrugada.
Sons deliciosos.
Os barulhos da sua vida.
Medíocre, porém adorável vida.
Nada mais que isso.
E pode haver mais?
Pode?
E você me diz aonde ir.
Aonde ir...

“One sign said north one sign said east so I went south…”





16.2.18



A NOITE É (OU FOI) UMA PRINCESA


- Você não entendeu porra nenhuma do que eu disse, não é?– ele perguntou e gritou descontrolado.
Ela sorriu de forma irônica e respondeu – Não? Vá se foder seu otário. Você é um imbecil. Um imbecil completo.  Eu entendi bem a porra toda. Eu entendi tudo. Vai com ela, filho da puta. Vai com ela para a porra da festa.
Ele olhou para o alto e nada disse.
Apenas suspirou.
Suspirou forte.
- O que foi? – ela perguntou - Deixou de ser o bonzão, o cara legal, o super amigo daquela vaca? – disse de forma amarga.
- Você não entendeu merda nenhuma do que eu disse – ele repetiu menos descontrolado – Ela apenas quer minha companhia. Apenas minha companhia. Nada a ver, além disso.
Ela chorou.
Ele não.
- Olha, faça o que você quiser – ela disse - O que quiser. Mas me deixe em paz. Pode ser? – perguntou com os olhos vermelhos, aflitos, desesperados.
Ele quase chorou.
Quase.
- Eu recordo uma canção antiga – ela disse. Dizia assim: “A noite é princesa, caída por mim, no lado do peito secreta solidão... Eu lembro lugares...
- Lugares? - ela completou – quero que você suma. Suma. De verdade. Some da minha vida. Some...
Ele abaixou a cabeça.
Ela nada disse.
- Posso...? – ele tentou.
- Vá se foder e cai fora – ela respondeu. Mais rápida que ele. Muito mais ligeira.
E do nada se fez o mesmo.
Erros de um. Erros do outro.
Erros.
E um frágil amor.
Um frágil amor...
Muito...






COSMONAUTA DJ


Três da manhã.
A noite daquela sexta estava apenas começando.
Apenas começando.
O Clube Varsóvia estava cheio, como sempre.
Como sempre.
Mesmo com a chuva despencando lá fora.
Despencando em baldes, não em gotas. Não em gotas.
Ao menos a luz não caiu.
Ao menos nenhum imbecil pediu música.
Ao menos até aquele momento.
Mas, ok.
Ele estava em casa, cercado de seus vinis, de seus pendrives, de seu notebook, enfim, de tudo o que precisava para tentar fazer as pessoas dançarem.
Estava dentro do seu aquário minúsculo com todos estes aparelhos, apenas escolhendo as músicas e observando as pessoas dançando, beijando, cheirando, fumando, curtindo, rindo, olhando umas as outras. Uma deliciosa caça de gatos e ratos sob aquelas luzes incansáveis que não paravam de brilhar e girar sua mente como um disco de vinil.
E, mesmo querendo estar sozinho, ele estava dentro do seu aquário.
Dentro do seu minúsculo, porém adorável e seguro aquário.
No Clube Varsóvia.
Um cosmonauta ilhado dentro da sua nave.
Apenas com a sua música, com os seus problemas, as suas doenças, as suas dores, as suas necessidades, a sua saudade. Muita saudade. Muita saudade.
Mas ninguém precisava saber disso.
Ninguém.
Ninguém precisava saber disso.
O que precisavam era de músicas felizes.
Muito felizes.
Ele tinha que tocar músicas compostas de pílulas rosa e balas em forma de acordes mal performados ou batidas eletrônicas.
Conforme o momento.
Conforme a nicotina.
Conforme a taxa etílica.
Conforme o nível de endorfina da pista.
E já eram quatro horas da manhã.
A noite já havia começado.
Começado há tempos.
O Clube Varsóvia ainda mais cheio, como sempre naquele horário.
Como sempre.
E ele, o “responsável” pela dança precisava tocar as canções felizes, embora, definitivamente, ele não quisesse.
Não mesmo.
Ao menos não naquela noite.
Não naquela noite.
Mas ninguém precisava saber disso.
Ninguém.
Pílulas rosa e balas em forma de acordes mal performados ou batidas eletrônicas fazem todos dançarem. Todos dançarem.
Tônica da noite.
Isto é o que importa.
Mais uma noite em Varsóvia.
No Clube Varsóvia.
E, do nada, uma garota bem bonita deixou um bilhete mal feito em um guardanapo vagabundo e o escorregou para os seus dedos entre as frestas do seu aquário.
Sorriu, piscou o seu olho direito e partiu.
Ele ficou surpreso.
Bastante surpreso.
Bastante.
E leu o que estava escrito.
Sorriu como um tolo.
Um tolo.
Esqueceu as músicas, esqueceu a pista, esqueceu o aquário e sorriu.
Apenas sorriu.
Muito feliz.
Muito feliz mesmo.
Decidiu tocar apenas o que queria dali para frente.
Apenas o que queria.
Canções sobre pílulas rosa e balas em forma de acordes mal performados ou batidas eletrônicas para fazer todos dançarem. Todos dançarem.
Inclusive ele.
Um Cosmonauta fora de órbita.
Na Ionosfera, apenas lembrando e desejando aquelas pernas tatuadas.
Dela.
E ela?
Estava lá.
Era o que o bilhete dizia.
Bebendo e o observando dentro do aquário.
Depois de tanto tempo.
Tanto tempo.
O que dizia o bilhete?
Nada além de uma deliciosa caça de gata e rato sob aquelas luzes incansáveis que não paravam de brilhar e girar a mente do DJ como se fora um velho disco de vinil.
Ele sorriu ainda mais percebendo ela sentada no bar o fixando, com suas lindas pernas tatuadas ao lado da sua linda amiga delivery de bilhetes.
Ele estava na Ionosfera.
Ionosfera.
E a observando.
Cruzamento delicioso de olhares.
Ela, do balcão do bar.
Ele, da sua isolada nave cosmonauta.
Ela apenas esperando ele parar.
Ele desejando muito isso.
Apenas parar e ir até ela.
Eles?
Apenas esperaram a noite acabar para, assim, a noite realmente começar...
Começar...
E ele era o DJ.
Ele decidia tocar.
Definitivamente.
Simples assim.

E quem sabe o que é a Ionosfera?
Quem sabe naquela hora da madrugada...
Naquela hora da madrugada.

Apenas eles.
Apenas eles.

“IONOSFERA
substantivo feminino
Camada da atmosfera terrestre que contém cargas elétricas (íons e elétrons  livres), situada entre a estratosfera e a exosfera, a aprox. 50 km –80 km de altitude”
(Dicionário Houaiss)

Simples assim.

“D.J.

I'm home, lost my job, and incurably I'll
You think this is easy, realism
I've got a girl out there, I suppose
I think she's dancing
Feel like Dan Dare lies down
I think she's dancing, what do I know?
I am a D.J., I am what I play
Can't turn around no, can't turn around, no, oh, ooh
I am a D.J., I am what I play
Can't turn around no, can't turn around, no, oh no
I am a D.J., I am what I play
I got believers
Believing me, oh
One more, weekend, of lights and evening faces
Fast food, living nostalgia
Humble pie or bitter fruit
I am a D.J., I am what I play
Can't turn around no, can't turn around no, ooh
I am a D.J., I am what I say
Can't turn around no, can't turn around, ooh
I am a D.J., I am what I play
I've got believers
Believing me
I am…”








15.2.18



GOTAS DE SUOR QUE NÃO MOLHARAM NADA E NEM MOLHARÃO MAIS NINGUÉM


O relógio avançava e avançava e avançava.
Ponteiros a mil.
Mil.
Velocidade máxima.
Total Sandra Bullock para quem tem mais de duzentos anos.
Velocidade máxima.
Ponteiros voando.
Alta madrugada.
Muito alta madrugada.
Mas ela não dormia.
Definitivamente Estela não dormia.
A insônia reinava.
A insônia reinava, porém não sozinha.
Não sozinha.
A fumaça era a rainha.
A real rainha.
A fumaça predominava em todo o ar que se poderia, eventualmente, respirar naquele apartamento de merda em que ela morava no centro antigo da cidade.
Aquele minúsculo apartamento de único cômodo (cômodo?).
A fumaça fazia o ar fugir pelas mínimas frestas do apartamento, de tão densa que aquela fumaça era.
Fumaça de ódio, fumaça de dúvida, fumaça de ressaca, fumaça de amor mal resolvido, fumaça imaginária, fumaça de cigarro barato comprado no centro da cidade junto a um camelô qualquer.
E Estela estava nervosa.
Muito nervosa.
Ansiosa.
Muito ansiosa.
Muito nervosa e ainda mais ansiosa.
Ansiolítico nenhum resolveria.
Nenhum.
Não àquela altura.
Não.
Mesmo.
Apenas a voz de Lígia, que ela tanto queria ouvir.
Que ela tanto queria ouvir.
Coisa sem sentido.
Coisa de amor.
Sem sentido.
Sem razão.
Razão que Estela, definitivamente, não tinha e nem nunca teve.
Nunca.
Mas ela esperava a porra do telefone tocar.
Ainda esperava tocar.
Ainda...
E quem tem telefone fixo hoje em dia? – ela pensou, tendo a real noção da sua situação tão ridícula.
E ela fumava e fumava e fumava e bebia e bebia e bebia e o relógio avançava e avançava e avançava.
Ponteiros a mil.
Mil.
Sandra Bullock para quem tem mais de duzentos anos.
Alta madrugada.
Mas ela não dormia.
Definitivamente não dormia.
Apenas suava.
Suava e suava e suava.
Gotas de suor ácidas e frustradas.
Gotas de suor.
Gotas de suor que não molharam e nunca mais molharão ninguém.
Definitivamernte.
E o sol, finalmente, nasceu.
O telefone, com certeza, não tocou.
Lígia não ligou.
Estela não dormiu.
E as gotas de suor?
Secaram.
E nunca molharam e nem molharão mais ninguém.
Mais ninguém...

Nunca mais...

9.2.18


Nunca republiquei

mas hj não deu.

Republico.

Muito oportuno.

Muito...


CARNAVAL, REVEILLON E MPB

Ela gostava de MPB.
Ele não.
Ela acreditava no além.
Ele não acreditava em nada além dele.
Ela gostava de tudo, menos de Elis Regina.
Ele gostava de tudo, mais de Ramones.
Ele a amava.
Ela também.
Ele não sabia nada.
Ela o ensinou.
Ele aprendeu.
Eram duas figuras totalmente diferentes uma da outra, porém muito iguais.
Esquisito não?
O destino existe? Será?
- Você me ama? – ele perguntou inseguro demais apesar da sua idade, segurando-a pelos seus ombros largos e deliciosos com paixão e muito tesão. Com muita paixão e muito tesão. Amava (ela e os seus ombros desnudos).
Ela sorriu. Muito mais nova que ele, muito mais nova que ele, porém muito mais madura, com certeza – Claro. Claro que amo, seu bobo.
Ele chorou.
Ela sorriu. Sorriu e secou as suas lágrimas.
- Não chora – ela pediu – Por favor.
- Não consigo – ele respondeu.
- Não? – ela insistiu dando-lhe um beijo carinhoso e delicado em seu rosto – O amor existe, seu bobo. Basta acreditar.
Ele secou as suas lágrimas e com a voz tonta e embargada apenas respondeu - Eu sei. Eu sei que existe. Demorei, para perceber isto não?
Ela sorriu seu sorriso mais lindo – Nunca é tarde. Bobo. Ao menos você percebeu. Antes tarde do que nunca. É bom aprender a ser feliz.
- Te amo – ele disse.
- Eu também – ela respondeu com um sorriso.
Ela gostava de MPB.
Ele não.
Ela acreditava no além.
Ele não acreditava em nada além dele.
Ela gostava de tudo, menos de Elis Regina.
Ele gostava de tudo, mais de Ramones.
Ele a amava.
Ela também.
Ele não sabia nada.
Ela o ensinou.
Ele aprendeu.
Esquisito não? Como destino pode ser tão brincalhão assim? Como?