31.8.17


ENGANO

- Engano? Como assim engano? – ele perguntou nervoso, áspero, com raiva. Muita raiva. Muita. Muita raiva. Muita paixão. Paixão. Debilitada. Moribunda.
Ela concordou com a cabeça e nada disse. Apenas tentou sorrir. Não conseguiu.
- É isso? – ele insistiu, tentou, procurou.
Sem efeito.
Sem nenhum efeito.
Ela?
Inerte.
- Foi um engano? – ele perguntou – É isso? – repetiu.
Ela assentiu com a cabeça ruiva.
Nada mais disse.
Ele também não.

Enganos?
Acontecem.
Dores?
Ainda mais.
E nada é o que já foi um dia.
Depende dos lábios.
Depende dos lábios...

AURÉLIO
ENGANO
1 - Ato ou efeito de enganar.

2 - Artifício empregado para enganar.
3 - Ilusão.
4 - Burla, logro.
5 - Traição.
6 - Erro de quem se engana.
7 - levar ao engano:  desflorar, desvirginar.

17.5.17


 
NÃO SEI.
 
 
Não sei se te amo.

Não sei se demais.

Não sei de nada.

Nada.

Não sei.

Mas te amo.

E você sabe.

Desejo, delírios e tudo mais.

Não sei se te amo.

Não sei se demais.

Muito, pouco ou o suficiente.

O adequado.

- Quer uma bebida? - ele perguntou sob a música insana do Clube Varsóvia.

Ela apenas sorriu e concordou com a cabeça, com seus lindos cabelos dourados e cumpridos. Lindos.

Desejo, delírios e tudo mais.

Tudo mais.

A noite acabara de começar...

Começar...

10.5.17



ÁGUA...


 Água.

Por todos os lados, por todos os cantos, por todos os poros.

Todos.

Água.

Muita água.

Água demais.

Água que infla, que irrita, que arde, que queima.

Que mata.

Que salva.

Água.

Muita água.
E ele queria saber do beijo, da saliva, dos toques, dos truques, de tudo.

O momento certo de alisar o cabelo dela.

O momento certo de piscar.

De beijar.

De sorrir.

Apenas o momento certo.

E, cores?

Sim. todas as cores.

Todos os sabores.

Todos os aromas.

Todos os amores.

Toda ela.

Toda ela.

E ele?

Apenas queria beber água.

Muita água.

Garganta e lábios muito secos.

Tudo.

Ao mesmo tempo.

Ao mesmo tempo.

Cores.

Todas as cores.

Todos os sabores.

Todos os aromas.

Toda ela.

Toda ela.

Toda ela...

...


FRAGRÂNCIAS E PERFUMES
 
Perfume.

Fragrâncias.

O aroma do perfume.

O aroma das fragrâncias.

Raso, ralo, penetrante, impactante.

Memórias, desejos e vontades.

Aroma.

Puro aroma.

Que o fazia lembrar dela.

De cada fio de seu cabelo.

Aroma que o fazia lembrar dela.

Cada fio.

Cada fio um sonho.

Um desejo.

Uma vontade.

Perfume.

Fragrâncias.

O aroma do perfume.

O aroma das fragrâncias.

Raso, ralo, penetrante, impactante.

Memórias, desejos e vontades.

Vontade dela.

E de seu perfume.

Perfume...

Que ele nunca sentiu.

Nunca sentiu...

9.5.17



 
TUDO.
 
 
- Nem sempre é tudo assim, não? - ele perguntou, todo bobo, meio sério. Todo bobo.

- Não - ela respondeu direta, sorrindo ao som de New Order e do DJ do Clube Varsovia e algumas doses de vodka.

Felicidade.

Nada com nada.

Nada com ela.

Nada com ele.

Nada com eles.

Nada.

- Nem sempre é tudo assim, não? - ele pergunto novamente, ainda mais bobo, ainda mais sério. ainda mais bobo.

- Não - ela respondeu novamente e de forma direta, sorrindo ao som de The Smiths e do DJ do Clube Varsovia e algumas doses de vodka.

Felicidade.

E vodka...

Muita vodka...

E nem sempre tudo é assim.

Tudo é do jeito que tem que ser.

Do jeito que ser que ser....

Para o bem...

Ou para o mal...

Seja o que for...

4.5.17


PERNAS 
Pernas grandes, pernas grossas.
Tatuadas.
Cariocas.
Lindas.
Pernas de uma menina.
Nada moça.
Nada moça.
Adulta.
Pernas grandes.
Pernas grossas.
Tatuadas.
Lindas.
Fluminenses.
As pernas dela.
Deliciosas.
E ele? Pobre tolo. Apenas sonhava em tocar.
Ele? Pobre tolo. Apenas sonhava em beijar.
Pernas grandes.
Pernas grossas.
Tatuadas.
Lindas.
As pernas dela....
Dela...
 


TODAS AS OUTRAS COISAS 
- Pernas? - ela perguntou áspera, irritada, brava, sob o barulho do Clube Varsóvia. Entre um gole e outro de vodka.
- Só te importam as pernas? - ela insistiu.
- E todas as outras coisas? - ela perguntou.
Ele apenas sorriu e tragou o seu cigarro vagabundo.
- E então? - ele perguntou - Pernas?
Ela sorriu e disse - Sim, pernas. Lindas, grossas, bronzeadas e tatuadas. As minhas pernas. As minhas pernas.
Ele deu um trago em seu cigarro um gole da sua vodka e disse - Que eu adoro.
Ela sorriu.
- E que jamais vou tocar- ele emendou - Jamais.
Ela apenas sorriu sob o barulho do Clube Varsóvia. Entre um gole e outro de vodka.
Entre um gole e outro de pernas...
 

28.4.17



CORNUCÓPIA DE NUVENS E TROVÕES

Abundância de desejos, de sonhos e de vontades.

Abundância do que se pode e do que não se pode ter.

Muitas vezes não.

Muitas, mas muitas vezes não.

Uma abundância de nada.

Nada.

- Eu te amo, sabia? - ela disse direta, reta e objetiva.

Ele arregalou os olhos, tomou um gole da sua vodca e ficou em silêncio. Um trago no cigarro na sequência.

- Não vai responder nada? - ela insistiu.

Ele continuou em silêncio apenas deixando as gotas da chuva que explodiam na janela manifestarem. A voz era delas. O barulho e o encanto era delas. Nenhumas das bobagens que ele iria falar.

- Você é um babaca - ela completou -  Nem sei o que faço aqui - concluiu.

Ele tomou mais um gole da sua bebida e disse de forma pausada, certeira, direta - Claro que te amo. Muito. Mas fico triste de você me amar. Não merece tanta estupidez. Não merece um babaca como eu.

Ela suspirou pesadamente e disse - Idiota. - Foge de tudo. Da vida, dos amores, das pessoas. Um verdadeiro imbecil.

E a chuva continuava a cair.

Relâmpagos, raios e trovões.

Mas... abraçaram-se e a noite foi mais feliz.

Ainda que ele soubesse que para ela, cedo ou tarde, não... Não haveria amor e nem mais o que quer que fosse.

Ela sabia disso.

Com certeza.


27.4.17


 
 
ESCREVER, ESCREVER E ESCREVER.
 
 
Tudo o que ela fazia era isso.

Além de ir beber no Clube Varsóvia e ouvir músicas indies no celular com aqueles malditos fones de ouvido na cor branca, ela sempre estava no Varsóvia.

Sempre.

No Clube.

Varsóvia.

Sempre com companhias erradas.

Sempre com bebidas erradas.

Sempre com cigarros errados.

Errados.

Sempre.

Daquele jeito.

Tudo o que ela fazia era isso.

Beber no Clube Varsóvia e ouvir músicas indies no celular com aqueles malditos fones de ouvido na cor branca.

Fones de ouvido na cor branca.

E ela sempre estava no Varsóvia.

No Clube Varsóvia.

Companhias erradas, bebidas erradas, drogas erradas.

Tudo errado e muito mais.

Tudo errado e muito mais.

Tudo errado.

Muito errado.

Tudo o que ela fazia era isso.

Coisas erradas.

E no Clube Varsóvia.

Sempre.

Sempre.

E o amor?

Ele sempre existiu.

E ela sempre sorriu.

Ao menos enquanto estava feliz...

Ao menos feliz...
 
 
CANSADO. CANSAÇO. SÓ EU.
 
 
Cansado de ser burro.

Cansado de ser ele.

Cansado de ser só ele.

Só isso.

Só ele.

Só isso.

Só nada.

Nada.

Um burro.

Um nada.

Nada.

Mas cansado...

Cansado de ser burro.

Cansado de ser apenas ele.

Cansado de ser só ele.

Só isso.

Só ele.

Um nada.

Nada.

E aí ele.

Uma noite fria, um beijo uns carinhos e nada mais.

Nada mais...

Nada...?

Mais...

Mas...